O não escândalo do Goldman Sachs

Vamos estipular que há um problema no poder do Goldman Sachs. A empresa assume riscos imensos e ganha lucros imensos. Depois, quando ela se encrenca, como se encrencou após a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, apela para um salvamento do governo.

SEBASTIAN MALLABY, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2010 | 00h00

Mas o caso que a Securities and Exchange Commission (SEC, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos) moveu contra o Goldman Sachs envolve também um problema.

A menos que a SEC tenha mais evidências do que colocou na mesa até agora, a acusação parece frágil.

Se o Goldman Sachs se tornou um emblema do excesso de poder de Wall Street, a Securities and Exchange Commission pode se tornar um emblema do poder ensandecido do governo.

A queixa, que consta de um relatório com 22 páginas elaborado pela SEC, afirma que o Goldman Sachs vendeu títulos hipotecários sem revelar que um gestor de fundo hedge, John Paulson, estava apostando que esses mesmos títulos perderiam valor.

Isso é um não escândalo.

Os títulos em questão, as chamadas obrigações de dívida colateralizada (CDO) sintéticas, não podem existir a menos que alguém esteja apostando que eles perderão valor.

As empresas que compraram os títulos do Goldman Sachs sabiam perfeitamente que algum outro investidor devia estar tomando a posição contrária. Era seu trabalho avaliar a oferta do Goldman Sachs e se decidir.

Um dos grandes perdedores no negócio foi o IKB, um banco alemão com grandes operações hipotecárias. Não estamos falando de um negócio de pai para filho.

Talvez a SEC esteja sugerindo que o envolvimento de John Paulson muda essa lógica porque o gestor de fundo hedge é famoso por ganhar bilhões com suas apostas hipotecárias?

Há um caso especial aqui: mesmo que os investidores não se importassem que houvesse alguém do outro lado do negócio, talvez eles quisessem apostar contra um superstar. Na época do negócio, porém, John Paulson era um operador de fundos hedge discreto, cujo nome não teria feito soar alarmes.

E intermediários, como o banco de investimentos Goldman Sachs, não devem supostamente tagarelar sobre a identidade de seus clientes.

Em seguida, a SEC se queixa de que John Paulson (o operador de fundo hedge) teve um papel no desenho dos títulos, ampliando ao máximo as chances de eles fracassarem. Ele fez o equivalente a construir uma casa de troncos com uma grande lareira e uma chaminé obstruída, e depois comprar um seguro contra incêndio da construção.

Por chocante que isso possa soar, é outro não escândalo. Um investidor que queira apostar contra um pacote de hipotecas tem o direito de sugerir o que deve entrar no pacote. O comprador também tem o direito de fazer contra-sugestões.

Como afirma claramente a queixa feita pela SEC, o principal comprador nesse negócio, uma empresa chamada ACA, que é especializada em títulos hipotecários, fez precisamente isso.

Por último, a SEC afirma que o Goldman Sachs, e, mais especificamente, seu garoto prodígio em hipotecas, Fabrice "Fab" Tourre, enganaram a ACA fazendo-a acreditar que John Paulson pretendia apostar na solidez das hipotecas, e não o contrário.

Esse é o xis da questão, e se houver prova de que o Goldman Sachs ou Tourre foi desonesto, a SEC ainda poderia sair com sua reputação intacta. Mas nenhum dos fragmentos de e-mails citado na queixa chega perto de ser um revólver fumegando.

O que a queixa mostra é que a ACA acreditou que John Paulson era um comprador, não um vendedor. E o mistério realmente intrigante é de como a ACA poderia ter sido tão estúpida. Quando o negócio estava tomando forma, a ACA e John Paulson se encontraram repetidamente.

Se a ACA tinha alguma dúvida sobre as intenções de John Paulson, ela seguramente poderia ter-lhe feito uma pergunta direta em vez de depender de sugestões alegadas do Goldman Sachs.

Durante todas as negociações, John Paulson continuou propondo hipotecas de notória baixa qualidade para o pacote e vetando as de alta qualidade. Devia ter sido óbvio para a ACA que ele pretendia apostar que elas cairiam.

O pior que pode ser dito com base nas evidências disponíveis é que o Goldman Sachs sabia que a ACA estava sendo estúpida e errou ao não lhe apontar.

Isso fica aquém dos delitos que a SEC alega, e pode ter sido o motivo porque dois dos cinco comissários da SEC se recusaram a votar pela ação contra o Goldman - um raro racha num caso de aplicação de diretrizes. E, com tudo isso, em vez de tratarem a aventura da SEC com a devida cautela, políticos e reguladores estão entrando no trem.

O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, que está em plena campanha eleitoral, recomendou aos reguladores britânicos que engrossem o caso da comissão de valores imobiliários americana.

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, que poderia usar alguns bodes expiatórios do mercado financeiro para desviar a atenção da crise da dívida na zona do euro, está ameaçando fazer o mesmo. Investigadores do Congresso pretendem inquirir funcionários do Goldman Sachs pela enésima vez.

Há muita coisa errada em Wall Street, e o Congresso devia aprovar alguma versão de pacote regulatório que está entalado no Senado.

Mas a premissa por mais regulação é que os reguladores se comportarão de maneira responsável. Esperemos que a Securities and Exchange Commission se lembre disso. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

O AUTOR É BOLSISTA EM ECONOMIA INTERNACIONAL NO CONSELHO DE RELAÇÕES EXTERIORES.

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