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O mundo quer confiar

A mercadoria que mais falta no mundo prostrado pela crise não é dinheiro ou o que os técnicos chamam de bloqueio da liquidez. O artigo que mais falta é confiança. E, como confiança é a base do mercado financeiro (termo que vem do latim fiducia - fé), é óbvio que também falta crédito, que só funciona quando se acredita.Tanto precisam de confiança que, ao mínimo sinal de que é possível voltar a confiar, as pessoas, as instituições e o sistema se agarraram a essa corda e liberaram enorme energia, como a que se viu ontem nos mercados.Essa nova onda de fé proveio da entrevista que o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, concedeu domingo ao programa Meet the Press, da rede NBC. Em síntese, disse cinco coisas: (1) que, tão logo tome posse, colocará em marcha enorme programa de projetos de infra-estrutura, o maior em 50 anos, que criará 2,5 milhões de empregos até 2011; (2) que os proprietários de casas financiadas terão ajuda para que não sejam forçados a devolvê-las aos bancos; (3) que a indústria de veículos terá socorro, mas não será um cheque em branco, será condicionado a um programa de recuperação do setor no longo prazo; (4) que os mercados financeiros serão enquadrados por regras mais rígidas; e (5) que o rombo orçamentário saltará para US$ 1 trilhão ao ano, mas que esta será uma operação necessária, a ser saneada quando a economia voltar a funcionar.Obama disse o que o mundo queria ouvir. Não há nenhuma garantia de que seus planos darão certo. Além disso, ele tira grande proveito da falta de credibilidade do presidente Bush. O que se pode dizer é que Obama pinçou para conduzir a área econômica uma equipe experiente em políticas públicas, caso de Paul Volker, Larry Summers e, até mesmo, Tim Geithner.Também não é certo que consiga manter seu nível atual de credibilidade. A partir do momento em que tomar posse, terá de fazer escolhas, o que semeará alguma decepção, como ele próprio admitiu no discurso da vitória.Reverter a atual crise econômica é o maior desafio de sua administração, maior até do que terminar as duas guerras travadas pelos Estados Unidos. O resto do mundo se atira ao dólar e aos títulos do Tesouro americano. Isso mostra que está disposto a financiar o ajuste e, obviamente, a manter o atual arranjo global.Quando e se a crise começar a ser revertida, Obama começará a colher as glórias das decisões que agora estão sendo tomadas. Mas ninguém se iluda. Como ele próprio reconheceu no domingo, a economia precisa piorar antes de começar a melhorar.CONFIRAAbuso de poder econômico - Não são apenas os bancos privados que estão fazendo exigências descabidas no crédito. Também os bancos oficiais estão no mesmo jogo.Já se sabia que o Banco do Brasil (BB) e a Caixa Econômica Federal (CEF) vêm cobrando spreads (diferenças entre o que pagam e o que recebem pelos empréstimos) e tarifas até superiores aos dos bancos privados. Mas, nesta crise de crédito, os bancos oficiais estão passando do limite. O BB, por exemplo, dobrou a exigência de garantias para operações de crédito de capital de giro, fato confirmado por autoridades do alto escalão do governo.Ontem, o presidente Lula exigiu que o BB e a CEF, que detêm fatia de 40% do crédito interno, voltem a operar no crédito nos níveis de juros e de garantia anteriores aos da crise.O Banco Central pode reduzir ainda mais o compulsório desde que os bancos ponham mais recursos no financiamento de capital de giro das empresas e reduzam seu custo.O governo entende que não precisará tomar providências adicionais para enquadrar os bancos privados. Bastará que o BB e a Caixa façam o que têm obrigação de fazer.

, O Estadao de S.Paulo

09 de dezembro de 2008 | 00h00

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