O novo empréstimo ao BNDES

O governo optou por mais um empréstimo de RS 30 bilhões ao BNDES. Há uma frase mágica utilizada por muitos para justificar esse novo empréstimo e os anteriores: "Precisamos fortalecer o BNDES para aumentar o investimento e o crescimento do Brasil". Antes desse novo empréstimo, o Tesouro deveria ter feito alguns esclarecimentos quanto ao custo e objetivo dessas operações.

Análise: Mansueto Almeida, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

Primeiro, essa nova operação mostra que não há limites para esse tipo de operação, que deverá continuar até que seu custo apareça de forma mais clara no crescimento da Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) e na classificação de risco da dívida pública. Esse custo pode demorar a surgir, como demorou a opção feita nos anos 70 de sustentar o crescimento da economia com aumento da dívida após o primeiro choque do petróleo. Vale lembrar que estratégia semelhante nos levou à década perdida.

Segundo, muitos acreditam que os empréstimos do Tesouro ao BNDES não têm custos, só benefícios. No entanto, o Tesouro paga uma taxa de juros (Selic) para "conseguir dinheiro" muito maior do que a que recebe dos empréstimos ao BNDES (TJLP). Essa diferença aumenta a DLSP e o custo de uma eventual política monetária restritiva. Há quatro anos os empréstimos do Tesouro ao BNDES eram "zero" e hoje, com esse empréstimo, esse saldo já é de R$ 241,5 bilhões.

Terceiro, o BNDES é hoje um banco com capacidade de empréstimo anual não muito superior a R$ 70 bilhões, valor insuficiente ante a demanda imposta ao banco. Na incapacidade de aumentar a poupança pública para financiar o investimento de forma clara no orçamento, as operações de empréstimos do Tesouro ao BNDES são uma forma de "esconder" a necessidade de aumentar a poupança para ampliar o investimento.

É difícil avaliar o mérito dessas operações do Tesouro com o BNDES quando não se tem claro o custo e de que forma esse dinheiro vem sendo e será utilizado. O Tesouro Nacional tem uma das equipes técnicas mais competentes que conheço, que diariamente faz simulações dos custos dessas operações. Assim, parece haver uma opção para que essas simulações não sejam explicitadas, algo semelhante ao que se faz na China, que não deve ser modelo para o Brasil.

É TÉCNICO DE PLANEJAMENTO E PESQUISA DO INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.