Jonne Roriz/AE
Soja. Metade da safra brasileira, de R$ 200 milhões, será da oleaginosa Jonne Roriz/AE

O mundo quer alimento

O Brasil tem localização geográfica e clima perfeitos para a agricultura e pecuária. Além disso, grande extensão territorial, recursos naturais e tecnologia para o cultivo de alta produtividade nos trópicos. E gera excedentes que cada vez mais interessam ao mundo, a ponto de em pouco mais de duas décadas poder se tornar o principal fornecedor global de alimentos, sobretudo grãos e proteína animal.

O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 15h55

Esta vocação do País, porém, terá de superar alguns desafios, debatidos no dia 26 de novembro, no Summit Agronegócio Brasil 2015, promovido pelo Estado com patrocínio da Federação de Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), na capital. O principal deles é conseguir um volume maior de investimentos, tanto governamentais quanto por parte da iniciativa privada.

Gargalos. Embora os portos do Arco Norte já tenham se tornado realidade no escoamento da volumosa safra, que deve superar novamente 200 milhões de toneladas de grãos, ainda há gargalos logísticos, de armazenagem, transporte, garantia de renda e crédito - um dos principais entraves neste ano-safra, principalmente recursos para investimento.

Num cenário em que o País se prepara para sua segunda "revolução agrícola", de produzir muito mais com muito menos, a tecnologia é essencial - uma delas, aposta da Embrapa no futuro, é a integração lavoura-pecuária-floresta, com atividades que convivem no mesmo espaço. Além, é claro, do preparo e da capacitação do setor produtivo. Neste quesito, a iniciativa privada, como a agroindústria, é essencial, investindo em tecnologia no campo e aumentando a produtividade em favor de seu próprio interesse: abastecer com comida os mercados interno e externo.

Para garantir sua inserção definitiva no comércio mundial de alimentos, porém, o Brasil terá de lidar com forte protecionismo - como a Parceria Transpacífica, bloco recém-formado que reúne alguns dos mais importantes produtores de commodities agrícolas.

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Mais investimento, parceria e inovação para o agronegócio

Brasil está às portas da segunda ‘revolução agrícola’, capaz de garantir alimentos para o mundo, mas há vários obstáculos a superar

Camila Turtelli,Renato Oselame, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 15h58

O Brasil já se consolidou como um grande produtor de alimentos e inevitavelmente se transformará no principal abastecedor de commodities agrícolas do mundo daqui a alguns anos. Para tanto, porém, é necessário aplicar mais recursos em logística, infraestrutura, pesquisa, tecnologia, extensão rural, capacitação, crédito e seguro rural, sendo que boa que parte desses investimentos deve ser feita não só pelo governo, mas também pela iniciativa privada. Além, é claro, de conciliar a produção à preservação do meio ambiente, usando com absoluta parcimônia os recursos naturais que são finitos – incluindo a água. Tecnologia já há inúmeras disponíveis, mas devem ser usadas em conjunto para garantir seu máximo aproveitamento. Estes temas principais permearam as palestras do Summit Agronegócio Brasil 2015, realizado pelo Estado em 26 de novembro, quinta-feira, com patrocínio da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp).

Interessados de fora. “É preciso muito mais investimentos do que estamos fazendo hoje. E as condições do País podem atrair muitos interessados de fora”, afirmou o representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, Alan Bojanic. O professor José Vicente Caixeta Filho, da Esalq/USP, sugeriu investimentos em estruturas de armazenagem. Ele avaliou que, além da dependência do transporte rodoviário, a capacidade de guardar a safra é limitada. “Produtor não tem onde armazenar e usa o caminhão como silo; isso eleva o frete.”

O presidente do Conselho da Cosan, Rubens Ometto, foi enfático ao dizer que a iniciativa privada deve investir pesado no agronegócio: “Não podemos ter um governo muito partícipe nisso. Eu acredito na livre iniciativa”. O presidente da Cosan, Marcos Lutz, estimou que o desperdício pelos gargalos logísticos no Brasil equivale a 5% do Produto Interno Bruto. Ele reforçou a necessidade de diversificar os modais brasileiros e defendeu o aumento da participação das ferrovias.

Governo. O evento contou com a participação de dois membros do primeiro escalão governamental: o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) e o vice-governador de Mato Grosso, Carlos Fávaro (PSD). Alckmin destacou que, na atual crise brasileira, o agronegócio “tem sido uma exceção”. “No momento de crise e dificuldades, este setor é o que tem trazido boas notícias”, disse. Já o vice-governador Fávaro, de MT, concordou com Ometto em relação à necessária integração entre governo e iniciativa privada para concretizar investimentos que beneficiem diretamente o agronegócio. No caso, a recuperação de estradas. “Temos um desafio gigante para melhorar as rodovias em Mato Grosso”, declarou, ao lembrar que apenas 10% da malha rodoviária do Estado é asfaltada. “Para isso, contaremos com o apoio dos próprios produtores. Não podemos esperar dinheiro de Brasília ou da China.”

Para garantir alimentos para o mundo, o Brasil também deve lançar mão de tecnologia para não ter de abrir mais áreas de florestas. Por isso o pesquisador Silvio Crestana, da Embrapa, disse que a “nova revolução” agrícola passa agora por um segundo ciclo, de recuperar as áreas degradadas. Neste contexto, o presidente no Brasil da John Deere, Paulo Herrmann, garantiu que a fabricante de máquinas agrícolas investiu US$ 2 bilhões nos últimos anos para adequar sua tecnologia aos trópicos. O diretor de Operações de Negócios Brasil da Bayer CropScience, Rafael Villarroel, ressaltou, porém, que nenhuma tecnologia pode ser usada isoladamente. “É preciso combiná-las para que elas mostrem todo o seu valor.” Combinação também deve haver entre produtor e agroindústria, na visão do professor da USP Decio Zylbersztajn. “Deve haver integração entre essas pontas e também com a universidade”, declarou, no painel sobre novos cenários para a coordenação entre a agricultura e a pecuária.

Crédito. Em painel exclusivo, o presidente do Banco do Brasil, Alexandre Corrêa Abreu, ressaltou, porém, que o uso de mais tecnologia nesta safra (2015/2016) pode estar comprometido, dada a baixa demanda por crédito para investimento por parte do produtor rural. “Nós achamos que o aumento da produtividade está ligado ao aumento do investimento. É um ponto de atenção nesta safra”, declarou, referindo-se ao possível menor uso de tecnologia decorrente disso.

Segundo ele, os desembolsos do crédito rural entre julho e setembro somam R$ 21,7 bilhões, com média de R$ 334 milhões por dia útil, avanço de 30% ante o mesmo período de 2014. Abreu não informou porém, qual o montante destinado ao investimento e qual se refere à linha para custeio, cuja demanda aumentou este ano.

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Sem recursos, País não concretizará seu potencial

O Brasil já provou seu grande potencial para se transformar num “celeiro do mundo”, garantindo alimentação da própria população e de boa parte do Planeta nos próximos anos. Para que isso se concretize, porém, são necessários mais investimentos. Esta foi a ideia central defendida pelos participantes do primeiro painel “Brasil, celeiro do mundo”, no Summit Agronegócio.</p>

O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 16h01

“São necessários muito mais investimentos do que estamos fazendo hoje, inclusive externos”, disse o representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, Alan Bojanic. Para ele, é necessário que o governo apoie o setor. “Sabemos que os investimentos públicos não estão fáceis, mas deve-se tentar manter o nível atual.”

O presidente da Bunge no Brasil, Raul Padilla, afirmou que o auxílio dos órgãos públicos pode ser feito desburocratizando operações para a iniciativa privada. Ele citou que os investimentos recentes em portos vieram, em sua maioria, de empresas. Padilla enumerou os recursos naturais do Brasil, de localização geográfica e de clima que o favorecem na produção de alimentos, mas disse que o País precisa de uma logística melhor, “para administrar esta fantástica produção”. Como exemplo, citou a necessidade de uma rodovia “transitável”, que estimule mais ainda as exportações via Arco Norte.

Já o professor e ex-diretor da Esalq/USP José Vicente Caixeta Filho disse que é preciso definir melhor o papel dos agentes públicos nesses investimentos. “O setor público precisa ser regulador ou formulador de projetos, só que este papel não está bem definido, o que causa incertezas”, afirmou. Para ele, o impulsionador desses projetos deve ser o setor privado. Como exemplo, citou os portos do Arco Norte. “Agora não temos mais como grande preocupação a dependência de portos do Sul e do Sudeste para escoar grãos.” Do lado do produtor, Bojanic, da FAO, recomendou atenção ao cenário econômico global, principalmente em relação à China. “O Banco Mundial e o FMI preveem que ainda teremos crescimento moderado. A recuperação está devagar”, disse.

Em vídeo, o economista-chefe da Bolsa de Chicago (CME Group), Blu Putnam, alertou sobre as consequências dos eventos climáticos. “Após um forte El Niño, com chuvas em excesso, o mundo pode ter uma La Niña muito forte, com o efeito oposto”, destacou, advertindo sobre o risco de grandes oscilações nos preços das commodities nos próximos anos. / C.T. e R.O.

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Logística deficiente tira lucro do setor

Empresários e área governamental defendem maior participação da iniciativa privada para eliminar gargalos no escoamento da produção

Camila Turtelli,Renato Oselame, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 16h06

“O que ganhamos no campo devolvemos nos portos e terminais”, resumiu o presidente do Conselho da Cosan, Rubens Ometto, em sua palestra sobre logística no País, no Summit Agronegócio Brasil 2015. Tanto Ometto quanto os participantes do painel “Desafios da Logística” disseram que as deficiências neste segmento são o principal entrave para o desenvolvimento do agronegócio brasileiro. “Temos um malha ferroviária muito aquém do potencial. A prioridade inicial precisa ser terminar os investimentos que já tiveram início para que funcionem com eficiência e, num segundo tempo, começar a fazer os greenfields”, disse.

Para Ometto, um dos caminhos para impulsionar o setor é reduzir a intervenção governamental. “Não podemos ter um governo muito partícipe neste negócio. Eu acredito na livre iniciativa. Quando há isso você resolve boa parte dos problemas, não há corrupção, cada empresário é responsável pelas coisas que faz.”

Soluções imediatas. O diretor presidente da JSL Logística, Fernando Antônio Simões, também ressaltou o papel da iniciativa privada para explorar soluções que melhorem o escoamento da produção. “O governo tem responsabilidade, mas não esperemos a sua contribuição (para agir). Vamos melhorar o que já existe para obter soluções imediatas, e não de longo prazo”, afirmou.

Simões citou empresas que agiram para resolver gargalos de logística, como a Fibria, do setor de papel e celulose, que construiu terminais marítimos no sul da Bahia para transportar produtos ao Espírito Santo, e a Veracel, que atua no mesmo segmento e montou um porto a 60 quilômetros de sua nova fábrica em Porto Seguro (BA), retirando 75 caminhões/dia da rodovia BR-101. “Não há gargalo logístico que segure o desenvolvimento do País e a inovação da iniciativa privada.”

Simões citou, ainda, dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Os números indicam que, dos 30 mil quilômetros de malha ferroviária, 6 mil quilômetros operam com densidade inferior a um trem por dia. A média de velocidade dos veículos no Brasil é de 25 quilômetros por hora, ante 80 quilômetros por hora nos EUA. “Antes de projetos que exigem aportes bilionários e prazos extensos, a prioridade é melhorar a malha já existente”, destacou.

Assim como outros palestrantes, o presidente da Cosan, Marcos Lutz, argumentou que a iniciativa privada precisa agir para melhorar o escoamento da produção. Nessa linha, ele cita que a Rumo ALL, empresa do grupo, pretende investir R$ 7,4 bilhões até 2019. O montante se refere à renovação da frota de 5 mil vagões e 200 locomotivas, além da reforma de mais de 3 mil quilômetros de vias permanentes e construção de novos pátios.

Modais. Lutz reforçou, além disso, a necessidade de diversificar os modais brasileiros para melhorar a logística do agronegócio nacional, com ênfase no aumento da participação das ferrovias. E ressaltou: “Claramente o agronegócio será uma das principais forças para a economia brasileira nos próximos anos e um dos importantes pilares para sairmos da crise”. O presidente da Cosan estimou que o desperdício pelos gargalos logísticos no Brasil equivale a 5% do PIB nacional. Segundo ele, o custo médio do transporte de grãos no País é quatro vezes maior do que o de concorrentes, como Argentina e EUA. Como exemplo, afirmou que o transporte de 1 tonelada de grãos de Lucas do Rio Verde (MT) a Santos (SP) por rodovia custa R$ 310. “Basicamente. gastos em pneus, diesel e caminhões (depreciação) não pagam a conta das estradas de Mato Grosso, que ficam destruídas.” Em contraste, se o produto fosse transportado por caminhões até Rondonópolis (MT) e depois enviado via ferrovia ao porto, o custo seria de R$ 270 por tonelada.

Mato Grosso. O setor governamental deve ampliar parcerias com a iniciativa privada, sustentou o vice-governador de Mato Grosso, Carlos Fávaro (PSD-MT) em sua palestra. Segundo ele, atualmente, em seu Estado, há cinco concessões vigentes com empresários locais para melhoria de estradas que escoam a produção agrícola e pecuária – Mato Grosso é o principal produtor de soja do País. Uma alternativa, apontou Fávaro, que já foi presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado (Aprosoja-MT), é contar com o apoio dos próprios produtores para melhorar a logística das regiões em que atuam. “Não podemos esperar dinheiro de Brasília ou da China para melhorar Mato Grosso”, disse ele, acrescentando que, se o nível de pavimentação de estradas no País é de 25%, em MT esse índice cai para apenas 10%. “Temos um desafio gigante para melhorar as rodovias em Mato Grosso.”

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Próximo ciclo da agricultura demandará ainda mais tecnologia

Aumento da produção e da produtividade deve se aliar a conhecimento quegaranta uso criterioso derecursos naturais

O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 16h08

O uso de tecnologia aplicada ao campo será cada vez mais essencial não só para aumentar a produtividade mas também para usar de maneira mais racional recursos naturais, como fertilizantes e água, que são finitos. No painel “Tecnologia no Campo”, no Summit Agronegócio 2015, o pesquisador da Embrapa Silvio Crestana disse que a inovação efetivamente revolucionou a agricultura brasileira, elevando de maneira surpreendente a produtividade nas últimas décadas. “O desafio agora é saber se vamos continuar com esse crescimento ou ele se estabilizará”, disse ele, ressaltando que agora a tecnologia precisa se voltar a melhorar o uso dos recursos naturais, pois o Planeta tem limites. “Precisamos pensar no segundo ciclo da revolução agrícola tropical”, afirmou, ressaltando a necessidade, por exemplo, de recuperação de áreas degradadas.

Máquinas. O presidente no Brasil de uma das maiores fabricantes de máquinas agrícolas do mundo, a John Deere, Paulo Herrmann, disse que a empresa investiu US$ 2 bilhões nos últimos anos para adequar sua tecnologia aos trópicos. Segundo ele, especificações geográficas e climáticas de cada local foram consideradas. O executivo destacou o potencial produtivo no Brasil. “No País há produtor capaz de plantar 25 mil hectares por dia e precisamos desenvolver máquinas para atender isso.” Em sua palestra no evento, Herrmann citou dificuldades com mão de obra para atender o segmento. “Ainda não estamos formando engenheiros agrônomos com capacidade de gerir sistemas”, disse. O presidente da empresa de tecnologia Sensilize Israel, Robi Stark, confirmou que as tecnologias estão cada vez mais presentes no campo, mas ainda falta formação para o uso dessas ferramentas. Para o executivo é preciso treinar os novos agrônomos sobre a aplicação dessas tecnologias. “É preciso trabalhar melhor a coleta de dados, saber quando e como coletar para ser proativo e estar à frente, com projeções para isso”, afirmou Stark.

O diretor de Operações de Negócios Brasil da Bayer CropScience, Rafael Vaillarroel, concorda com Crestana, ao dizer que o agronegócio tem avançado em produtividade, mas que hoje se faz necessário combinar tecnologias para extrair ganhos ainda maiores. “Individualmente, as tecnologias já não são mais o que nos permite tirar o máximo potencial da agricultura”, defendeu. “É preciso combiná-las para que elas mostrem todo o seu valor.” Villarroel destaca que um dos desafios do setor hoje é atender às necessidades de produtores que trabalham com múltiplos sistemas de produção e culturas. “Temos que desenhar situações que são customizadas para cada momento”, disse. / C.T. e R.O.

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Indústria e produtor devem se integrar

O professor titular da Universidade de São Paulo (USP) Decio Zylbersztajn defendeu, no painel “Campo e Indústria”, maior integração entre produtores e agroindústrias. Segundo ele, as estratégias precisam ser coordenadas, tanto da porteira para dentro quanto da porteira para fora. “Essa necessidade de estabelecer planejamento conjunto implica novas funções para as associações de representações dos agricultores, incluindo Faesp e sistema sindical”, disse, no Summit Agronegócio Brasil 2015. Zylbersztajn acrescentou que produtores e indústria precisam manter negociações contínuas, inclusive com mecanismos para a solução de conflitos. Trabalhar em sintonia, disse, é essencial para integrar a cadeia produtiva.</p>

O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 16h11

No mesmo painel, o diretor de Agropecuária da BRF, Luiz Stabile, defendeu que, para crescer no agronegócio, é preciso crescer com os parceiros (os produtores rurais). Ele contou que a empresa dispõe de técnicos que visitam os produtores integrados de frango ao menos uma vez por semana. Stábile ressaltou, porém, que o pecuaristadeve também analisar cenários – como os do mercado de milho – para traçar estratégias. “Compartilhar conhecimento e estratégias para ter agilidade nas mudanças é essencial.”

Mercosul. O presidente do grupo argentino Los Grobo, Gustavo Grobocopatel, falou de integração, desta vez no Mercosul. “Precisamos de um bloco mais aberto para alimentar mais de 1 bilhão de pessoas”, disse, acrescentando que para alcançar este objetivo deve haver maior união entre o bloco, embora reconheça que é necessário repensar seus objetivos. “Não devemos matá-lo, mas revivê-lo. Sair de um Mercosul orientado para o desenvolvimento do mercado interno para um voltado para o mundo, como uma plataforma para exportar mais.” / CLARICE COUTO, C.T. e R.O.

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Portos do Norte já são opção para grãos

Novos terminais atraem agricultores que estão acima do paralelo 16; distância menor reduz as despesas com frete

Maria de Almeida, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 16h17

A eficiência logística para o escoamento da safra brasileira não acompanha os frequentes ganhos de produção e produtividade dos grãos, o que acarreta perda de competitividade ao longo da cadeia produtiva. Tal cenário, porém, vem mudando gradativamente. A exportação de grãos pelo Arco Norte – formado pelos terminais portuários de Itacoatiara (AM), Santarém, Itaituba, Santana, Outeiro, Vila do Conde (todos no Pará) e Itaqui (MA), por exemplo, já é alternativa concreta para escoar grãos produzidos ao norte do paralelo 16 (linha imaginária que corta Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Bahia e Distrito Federal), reivindicação antiga do agronegócio.

Essa opção para o setor ganhou força com o início das atividades do Terminal de Grãos do Maranhão, do consórcio Tegram – Itaqui. “Idealizado há 12 anos, o Tegram recebeu investimentos superiores a R$ 600 milhões”, diz o porta-voz do consórcio, Luiz Claudio Santos.

Ele conta que o projeto contempla duas fases. “A primeira está concluída, ocupa o berço 103 do porto, que foi dragado para atingir 15 metros de profundidade e atender navios com capacidade para até 80 mil toneladas. No local, temos também quatro armazéns, que somam capacidade estática de 500 mil toneladas.” Segundo ele, esta primeira fase já pode escoar até 5 milhões de toneladas de grãos por ano. “A segunda fase vai ocupar o berço 100 e estará finalizada no primeiro semestre de 2017. Até 2020, movimentaremos 10 milhões de toneladas de soja, milho e farelo por ano.”

Santos estima que entre 70% e 80% dos 10 milhões de toneladas serão embarcados na Ferrovia Norte-Sul. O restante chegará por caminhões. Ele destaca que a ferrovia está em operação. “Cada vagão pode levar até 100 toneladas. Além disso, tem velocidade maior do que as ferrovias do Sul. Mas falta o governo negociar a conclusão de alguns trechos”, diz.

Pouco a reclamar. O diretor-geral da Associação Nacional de Exportadores de Cereais (Anec), Sérgio Mendes, afirma que, “por incrível que pareça, não temos muito do que reclamar, apesar de as coisas estarem indo mais devagar do que gostaríamos”.

Segundo ele, em 2015, cerca de 4 milhões de toneladas de soja e milho que seriam destinadas aos portos do Sul e Sudeste estão sendo escoadas pelos portos do Norte, principalmente nos terminais de Itaqui (MA) e Vila do Conde, no município de Barcarena (PA), em atividade desde o início do ano.

“Esse volume equivale a 114 mil carretas de 35 toneladas que deixaram de ir para os portos de Santos e Paranaguá. Por isso, sempre pedimos que desenvolvam os portos do Norte.”

Mendes lembra também que a logística para escoar a produção pelo Norte tem custo menor para a colheita que parte da região chamada Matopiba, que reúne produtores do nordeste do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. “Encurtar distâncias reduz a emissão de CO², desafoga os portos do Sul/Sudeste e as entradas das cidades ao longo das rodovias.”

Ele conta que, em 2015, o País vai exportar 96 milhões de toneladas, entre soja, milho e farelo. “Para escoar esse volume é preciso contratar 2,7 milhões de carretas e 1.700 navios transoceânicos.” Segundo ele, internacionalmente a conta que se faz em relação ao custo com o transporte rodoviário e hidroviário é de cinco vezes para o primeiro e um para o segundo modal. “Por esse motivo, os EUA têm grande vantagem. Mais de 60% do escoamento deles segue pelo Rio Mississippi.

O mesmo montante nosso vai por rodovias. Para compensar a desvantagem, nossos produtores têm de ser eficientes da porteira para dentro.” O diretor executivo do Movimento Pró-Logística de Mato Grosso, Edeon Vaz Pereira, diz que a logística para exportação de grãos ainda tem deficiências, mas está melhorando. “Nosso movimento nasceu em 2009, quando não havia nenhum palmo de pista pavimentada na BR-163 (que liga Mato Grosso a portos do Pará).

De lá para cá evoluiu, mas há gargalos em trechos não concluídos. O mesmo ocorre com a BR-158, que corta o País de Norte a Sul. Ela tinha trechos não pavimentados, agora em obras.” Pereira reconhece que há esforço do governo para melhorar os modais. “Mas faltam obras importantes, como eclusas na Hidrovia Teles Pires – Tapajós e a derrocada do Pedral do Lourenço, na Hidrovia Tocantins. Tudo isso está caminhando de forma muito lenta.” Ele lembra que a iniciativa privada também tem feito esforços. “Hoje, Porto Velho (RO) tem capacidade instalada para 12 milhões de t e Miritituba (PA), 5,5 milhões de t. Este último passará a 17, 5 milhões de t até o fim de 2017. Até 2030, alcançará 30 milhões de t/ano.”

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Terminais do Sul e Sudeste recebem investimentos

Administradores de Paranaguá, Rio Grande e Santos contam como estão melhorando aestrutura portuária

O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 16h20

Após ficar dez anos sem investir em obras de modernização, a administração do Porto de Paranaguá (PR) iniciou, há quatro anos, uma série de intervenções que fazem parte de 182 ações a serem concluídas até 2018. Os investimentos, da própria companhia, devem chegar a R$ 980 milhões.

“A década que ficamos estagnados abriu um passivo. Fizemos um mutirão de investimentos. Já licitamos R$ 511 milhões. As ações englobam desde melhoria de vias de acesso, substituição de guindastes e reforma de 2 quilômetros de cais”, diz o diretor-presidente da Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina, Luiz Henrique Dividino. Segundo ele, as obras incluem dragagem de berços com 8 metros de profundidade, ampliadas para 13,8 metros.

“Em relação aos contêineres, inauguramos um cais de 315 metros, dotado de equipamentos de ponta. No primeiro semestre de 2016 começaremos a receber navios de 368 metros de comprimento por 51 metros de largura. São navios de contêineres de última geração.” Ele diz que 85% das obras já foram concluídas. “Substituímos equipamentos que eram da década de 1970. Com as ações, acabamos com as filas de caminhões que durante décadas assolaram a BR-277. Estamos há quatro anos sem fila.”

Dividino revela que Paranaguá tem capacidade de armazenar 1,7 milhão de t de grãos, distribuídas em 29 armazéns. “Somos um porto bastante graneleiro e o que mais importa fertilizantes. Temos capacidade estática de 3 milhões de t, em 68 armazéns.” Entre janeiro e outubro, segundo a Associação Nacional de Exportadores de Cereais (Anec), Paranaguá embarcou 10,5 milhões de t de milho e soja. Segundo ele, após 25 anos sem receber investimento governamental, Paranaguá foi contemplado pelo governo federal com uma dragagem de aprofundamento do canal de navegação. “O ministro (de Portos) Helder Barbalho esteve conosco há um mês e assinou contrato de R$ 397 milhões”, conta. Dividino afirma que 70% do volume movimentado em Paranaguá vem de seu principal cliente, o Paraná. Os 30% restantes vêm de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.”

Rio Grande. O diretor técnico do Porto de Rio Grande (RS), Darci Tártari, informa que dois projetos estão em andamento para modernizar a estrutura portuária construída pelos franceses há cem anos. “Vamos modernizar toda a extensão de 1.900 metros de cais. A partir da murada existente, projetamos uma plataforma que avança 11 metros e é apoiada por estacas. Após a conclusão da obra, receberemos navios de até 90 pés. Hoje, eles têm no máximo 31 pés.” Tártari relata que já modernizou 450 metros com recursos da autarquia. “Recentemente, nos reunimos com o ministro Barbalho, que garantiu a continuidade da obra. O projeto consumirá R$ 100 milhões.”

Outra obra que terá investimento do governo federal, no valor de R$ 368 milhões, é a de dragagem de toda a extensão do porto. “Já tem consórcio contratado que está estudando como fazer o trabalho. O porto, que hoje tem 14 metros de profundidade, passará a ter 18 na parte externa e 16 metros na área interna. Poderemos receber navios de maior porte, incidindo na redução do frete e na vantagem competitiva para quem opera no Rio Grande”, diz. Nos primeiros dez meses do ano, o porto exportou 10,9 milhões de t de soja e milho.

Santos. Entre 1999 e junho de 2015, o Porto de Santos (SP) recebeu R$ 703,7 milhões de recursos do Tesouro, sendo que 88,9% desse montante foi liberado a partir de 2007, quando se instituiu a Secretaria de Portos. Em relação aos investimentos privados, a partir da transferência das operações portuárias em Santos para o setor privado, foram investidos cerca de R$ 5 bilhões. O terminal portuário de Santos é líder nacional em volume de exportação de soja e milho. Levantamento da Anec aponta que até outubro foram embarcados 22,7 milhões de toneladas. Segundo a Companhia Docas do Estado de SP, a movimentação de cargas via Santos avançou 10,4% em outubro, na comparação com o mesmo mês de 2014, com 11,31 milhões de t, principalmente por causa do avanço das exportações de milho. No acumulado de janeiro a outubro, o porto movimentou 99,96 milhões de t, ou 3,5 milhões de t mais do que em igual período de 2014. O diretor da Codesp, Alex Oliva, acredita que Santos registrará novo recorde anual, superando o de 2013, de 114 milhões de t. / M.A.

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Nova agenda de negociações pode ser a saída para o Brasil

Ideal seria adotar umapolítica mais agressiva e negociar com as grandeseconomias globais,incluindo a própria TPP

O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 16h26

A conclusão da Parceria Transpacífica (TPP) não estampa apenas a lentidão do Brasil em sua agenda de liberalização comercial. Deixa claro também que os prejuízos às exportações do agronegócio tendem a aumentar à medida que a TPP seja ampliada e outros acordos sejam concluídos. O Brasil tem 12 anos de atraso na agenda comercial. Esse diagnóstico está na ponta da língua de setores produtivos brasileiros e de vários especialistas em comércio exterior do País. Quase sempre vem acompanhado pela receita do “waiver” do Mercosul ao Brasil, para negociar individualmente os acordos, ou do abandono do compromisso do bloco como união aduaneira. Roberto Rodrigues, do GV Agro, alerta para o fato de que 40% do comércio mundial se dá com base nas regras de acordos bilaterais, alguns à revelia da OMC. Para ele, o Brasil precisa adotar uma política comercial mais agressiva e negociar com as grandes economias globais. “Colocamos todos os ovos nas cestas da Rodada Doha da OMC e do Mercosul, boicotamos a Alca e deixamos de fechar acordos, com ou sem o Mercosul”, resumiu Rodrigues. “O resultado é: vamos perder mercados.”

O especialista em Comércio Internacional Marcos Jank, da BRF, lembra que o Brasil estava na liderança de negociações internacionais há 12 anos. O País era um dos protagonistas da Rodada Doha e discutia, como parte do Mercosul, a Alca e o acordo entre o bloco e a UE. Hoje há vários acordos em perspectiva mundo afora, que acentuarão as perdas do País: UE com Japão, Malásia, Tailândia, Vietnã e Canadá; a ampliação da TPP, o próprio acordo em negociação entre os EUA e a UE (TTIP) e outros. “O Brasil ficou fora do jogo global”, diz.

Urgência. Para a CNA, as negociações mais urgentes devem ter como alvo EUA, China, UE, Rússia e União Econômica Euroasiática (Rússia, Bielo-Rússia, Casaquistão, Armênia e Quirguistão). Segundo Alinne Oliveira, da CNA, o País está demasiado atrasado nesse campo para esperar o consenso do Mercosul. Para ela, a revogação da resolução 32/00 do Conselho do Mercado Comum, sob a alegação de não ser o Mercosul uma zona de livre comércio completa, daria essa chance ao Brasil. O mercado asiático, na lógica do setor agropecuário, será dos mais relevantes por seu potencial de crescimento econômico e de renda de sua população. Essa é a área mais cobiçada pelos exportadores do complexo soja, segundo Daniel Furlan Amaral, da Abiove. A Malásia é um grande importador de óleo de soja do Brasil, assim como o Japão e o Vietnã são de farelo. A China é um caso para se pensar no futuro. “Precisamos de esforços de negociação com grandes economias e com as emergentes”, afirmou Amaral. O especialista americano Gary Horlick afirmou ao Estado ser o Brasil, com ou sem o Mercosul, grande o bastante para negociar com a TPP. “Mas o País talvez não queira assumir todos os compromissos da TPP, o que significará não contar com todos os seus benefícios”, ponderou. “A TTP e o TTIP dão ao Brasil a chance de encontrar uma solução positiva, talvez reavivando a OMC e a Alca.” A UE é o parceiro com maior chance, neste momento de engajamento em um acordo de livre comércio com o Mercosul. A empreitada já foi testada na década passada, mas fracassou. Neste momento, o Mercosul já tem fechada sua oferta de abertura comercial, que abarca 87% das linhas tarifárias. Mas os europeus, concentrados nos seus acordos com os EUA e o Japão, demonstram pouco interesse. A agenda brasileira de negociações, diz a presidente, Dilma Rousseff, não será separada da do Mercosul.

Segundo Carlos Márcio Cozendey, subsecretário-geral do Itamaraty para Assuntos Econômicos, o Mercosul se prepara para iniciar negociações com o Canadá e com a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta, composta por Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein). A possibilidade de inclusão do Mercosul no TPP, para Cozendey, exigirá uma detalhada e profunda análise de seus termos. “Hoje, não há discussão interna sobre isso, nem no governo nem nos setores privados”, afirmou. / D.C.M.

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Setor puxa o freio na compra de máquinas agrícolas

No acumulado do ano, queda nas vendas internas alcança 31% até outubro; perspectivas para 2016 são semelhantes, dizem fabricantes

Welliton Moraes ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 16h27

A queda dos indicadores macroeconômicos, somada à instabilidade política e à perspectiva de que o cenário não deverá apresentar melhoras significativas no curto prazo formaram o cenário ideal para comprometer os planos dos produtores rurais de investir na compra de novas máquinas agrícolas até o encerramento da safra 2015/2016, em 30 junho do ano que vem. O ambiente desenhado para os próximos meses ainda é desanimador, com recuo acentuado de investimentos e repercussões negativas no nível de produtividade e de emprego.

“Se o cenário de instabilidade política e econômica continuar em 2016, deveremos ter uma nova retração nas vendas de máquinas agrícolas. A estimativa é uma queda de 25% a 30% em 2015, quando comparado a 2014”, prevê o presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA) da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Pedro Estevão Bastos. Em 2013, o setor faturou R$ 13,1 bilhões. No ano seguinte, esse valor caiu 28%, para R$ 9,6 bilhões, e em 2015 deverá alcançar R$ 7,2 bilhões – retração de 25%.

A participação porcentual do setor agrícola no mercado de máquinas e equipamentos como um todo também vem se retraindo. Em 2013 era de 13,8%; em 2014 encolheu para 10,8% e este ano está em 9,3%.

Para evitar perdas maiores, a Abimaq propôs no início de novembro ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que isente por um ano as empresas do setor de pagar empréstimos já concedidos pelo BNDES (como as linhas PSI e Moderfrota). A proposta é que sejam quitados nesse período somente os juros, sem amortização da dívida, além da transferência do saldo devedor para o fim do contrato. O argumento do presidente da entidade, Carlos Pastoriza, é o de que a retração econômica elevou demasiadamente o nível de endividamento, superando a capacidade de pagamento. “Agora, tem um problema duplo: o mercado despencou. Portanto, tem menos receita, e ainda tem que lidar com o ônus dos empréstimos”, assinala Pastoriza, segundo o qual Levy achou a proposta interessante.

Vendas em queda. Os dados da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) deixam claro que o investidor segue arredio. Em outubro deste ano as vendas internas de máquinas agrícolas encolheram de 6.700 unidades para 3.800, com recuo de 43,4% frente ao mesmo mês de 2014. Na comparação com o mês anterior, a queda é de 4,6%. No ano, as vendas minguaram 31,4% – de 59.200 unidades para 40.600. A retração se repete na produção, que este ano está 30,2% inferior à verificada em 2014. Até outubro, a produção somou 50.500 unidades, ante 72.400 unidades fabricadas em igual período do ano passado. Na comparação com o mesmo mês de 2014, a perda é de 38,7%.

Desconfiança. Outro dado que preocupa é o desânimo dos produtores, constatado pelo Índice de Confiança do Agronegócio, medido trimestralmente pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). Segundo os dados referentes ao terceiro trimestre, apenas 14% dos produtores planejam investir na aquisição e modernização de máquinas e equipamentos, porcentual similar ao apurado no início do ano. Deste total, o levantamento mostra que 41% pretendem adquirir tratores, ante 47% verificados de janeiro a março.

A expectativa é de que a reedição do Programa de Sustentação de Investimentos (PSI) – linha operada pelo BNDES para aquisição de máquinas e equipamentos, incluindo os agrícolas –, pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), torne o investimento mais atrativo. Nessa nova fase, o prazo para protocolar os pedidos de empréstimos, que havia sido alterado para 30 de outubro, havia sido prorrogado até 27 de novembro. Além disso, a data-limite para contratação permaneceu em 31 de dezembro de 2015. O CMN também manteve o valor global de contratação em R$ 19,6 bilhões.

Menos 40%. De acordo com o panorama desenhado pelo chefe do Departamento de Agropecuária e Inclusão Social do BNDES, Carlos Alberto Vianna, de fato, nos primeiros quatro meses da atual safra, de julho a outubro, os recursos ofertados para o setor recuaram cerca de 40%. Ele menciona ainda que a dotação orçamentária prevista para a safra 2015/2016 pelo Ministério da Agricultura foi reduzida de R$ 10 bilhões para R$ 5,7 bilhões, em decorrência do ajuste fiscal do governo federal.

Vianna calcula que, dos R$ 5,7 bilhões, o BNDES tenha repassado de julho a outubro R$ 3 bilhões nas modalidades Moderfrota e PSI-Bens de Capital Rural, menos 35% em relação ao mesmo período da safra anterior, quando esse total havia sido de R$ 4,6 bilhões. No PSI Rural, que compõe o plano total de investimentos do Ministério da Agricultura, a redução foi de R$ 6,7 bilhões para R$ 2,7 bilhões. “A expectativa é que o orçamento de R$ 5,7 bilhões, que conta atualmente com saldo de R$ 2,7 bilhões, seja totalmente consumido ao longo do atual ano agrícola”, afirma Vianna.

Bastos, da Abimaq, reconhece que há poucas salvaguardas contra a crise. Ele explica que mesmo a alta do câmbio, que conferiu mais competitividade ao setor, só terá efeito nas contas daqui a dois ou três anos. Os benefícios decorrentes da valorização do dólar também são relativizados pelo executivo do setor Bernhard Kiep, vice-presidente de Marketing da fabricante de máquinas agrícolas AGCO, dona das marcas Massey Fergusson e Valtra. “Por um lado, é favorável porque (o dólar alto) rentabiliza as exportações. Por outro, encarece os insumos e eleva os custos totais.”

O presidente da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Almir Dalpasquale, assinala que nem mesmo a alta do dólar deve fazer com que o produtor contrate créditos que antecipem ganhos que podem não se confirmar. Até porque lembra que boa parte da safra, cerca de 60%, foi vendida no primeiro semestre por um dólar cotado entre R$ 2,60 e R$ 2,70. “As vendas com a cotação próxima de R$ 4 neste segundo semestre devem amenizar apenas parte das perdas”, avisa. Sem revelar números, o executivo da AGCO prevê perdas acentuadas no faturamento da empresa em 2015 e também em 2016.

Na fabricante de máquinas e implementos agrícolas Jumil, a diretora de Marketing Estratégico, Patrícia Morais Crivelenti, estima que o recuo nas vendas deve ficar em 25% neste ano. “Acreditamos que em 2016 o mercado doméstico poderá ser ainda menor, dependendo da oferta de crédito”, prevê. Para além do financiamento público, Patrícia observa que já existem, ainda que timidamente, buscas por alternativas de crédito, como o sistema de consórcio e o de barter, no qual o resultado da colheita é usado como moeda de troca. A AGCO está na fase inicial de instalação desta modalidade.

Dinheiro público. A expectativa de Kiep é que em 2016 o barter represente até 5% das vendas. De acordo com ele, na AGCO, os financiamentos públicos são responsáveis por até 70% do faturamento e só a participação do Moderfrota (outra linha oficial de financiamento de máquinas agrícolas gerida pelo BNDES) é próxima a 50%. “A redução do financiamento público, além de trazer incertezas, implica revisão operacional e financeira”, argumenta Kiep. Patrícia afirma que atrasos recorrentes nas decisões de repasses acarretam prejuízos, o que poderia ser evitado se a política de financiamento fosse uma estratégia de País e não de governante.

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Mudanças no PSI e Moderfrota são alvo de críticas

Abimaq relata que linhas tiveram três paralisações no ano; BNDES refuta e diz que regras foram acordadas com o setor

O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 16h30

A falta de confiança é que mais tem alimentado a crise, na visão de Pedro Estêvão Bastos, da Abimaq. “Ao analisarmos os aspectos financeiros e econômicos do agricultor, constata-se que não há motivos para uma queda tão expressiva (nas vendas de máquinas agrícolas)”, observa, afirmando que a instabilidade regulatória por parte do governo federal foi outro catalisador do descrédito. “As duas principais linhas de financiamento, o PSI e o Moderfrota, tiveram três modificações e paralisações ao longo do ano”, lembra.

Para o diretor do BNDES, porém, não há instabilidade regulatória. “O que foi acordado com relação às regras de financiamento não foi alterado, além do que a formulação dos parâmetros condutores da política agrícola foram firmados com participação ampla, inclusive de representantes do setor agropecuário”, argumenta Carlos Alberto Vianna, do BNDES. Sobre o Finame Agrícola, reaberto recentemente para cobrir eventuais demandas, ele afirma que essa é uma opção menos atraente em virtude das taxas mais elevadas, que em geral superam as cobradas pelo PSI, que oscilam entre 7,5% ao ano para micros, pequenas e médias empresas e 9,5% para demais empresas.

Outro aspecto que a crise tornou ainda mais evidente foi a dependência do setor em relação aos financiamentos públicos. Apenas para se ter ideia, a Carteira de Crédito de Agronegócios Ampliada do Banco do Brasil, incluindo operações de crédito rural e agroindustrial, totalizou R$ 171,8 bilhões em setembro/2015, crescimento de 8,5% em 12 meses, segundo o vice-presidente de Agronegócios, Micros e Pequenas Empresas do BB, Osmar Dias. O destaque da carteira, aponta o executivo, foi o saldo das operações de investimento agropecuário, que somou R$ 78,7 bilhões em setembro/2015 (46% do total), crescimento de 14,1% em relação a setembro/2014. Dias admite, no entanto, que o ritmo de crescimento da demanda no início da safra deste ano (2015/16) caiu, mas não cita de quanto foi essa queda, apenas ressalta a importância do BB no fomento agrícola. “Os dados do Sistema Nacional de Crédito Rural mostram que o BB detém 60,1% de todos os financiamentos destinados ao setor, com posição em setembro/2015”, afirma. Segundo ele, os recursos para safra 2015/2016 somam R$ 110,5 bilhões, com alta de 23% em relação ao ano-safra anterior. “Desse total, R$ 20 bilhões são destinados às empresas do agronegócio e R$ 90,5 bilhões ao crédito rural aos produtores e cooperativas”, detalha. / W.M.

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Crédito rural fica represado nos bancos

Mesmo com mais dinheiro ofertado, o produtor reclama de excesso de exigências

Ana Kátia ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 16h35

No dia 10 de novembro, o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, André Nassar, anunciava que a liberação de crédito rural para a safra 2015/2016, que se iniciou em 1.º de julho e deve somar o recorde de 219,9 milhões de toneladas de grãos, “fluía bem”. Segundo ele, havia dinheiro suficiente e a demanda dos produtores estava sendo atendida. Para o atual ciclo, foram ofertados pelo governo federal R$ 187,7 bilhões, volume 20,2% superior aos R$ 156,1 bilhões da safra anterior. Embora recursos maiores num ano de restrição orçamentária tenham sido comemorados inicialmente pelo setor produtivo, a principal reclamação agora é a exigência para a liberação do dinheiro por parte dos bancos.

Reclamações. No Primeiro Levantamento da Safra Brasileira de Grãos 2015/2016, de outubro, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) relatou os problemas enfrentados em várias regiões em relação ao crédito rural. Em Goiás, por exemplo, os agricultores indicavam que a oferta de crédito de custeio foi tardia na maior parte dos municípios. “Houve maiores restrições quanto ao acesso ao crédito, principalmente exigências de mais garantias, e em algumas regiões não houve liberação do pré-custeio.” Já em Mato Grosso, o maior Estado produtor de soja, “foi observada dificuldade de acesso ao crédito de custeio, em razão das exigências por parte dos bancos. Há informações de atraso na liberação do crédito”.

“O crédito está mais caro e difícil não apenas para o agronegócio”, confirma o superintendente da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Bruno Lucchi. “Em função do momento do País, financiamentos foram dificultados para todos os setores da economia”, continua. “Há mais exigências do que nos anos anteriores. No agronegócio, por exemplo, os bancos pedem penhor de safra, hipoteca e seguro agrícola, além de taxas mais elevadas.” Diante da situação, o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de MT (Aprosoja-MT), Ricardo Tomczyk, diz que algumas regiões produtoras de grãos estão utilizando recursos próprios para o financiamento da safra de verão. “Há dinheiro sobrando nos bancos, tamanho foi o aperto de crédito, o que obriga o produtor a racionalizar o crédito.”

Assimetria. Para o sócio-diretor da consultoria Agroconsult, André Pessôa, o problema é assimétrico e atingiu principalmente o grande produtor, que normalmente tem um histórico de investimentos pesados em ampliação de área e aquisição de máquinas e fazendas. Muitos deles estão endividados em dólar, informa. “Já para os pequenos e médios produtores, o crédito rural oficial, cujo limite é de R$ 1,2 milhão por CPF, é suficiente para as despesas”, argumenta. “Um pequeno produtor do Sul do Brasil certamente usou linhas de repasse do BNDES e tem dívidas em reais. Quanto mais ao sul e mais próximo da cooperativa e do crédito rural, menor foi o impacto.

Já os grandes produtores recorreram a recursos mais caros e tiveram de usar boa parte do lucro da safra anterior para evitar ir aos bancos”, diz Pessôa. O consultor lembra, porém, que podem também ter reduzido o uso de tecnologia ao não contrair crédito de investimento – em máquinas, por exemplo –, o que se refletirá na produtividade na atual safra.

Boia, não âncora. Ainda que os números apontem para o crescimento do agronegócio em 2015, o setor não tem força para ser o driver da recuperação econômica, acreditam analistas. “O agronegócio está mais para boia do que para âncora do PIB”, compara Pessôa. Para 2016, em relação ao crédito, a situação pode até ser pior. “Eu acredito que vá ter mais escassez e encarecimento do crédito tradicional rural. É um recurso que passa pela caneta do Planejamento, e o ambiente é de ajuste fiscal e redução de gastos.”

Cientes disso, os produtores se preparam para na próxima safra financiar sua própria atividade, aumentando o número de fornecedores e diversificando fontes. “Apesar da perspectiva de safra rentável, o resultado não vai para o investimento, mas para cobrir escassez de crédito. O lucro que estaria sendo usado em tecnologia irá para bancar a próxima safra. Sem crédito, o produtor não vai expandir ou comprar tratores. Há uma ilusão de que eles ganharão dinheiro, mas os recursos serão direcionados para cobrir a falta de crédito”, diz.

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Floresta, pasto e lavoura convivem no mesmo espaço

Técnica preconizada pela Embrapa, de integrar as três atividades,recupera áreas degradadas e reduz as emissões de gases-estufa

Niza Souza ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 16h37

Quando herdou a Fazenda Boa Vereda, em Itumbiara (GO), há 15 anos, o engenheiro florestal Abílio Pacheco decidiu continuar o trabalho que vinha sendo feito até então na criação de gado de corte em sistema extensivo. Mas, com pastos cada vez mais degradados e a baixa produtividade, percebeu que precisaria mudar a maneira de manejar a propriedade ou teria de seguir o exemplo de muitos vizinhos: arrendar as terras para usinas de cana.

Disposto a manter sua propriedade produtiva, Pacheco conta que começou a pesquisar alternativas para produzir de forma de mais sustentável e ao mesmo tempo aumentar rendimentos. Em 2005, conheceu o sistema de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), desenvolvido pela Embrapa, do Ministério da Agricultura. E, aos poucos, começou a adotar o sistema. No primeiro ano, reservou 15 hectares e começou com correção do solo e plantio de soja e eucalipto na mesma área, com espaço de 22 metros entre os renques. Após a colheita do grão, deixou o solo descansar na safra seguinte e no segundo ano plantou milho e pasto consorciados. Em seguida à colheita de milho, entrou com o gado. “Nesse estágio, as árvores já suportavam a entrada dos animais sem risco de sofrer danos e o capim estava com excelente qualidade”, lembra o produtor.

Produtividade maior. Em seis anos, Pacheco diz que conseguiu transpor a tecnologia para toda a propriedade, de 250 hectares. Além do claro apelo sustentável, uma preocupação constante na agricultura, para o produtor o sistema mostrou que funciona. “A produtividade do gado passou de 3 arrobas por hectare/ano para 18 arrobas. E, na mesma área, ainda produzi soja e milho, que ajudaram a amortizar os custos de instalação do sistema, sem contar a produção de 42 metros cúbicos de madeira por hectare, que vou começar a colher ainda este ano”, contabiliza o produtor.

É com exemplos como o de Pacheco que a Embrapa tem trabalhado para difundir a tecnologia da ILPF, uma das principais apostas para o País conseguir não só cumprir as metas de redução de emissões de carbono na agricultura, mas garantir que o País contribua para alimentar uma população que em 2050 deve atingir 9 bilhões de pessoas.

Estima-se que o Brasil tenha em torno de 50 milhões de hectares de pastagem em algum estágio de degradação, o que contribui enormemente para a emissão de gases de efeito estufa. É nessas áreas que a ILPF pode ser aplicada.

O presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, ressalta que essas áreas deterioradas são o foco para a expansão da agricultura, pecuária e da base florestal brasileira sem que haja necessidade de mais desmatamentos de florestas nativas. Segundo ele, tecnologias que permitam a intensificação do uso de recursos naturais devem receber cada vez mais a atenção da Embrapa. E a ILPF é uma das agendas prioritárias do órgão para os próximos anos.

Base sustentável. “A ILPF tem se destacado entre os modelos produtivos em bases sustentáveis por ser um tipo de produção que integra atividades agrícolas, pecuárias e florestais em uma só área, concomitantemente, promovendo adequação ambiental e a viabilidade econômica”, diz.

O sistema tem sido adotado em todo o País, com maior representatividade no Centro-Oeste e Sul. Atualmente, segundo estimativas da Embrapa, cerca de 2 milhões de hectares utilizam os diferentes formatos da ILPF (há também o método de integração lavoura-pecuária, que não usa florestas mas também recupera pastagens) e a projeção é de que, para os próximos 20 anos, possa ser adotada em mais de 20 milhões de hectares degradados. Até 2035, estima o pesquisador Ademir Hugo Zimmer, da Embrapa Pecuária de Corte, de Campo Grande (MS), é possível, por exemplo, dobrar a produção de carne bovina no Brasil apenas recuperando essas áreas. “A perspectiva é expandir o sistema ILPF mais rapidamente agora, com o apoio do governo e de empresas privadas”, destaca Zimmer, citando o Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura, o chamado Plano ABC, do Ministério da Agricultura.

A expansão da área com a ILPF é uma das diretrizes do Plano ABC, que inclui ainda outros programas específicos, como sistema de plantio direto, fixação biológica de nitrogênio e tratamento de dejetos animais. Tudo, também, com o objetivo final de reduzir a emissão de gases de efeito estufa no setor agropecuário dentro dos compromissos assumidos pelo País. O plano prevê a ampliação da ação de sistemas ILPF em 4 milhões de hectares e recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens. “O ABC é talvez a maior e mais ousada plataforma de redução das emissões de gases-estufa na agricultura em adoção no mundo”, acredita Lopes, da Embrapa.

Floresta. Outro forte apelo do sistema é o aumento da demanda por madeira. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) estima que, até 2030, o consumo mundial de madeira em toras atingirá 2,4 bilhões de metros cúbicos. Somente a demanda do mercado interno brasileiro poderá atingir 300 milhões de metros cúbicos, o que significa 2,5 vezes mais do que é plantado atualmente. “A pergunta é: de onde virá, quem produzirá e como será produzida essa madeira?”, diz o pesquisador Lourival Vilela, da Embrapa Cerrados, de Brasília (DF).

Essas dúvidas apontavam para a necessidade de se desenvolver um trabalho para aumentar a produção sustentável de madeira. “A partir disso, intensificamos os estudos nessa área. Já tínhamos um trabalho forte na integração lavoura-pecuária; bastou inserir a floresta plantada. Hoje, temos percebido adesão de grandes propriedades, principalmente com foco no eucalipto, mas já temos grupos introduzindo espécies, como cedro australiano e mogno africano”, enfatiza Vilela.

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Embora rentável, sistema enfrenta resistência no campo

Pecuaristas são pouco familiarizados com a ideia de plantar lavouras ou florestas e têmprevenção com a técnica

O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 16h39

A integração de árvores com pastagens e lavouras possibilita que o solo seja explorado economicamente durante todo o ano, favorecendo o aumento na oferta de grãos, de carne ou de leite a um custo mais baixo. Além disso, o produtor ainda conta com uma nova fonte de renda com a produção de madeira. Mas as vantagens detalhadas pelos pesquisadores e extensionistas ainda não são suficientes para sensibilizar muitos produtores.

De acordo com o pesquisador Roberto Giolo, da Embrapa Pecuária de Corte, ainda há resistência quanto à adoção da ILPF, principalmente pelos pecuaristas. “É uma questão de cultura. Sabemos que é difícil para o produtor começar uma atividade totalmente diferente da que está acostumado (no caso, a agricultura ou silvicultura), da qual não tem domínio. Mas é um sistema comprovadamente eficiente e rentável, que exige, porém, bom gerenciamento da propriedade”, afirma Giolo.

Extensão rural. Outro desafio para expansão das áreas com ILPF é a falta de extensionistas rurais. “O sistema de extensão rural é deficitário em alguns Estados, e isso atrasa a transferência de novos conhecimentos para o produtor”, explica o pesquisador. “A Embrapa tem alguns programas para transferência focados na difusão direta no campo e o maior deles é o de ILPF. Mas não é suficiente.”

De acordo com o pesquisador Ademir Zimmer, da mesma unidade da Embrapa, o sistema ILPF demonstra ter excelentes resultados. “É possível produzir uma arroba de carne bovina por R$ 60 no sistema de integração, enquanto no sistema extensivo o custo chega a R$ 120”, exemplifica. “Muitos produtores têm medo do novo, mas a pressão está vindo, tem muita área degradada e o pecuarista tem de mudar.”

Na produção de grãos, diz Zimmer, os resultados também são animadores e devem ser levados em conta. Segundo ele, o milho cultivado em consórcio com braquiária chega a produzir de três a cinco sacas mais, quando comparado ao plantio convencional.

Visão global. “Levamos 30 anos para conseguir difundir o plantio direto e fazer o produtor aderir. As novas gerações que estão assumindo as empresas agrícolas têm uma visão mais global. É uma questão de tempo para a tecnologia se espalhar”, acredita o pesquisador. O presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, diz que a empresa criou, em 2012, a Rede de Fomento à Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, em parceria público-privada. O objetivo é disseminar o conhecimento e as tecnologias de ILPF para os produtores.

Segundo ele, a rede tem realizado inúmeros eventos e capacitações e apoiado o desenvolvimento de plataformas permanentes de transferência tecnológica, denominadas unidades de referência tecnológica. “Cada unidade é um modelo físico de sistema de produção, instalada em área pública ou privada, que visa à validação, demonstração e transferência de tecnologias da ILPF”, explica.

Atualmente, cerca de 160 unidades de referência estão cadastradas pela Embrapa e ativas em todas as regiões do País. / N.S.

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