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O Nobel do encanador

O encanador é apontado pela ganhadora do prêmio Nobel de Economia como aquele que de fato instala o que é projetado pelo engenheiro, vê como está funcionando e ajusta para o uso

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2019 | 04h00

Ontem a franco-americana Esther Duflo se tornou a segunda mulher a ganhar o Prêmio Nobel de Economia, fazendo história também por conquistá-lo mais cedo que qualquer outro. Esther tem somente 46 anos, e desbancou a marca anterior do gigante Kenneth Arrow (51). Seu trabalho é bem introduzido por sua visão: a de que o economista tem de ser mais parecido com um encanador.

“O economista como encanador” é literalmente o título de um artigo e de uma palestra seus que resumem sua pesquisa e a de outro agraciado com o Nobel ontem, o indiano Abhijit Banerjee (um terceiro vencedor foi o americano Michael Kremer). O economista precisaria ter a atenção ao detalhe que o encanador tem. Teria menos que se perguntar “o que fazer”, e mais “como fazer”.

No lugar das grandes ideias e narrativas, avaliações e dados. O encanador é apontado por Esther como aquele que de fato instala o que é projetado pelo engenheiro, vê como está funcionando e ajusta para o uso. O encanador é a vida real, o pragmatismo e o pé no chão.

Os trabalhos de Esther e Banerjee são predominantemente avaliações de políticas públicas, de combate à pobreza. Há a cuidadosa análise do que funciona e do que não funciona. É o encanador quem tem o olho para as engrenagens e as juntas, e que vai solucionar os problemas difíceis de antecipar, que só se apresentam quando a água é ligada. 

Esther Duflo e Abhijit Banerjee fizeram algo raro para economistas: fundaram um laboratório. É o J-LAB, um centro do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT) dedicado ao combate à pobreza informado por evidências científicas. 

A ênfase dos premiados não esteve imune a críticas: muitos consideram que a abordagem não consegue responder várias perguntas importantes, outros acham que o foco apequena a economia, que deveria ser área de ideias grandiosas.

Para estes, é de importância menor as perguntas que pesquisadores como Esther, Banerjee e Kremer se propõem a responder. Como incentivar os pais a vacinarem seus filhos? Qual a melhor forma de organizar alunos na sala de aula a fim de maximizar o aprendizado? Mosquiteiros contra a malária são mais usados quando comprados pelos pais ou dados de graça? Estes são alguns exemplos da linha premiada no Nobel (“abordagem experimental para aliviar a pobreza global”).

O Bolsa Família é talvez o melhor exemplo no Brasil de política de encanador: de ótima relação custo-efetividade, cautelosamente avaliado e aprimorado com atenção ao detalhe (no limite das restrições políticas). Marcos Lisboa é um exemplo de quem tem como bandeira o economista como encanador. 

Um exemplo da resistência é a que o próprio Lisboa enfrentava quando implantava o Bolsa Família. Pela ênfase na focalização, foi chamado de “débil mental” por Maria da Conceição Tavares, professora titular da Unicamp. Fica claro que a lógica do encanador rivaliza com a de um “plano nacional de desenvolvimento” (também conhecido como plano infalível do Cebolinha).

Na coluna da semana passada, tratamos do que seria a evolução natural do Bolsa Família: o benefício universal infantil, baseado em conjunto de dados sobre a cobertura do Bolsa e de outras políticas públicas, estudos sobre seus efeitos, e em aspectos práticos como o estigma da atual política. Isso é “como fazer”.

Esse é um exemplo da abordagem do encanador para política pública, com atenção para o detalhe. Um exemplo contrário, com atenção para a narrativa, típico do que temos chamado na coluna de lacroeconomia, é do Projeto de Lei 5.491. O novíssimo projeto do PSOL foi assim resumido por um assistente técnico do partido: “obriga o Estado a garantir desemprego involuntário ZERO”. Pela descrição formal, “institui o Fundo de Garantia do Emprego para assegurar o pleno emprego com estabilidade de preços e redução das desigualdades, bem como o desenvolvimento econômico, social e ambiental”. Isso é “o que fazer”, não “como fazer”.

No “como fazer”, o economista encanador vai achar vazamentos em leis, jurisprudência, trâmites orçamentários, realidade política, psicologia humana. E vai propor soluções.

Mas na política pública no Brasil ainda detestamos o “como fazer”. Gritamos nenhum direito a menos quando confrontados com um Estado que gasta R$ 1 trilhão por ano com Previdência em um país jovem. Achamos linda uma legislação trabalhista que multidões de trabalhadores miseráveis não consegue acessar. Preterimos na educação a fase da vida de maior neuroplasticidade, a primeira infância, mas brilhamos os olhos quando gastamos bilhões em um futurista acelerador de partículas entre Itu e Jaguariúna. Em vez de incentivar uma prática orçamentária que obrigue a confrontação de privilégios, preferimos gastar sem teto. Mais Esther, por favor.

*DOUTOR EM ECONOMIA E CONSULTOR LEGISLATIVO

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