O novo protecionismo

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O novo protecionismo

O que antes era política de países chamados subdesenvolvidos, virou discurso dos países mais avançados

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2016 | 17h00

Ao longo da segunda metade do século 20, o protecionismo era discurso, prática e política dos países então chamados subdesenvolvidos.

O entendimento prevalecente entre as esquerdas nacionalistas era o de que as grandes potências usavam o comércio internacional como instrumento de dominação e, assim, alijavam os produtos dos países mais pobres do mercado mundial. A resposta convencionada a esse jogo desigual era a retranca na entrada de produtos industrializados.

As coisas mudaram radicalmente. Agora são os políticos, os empresários e até mesmo governos socialistas dos países mais avançados que pregam, se não o fim do livre-comércio, a imposição de fortes restrições a ele. Por toda parte, como na Alemanha, França, Bélgica, Canadá e Áustria, crescem as manifestações contra a facilidade de entrada de produtos estrangeiros.

O argumento é o de que as importações de mercadorias baratas produzidas nos países mais pobres, num regime de direitos trabalhistas rarefeitos e baixos salários, vêm matando a indústria e o emprego nos países avançados.

Nos Estados Unidos, país campeão do livre-comércio no passado, não é apenas o xenófobo candidato republicano Donald Trump que vem pregando fechamento de fronteiras e protecionismo sem disfarces. Também a candidata democrata, Hillary Clinton, manifestou oposição ao projeto de abertura comercial de iniciativa do presidente Obama, a Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês) e avisou que tem planos para rever os tratados do Nafta (Área de Livre-Comércio da América do Norte), que desde 1994 amarra Estados Unidos, Canadá e México. Lançada em 2013, como grande solução para a retomada do crescimento econômico derrubado pela crise que se iniciou em 2008, a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimentos (TTIP) entre Estados Unidos e União Europeia agora parece fadada ao fracasso. A pá de cal foi o Brexit, a decisão da Grã-Bretanha de abandonar a União Europeia e que, assim, quebra a unidade original.

As teses protecionistas partem do falso pressuposto de que bastará levantar barreiras à entrada de mercadorias estrangeiras para que a indústria local se recupere e o emprego acabe voltando. Paradoxalmente, muitas vezes a nova onda protecionista vem empacotada com propostas de redistribuição de renda, como se o desemprego global fosse subproduto do processo de concentração da riqueza. E, no entanto, é o contrário que acontece. Grande parte do processo que vem fechando postos de trabalho nos países avançados não é fruto dos movimentos de exclusão, mas, sim, de inclusão. É a incorporação de segmentos crescentes da população asiática ao mercado de trabalho e de consumo, à proporção de 30 milhões a 40 milhões de pessoas por ano, que vai provocando a migração de fábricas para a China, Coreia do Sul, Taiwan, Cingapura e outros tigres econômicos.

Este não é fenômeno isolado. Como outras vezes ficou dito nesta Coluna, é a própria natureza das relações de trabalho e de emprego que passa por rápida e inexorável mudança com a incorporação da automação, Tecnologia da Informação e novas técnicas de organização da produção. O clamor protecionista é a reação do cão que morde o pau que lhe é atirado e não identifica quem o atira. É um clamor emocional, que ignora as causas reais do problema. 

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