O obstáculo da desigualdade

Níveis mais baixos de desigualdade estão ligados a um crescimento mais rápido, e não mais lento como afirma a agência de risco Standard & Poor's

Paul Krugman *, The New York Times

08 de agosto de 2014 | 17h54

Durante mais de três décadas, quase todas as pessoas importantes na política americana defenderam que a cobrança de impostos mais altos sobre os ricos e a oferta de auxílio cada vez maior aos pobres prejudicaram o crescimento econômico.

Em geral, os liberais enxergaram isso como uma concessão justificável, dizendo que vale a pena aceitar como custo um PIB mais baixo em nome do auxílio aos concidadãos em situação de necessidade. Os conservadores, por outro lado, defendem um modelo econômico de distribuição da riqueza por escoamento natural pirâmide abaixo, insistindo que a melhor política é reduzir os impostos para os ricos, cortar o auxílio aos pobres e contar com a maré enchente, que vai beneficiar a todos.

Mas há agora evidências cada vez mais concretas de uma nova visão: talvez toda a premissa deste debate esteja equivocada, e não exista uma relação excludente entre igualdade e ineficiência. Por quê? É verdade que as economias de mercado precisam de certo grau de desigualdade para funcionarem. Mas a desigualdade americana se tornou tão extrema a ponto de causar um substancial estrago econômico. E isso, por sua vez, implica que a redistribuição (cobrar impostos dos ricos e ajudar os pobres) pode na verdade aumentar o ritmo de crescimento da economia.

Pode ser tentador descartar essa ideia como mero otimismo, uma espécie de equivalente liberal para a fantasia da direita segundo a qual cortar os impostos dos ricos leva a um aumento na arrecadação fiscal. Mas, na verdade, há provas sólidas,  de fontes como o Fundo Monetário Internacional, segundo as quais uma desigualdade elevada representa um obstáculo para o crescimento, mostrando também os benefícios econômicos da redistribuição.

Essa semana, a nova visão a respeito da desigualdade e do crescimento ganhou a bênção da agência de classificação Standard & Poor's, que publicou um relatório defendendo a posição segundo a qual a desigualdade representa um obstáculo para o crescimento. A agência estava resumindo o trabalho de outros, e não desenvolvendo pesquisas próprias, e não é preciso tratar as opiniões dela como palavra divina (basta lembrar do seu ridículo rebaixamento da nota da dívida americana). 

O que o carimbo da Standard & Poor's mostra, no entanto, é como essa nova visão a respeito da desigualdade se tornou difundida. No ponto atual, não há motivo para acreditar que dar conforto aos que já o tem e afligir quem já vive em aflição seja benéfico para o crescimento, e bons motivos para acreditar no oposto.

Mais especificamente, se observarmos sistematicamente as evidências internacionais a respeito da desigualdade, redistribuição e crescimento - coisa que os pesquisadores do FMI fizeram - veremos que níveis mais baixos de desigualdade estão ligados a um crescimento mais rápido, e não mais lento. Além disso, a redistribuição de renda nos níveis típicos para os países avançados (os Estados Unidos fazem muito menos do que a média) está "solidamente ligada a um crescimento maior e mais duradouro". Ou seja, nada indica que tornar os ricos mais ricos possa enriquecer o país como um todo, mas há fortes indícios dos benefícios decorrentes de tornar os pobres menos pobres.

Mas como isso é possível? Tributar os ricos e ajudar os pobres não equivale a reduzir o incentivo para ganhar dinheiro? Bem, sim, mas os incentivos não são o único fator importante para o crescimento econômico. A oportunidade também é crucial. E a desigualdade extrema priva muitas pessoas da oportunidade de concretizar seu potencial.

Pense nisso. Será que as crianças talentosas das famílias americanas de baixa renda têm a mesma chance de usar seu talento - de receber o melhor ensino, buscar a melhor carreira - que aquelas nascidas em degraus mais altos da pirâmide social? É claro que não. Alem disso, a situação não é apenas injusta, mas também cara. A desigualdade extrema representa um desperdício de recursos humanos.

E, ao reduzir esse desperdício, os programas do governo que reduzem a desigualdade podem tornar o país mais rico como um todo.

Pensemos, por exemplo, no que sabemos a respeito dos cupons de alimentação, eternos alvos dos conservadores segundo os quais os descontos reduziriam o incentivo para trabalhar. Evidências históricas indicam que a disponibilidade de cupons de alimentação reduz um pouco o esforço de trabalho, especialmente entre as mães solteiras. Mas indicam também que os americanos que tiveram acesso a cupons de alimentação quando estavam crescendo se tornaram mais saudáveis e produtivos do que aqueles sem este acesso, o que significa que sua contribuição econômica foi maior. O propósito do programa de cupons de alimentação era reduzir a miséria, mas é bem provável que tenha também beneficiado o crescimento econômico americano.

Eu diria que o mesmo se mostrará verdadeiro em relação ao Obamacare. Os seguros de saúde subsidiados vão levar algumas pessoas a reduzir o número de horas trabalhadas, mas isso também vai significar uma produtividade maior dos americanos que receberão o atendimento de saúde do qual necessitam, além de empregarem melhor seus talentos por poderem mudar de trabalho sem medo de perder a cobertura. No geral, a reforma do sistema de saúde vai tornar os EUA mais ricos e mais seguros.

Será que a nova visão da desigualdade vai alterar nosso debate político? Deveria. Parece que ser tratar bem os ricos e ser cruel com os pobres não é  chave para o crescimento econômico. Ao contrário, se tornássemos a economia americana mais justa, ela também seria mais rica. Adeus, difusão pirâmide abaixo: é hora de inverter o sentido deste fluxo.

* Paul Krugman é professor de Economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Estados Unidos

Tradução de Augusto Calil

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