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O mundo segundo Gates

Não é trivial definir a crise brasileira. Ela é econômica, claro. Mas crises econômicas passam. Ela é política, também. Só que uma crise política diferente daqueles dois tipos que conhecemos da história. Nem uma crise drástica que se encerra com alguém tomando de assalto o poder, tampouco uma crise em que juntando as pessoas certas numa sala se recombina o jogo. Porque, por trás das crises econômica e política, há uma redefinição das instituições. Gente que antes driblava a lei não consegue mais. Isso muda o que se espera de um líder político. E Bill Gates pode ter uma ideia de como sair daqui.

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2016 | 06h00

O último artigo que escreveu para seu blog pessoal trata dos seus conselhos para o futuro presidente americano. Conselho é fazer pouco caso, pois conselho todos dão. Por trás da análise de Gates está uma visão de mundo, de liderança e um pacote de valores.

O fundador da Microsoft acredita que entramos numa era marcada pela inovação. É inovação que constrói economias e garante futuros. Porque inovação, ao resolver problemas de maneira inteiramente nova, joga para baixo custos e assim abre mercados. O perigo de “inovação” é que se trata de uma palavra abusada pelo marketing. Em se perguntando aos executivos, toda empresa é inovadora. A maioria não é.

Para Gates, inovação nasce do encontro entre o setor público com o privado. O papel do Estado é investir pesado em pesquisa e ciência. Da ida à Lua ao antibiótico, do microchip à internet, por trás de tudo está dinheiro dos governos de EUA e Europa, que direta ou indiretamente sustentam e investem numa academia de ponta. Mesmo quando a universidade não é estatal, o dinheiro é em grande parte público.

Mas é também papel do Estado sair da frente e permitir que a iniciativa privada pegue a criação e a transforme numa indústria competitiva. O Brasil tem alguns sucessos nesta área, mais notadamente na relação entre Embrapa e agroindústria. A norma é outra. Ou o Estado não investe em avanço científico ou, ao investir, quer ele também ser indústria e impor monopólio. Gera empregos públicos, ineficiência e asfixia a sociedade civil, que não pode explorar ideias novas. Coisa difícil ser pequeno empresário no Brasil.

O papel do líder político é um pouco diferente: é quem dá a direção. Seu exemplo é John Kennedy mas, de forma mais modesta, poderia ser Juscelino Kubitscheck. Quando, ao tomar posse como presidente, JFK apontou para a Lua e disse que os EUA deviam chegar lá até o fim dos anos 1960, ele gerou um impulso. Meta ambiciosa, porém, possível. Também uma meta inspiradora por mexer com a imaginação. E as engrenagens movidas para tornar o sonho realidade gerou uma indústria aeroespacial de ponta, capaz de gerar empregos de alta capacitação e aumentar o PIB do país. Com seus 50 anos em 5, JK conseguiu avanços bem mais modestos. Mas mostrou a mesma capacidade de inspirar mexendo com a imaginação.

Para Gates, o próximo presidente americano deve mirar em projetos ambiciosos. A geração de energia barata e livre de carbono; vacina para HIV e doenças neurodegenerativas; combate a epidemias virais como ebola e zika; e, por fim, reinventar a educação para que se torne mais barato e eficiente dar a qualquer criança a melhor qualidade de ensino. Têm a qualidade de serem ambiciosos e possíveis, exigir a participação de Estado e setor privado, gerarem novas indústrias e, ainda por cima, fazer o bem.

Parece um sonho impossível imaginar que o próximo presidente do Brasil, em janeiro de 2019, possa dizer num discurso que o país será outro, que criaremos uma ou duas indústrias novas, que nascerão de tecnologia criada aqui e que, sim, participar dessa indústria será para qualquer um que quiser, livre de burocracias.

Seria outro país. Será que podemos um dia?

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