GUILHERME HAHN/ESTADÃO
Regiões mais jovens não trazem vícios da tradição de produzir vinhos GUILHERME HAHN/ESTADÃO

O novo mapa do vinho no Brasil

Técnica de poda da videira permitiu a expansão da produção de vinhos no País

* Suzana Barelli, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2021 | 05h00

Foi-se o tempo em que apenas o Rio Grande do Sul elaborava vinhos. Primeiro, a vizinha Santa Catarina começou a fazer brancos e tintos, aproveitando o clima frio de suas serras. Mas o que se viu, principalmente na última década, foi surgirem vinícolas em áreas diversas do Brasil, com destaque para São Paulo – sim, o Estado tem bons vinhos, principalmente na região da Serra da Mantiqueira –, Minas Gerais, Goiás e a divisa entre Bahia e Pernambuco.

A técnica chamada de poda invertida ou dupla poda, na qual a videira é, digamos, “enganada”, é a principal razão dessa expansão. Com as podas e o controle da irrigação, consegue-se fazer com que a planta produza frutos no inverno, quando não chove no Sudeste e nas regiões mais centrais do Brasil, e não mais no chuvoso verão. Explica-se: na época da colheita, a chuva torna a uva mais diluída, o que resulta em vinhos com menor complexidade, além de trazer fungos e doenças à videira. No inverno, acontece também a almejada amplitude térmica, aquela maior diferença de temperatura entre o dia e a noite, que faz a uva amadurecer mais devagar, concentrando seus nutrientes.

A dupla poda ainda é técnica recente, desenvolvida pela Epamig. Por enquanto, a uva tinta syrah é a variedade que melhor se adapta a esse cultivo e que predomina na maioria desses vinhos. Mas há bons exemplos com as brancas chardonnay e a sauvignon blanc, e há testes com diversas variedades.

Ao lado da poda invertida, há também o fato de essas regiões serem mais jovens e sem os vícios que a tradição traz. Um exemplo é que seus agricultores são menos reticentes à poda dos cachos, que é uma das ferramentas para obter vinhos mais complexos. Em geral, são empresas lideradas por profissionais sem história no mundo do vinho e com interesse em seguir o que há de mais moderno no trato do vinhedo e na vinícola.

No Nordeste, a técnica de elaboração é outra. Com a irrigação, as videiras conseguem fazer até 2,5 safras por ano, e não apenas uma, como acontece tradicionalmente. E as plantas não hibernam, já que não há inverno. Essa região é a morada de vinhos de maior produção, em geral mais simples – há algumas exceções – e indicados para o dia a dia.

Isso tudo não significa que todos os vinhos brasileiros sejam bons, assim como nem todos os franceses ou italianos se destacam. Mas mostra um aumento da qualidade de muitos rótulos e indica que o sul não é mais o único terroir para os vinhos nacionais. Há um novo mapa vitivinícola em gestação no Brasil.

* COLUNISTA DE VINHOS DO PALADAR

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Com o vinho em alta, vinícolas se espalham pelo País

Embora o RS ainda domine dois terços da produção nacional, êxito de projetos em SP e PE anima abertura de novas regiões de cultivo

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2021 | 05h00

O ano de 2020 foi de recordes para a produção de vinho nacional. Impulsionadas pelo salto de 30% no consumo per capita da bebida, que atingiu a máxima histórica, as vinícolas nacionais viram uma oportunidade para apresentar seu produto a um público mais amplo. Foi também uma chance para que o brasileiro experimentasse não apenas os vinhos e espumantes feitos no Rio Grande do Sul – principal polo do País –, mas se abrisse a opções de origem menos tradicional.

Segundo a Ideal Consulting, que acompanha de perto o mercado brasileiro de vinhos, o País hoje tem 1.003 vinícolas – o dado contempla tanto as que fazem a bebida fina quanto as voltadas ao vinho de garrafão, feito de frutos comuns. Embora o Rio Grande do Sul ainda seja o líder isolado, concentrando dois terços da produção, outros Estados começam a ganhar relevância em um movimento que deve continuar nos próximos anos, segundo especialistas.

Essa descoberta dos vinhos feitos fora do Rio Grande do Sul é puxada por duas regiões. Uma é a do Vale do Rio São Francisco, na fronteira entre Pernambuco e Bahia, que virou um importante polo de produção de espumantes de marcas de alto volume, como a gaúcha Miolo e a portuguesa Rio Sol. Essa experiência, que já dura uma década, se junta a uma outra mais recente, que trouxe reputação para regiões alternativas: a Guaspari, de Espírito Santo do Pinhal (SP).

A história dos vinhos da Guaspari, que já ganharam prêmios e são servidos em vários restaurantes de renome, começou a ganhar corpo há cerca de 15 anos, quando a família decidiu dar uma nova direção a uma propriedade de 950 hectares na região da Serra da Mantiqueira, perto da divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Segundo Fabrizia Gennari Zucherato, diretora executiva da Guaspari, sabia-se que era uma aposta de longo prazo. “Todo mundo entrou no negócio sabendo que o retorno viria em cem anos, que não seria algo que veríamos na nossa vida.”

Diante dessa perspectiva, a velocidade da descoberta da marca foi considerada surpreendente pelos sócios. “Nós vendemos nossa primeira garrafa em novembro de 2014”, lembra. A partir daí, o projeto ganhou força e vários investimentos foram adiantados, como as visitações e degustações na própria fazenda, que foi aberta aos visitantes em 2017. “Acho que o turismo nos beneficiou muito – estamos muito próximos de São Paulo, o principal polo consumidor de vinho”, diz Fabrizia.

O enoturismo, que hoje representa metade do faturamento da Guaspari, ajudou a acelerar o crescimento. Atualmente, a vinícola tem 50 hectares de terra produzindo uvas viníferas em diferentes pontos da propriedade – algumas videiras estão a 850 metros de altitude e outras, a 1,3 mil. A mesma propriedade também produz café gourmet com a mesma marca, e há espaço para a expansão do plantio. 

A Guaspari produz 120 mil garrafas por ano, ainda se encaixando na categoria de vinícola butique. Além de vender para os milhares de visitantes que vão até Espírito Santo do Pinhal todos os anos, a companhia mantém um e-commerce próprio e distribui seus produtos em redes como St. Marché, Santa Maria e Eataly, na capital paulista. Os principais vinhos da empresa custam entre R$ 250 e R$ 300, mas há uma linha de entrada partindo de R$ 90.

 

Vinho do frio

Enquanto a Guaspari provou a viabilidade da produção de vinhos em uma região de clima mais quente do que o do Rio Grande do Sul, a Villaggio Bassetti tem colhido uvas viníferas sob as baixíssimas temperaturas de São Joaquim, município catarinense conhecido como um dos mais frios do País. Para iniciar o projeto, o empresário Eduardo Bassetti comprou parte de uma fazenda de gado, em 2005, e transformou o destino da propriedade. 

Hoje, a região de São Joaquim, que fica a cerca de 1,4 mil metros de altitude, reúne 19 vinícolas, que fazem parte de uma associação de vinhos de altitude. Como a produção de vinhos ainda é relativamente pequena, o turismo acaba fazendo o trabalho de comunicar ao público a existência desse polo de vinhos. “Hoje, graças ao vinho, São Joaquim recebe 200 mil turistas por ano – antes, quando o único atrativo da cidade era o frio, esse número era de 60 mil”, diz Bassetti.

Bassetti admite que produzir vinho em São Joaquim tem seus desafios, entre eles a produtividade dos parreirais. “A nossa propriedade tem 12 hectares e conseguimos colher cerca de 4 toneladas de uva por hectare”, conta, lembrando que o polo gaúcho de vinhos consegue colher três ou quatro vezes mais. No entanto, aos poucos, os vinhos da empresa conseguem uma projeção mais nacional: além do e-commerce, os produtos estão disponíveis em restaurantes paulistas, como a rede Ráscal.

Se a região de São Joaquim já criou um grupo de produtores que amplia o volume da região, outras áreas ainda dependem do esforço individual para ficarem conhecidas. É o caso do Cerrado. O médico Marcelo Souza se tornou conhecedor de vinhos ao fazer residência em São Paulo, nos anos 1990. Ele lembra que, nessa época, o dólar era “um para um” e consumir o produto importado de qualidade não era tão caro quanto hoje.

Dono da vinícola Pirineus, que produz 5 hectares no município de Cocalzinho (GO), ele fabrica vinhos e espumantes cujos preços variam hoje de cerca de R$ 95 a R$ 300. A propriedade foi comprada em 2005 e os primeiros vinhos começaram a ser vendidos em 2013 – sendo que alguns deles receberam prêmios e elogios como o do sommelier Manuel Beato, que definiu um rótulo da marca como “uma aberração de tão bom”.

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Um presente de casamento que fez diferença

Mudas de cabernet sauvignon levaram Heloise Merolli a transformar uma fazenda em vinícola

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2021 | 05h00

Com dois filhos pequenos, a empresária Heloise Merolli ficou viúva em 2003. Entre os bens que herdou estava uma fazenda no município de Campo Largo (a cerca de 30 km de Curitiba) que produzia gado leiteiro. Em 2006, quando assumiu a administração da fazenda, descobriu que “a situação financeira e jurídica da propriedade era catastrófica”. Para acabar não perdendo as terras, decidiu trocar de atividade e investir em uma paixão: os vinhos.

A inspiração para mudança tão radical, contou Heloise ao Estadão, foi justamente um presente que havia ganhado ao se casar, nos anos 1990: 200 mudas de uva cabernet sauvignon que haviam sido importadas da França e que, depois de plantadas em Campo Largo, revelaram-se um sucesso. “Foi uma grande aposta que fizemos. A região de Campo Largo teve uma tradição de fabricação de vinhos de mesa nos anos 1950 e 1960, até que uma praga agrícola dizimou a produção em um determinado ano.”

Durante seis anos, enquanto fazia a transição para os vinhedos, a empresária manteve a produção de leite em paralelo. “Nossa primeira elaboração foi de espumantes, em 2008, com 900 garrafas que foram distribuídas para família e amigos”, conta. Para levar a produção para uma escala comercial, ela contratou uma consultoria do Rio Grande do Sul e transformou, com uma grande reforma, as áreas de produção leiteira em uma indústria de vinhos.

A Vinícola Legado produz hoje entre 10 mil e 15 mil garrafas por ano. A empreendedora não acredita que vá se tornar uma grande vinícola um dia, mas descobriu que o enoturismo pode, sim, se tornar um negócio relevante. Desde 2015, ela promove eventos na época de colheita da uva – os visitantes chegam a ajudar no trabalho – e piqueniques e degustações ao redor da propriedade.

Agora, a Legado está reformando a casa sede da fazenda, para criar um centro de visitantes que deve ser inaugurado no fim deste mês, com salas para degustação, cursos e workshops sobre a bebida. “Para o futuro, temos planos de um espaço para eventos e um restaurante”, conta. 

E por que apostar no turismo? “Desde o princípio, eu soube que o projeto só poderia ser viável através do turismo. O Brasil tem um sistema tributário que faz com que seja muito mais rentável vender direto ao consumidor do que por meio de terceiros. Por isso, muitas vinícolas brasileiras se estruturam desta forma.” 

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