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O outro lado desta guerra

Está errada a avaliação de que esse cabo de guerra entre Estados Unidos e China se restrinja às relações comerciais

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2018 | 17h30

Ainda está para se saber se esta é de fato uma grande guerra comercial que está para ser travada entre os Estados Unidos e a China ou se são apenas escaramuças destinadas a criar clima favorável à negociação de um acordo com certas concessões de parte a parte.

Mas está errada a avaliação de que esse cabo de guerra se restrinja às relações comerciais e, eventualmente, também a determinadas jogadas políticas internas e externas.

As queixas do presidente Trump são de que a China vem tirando grande proveito por exportar aos Estados Unidos mercadorias a baixíssimo custo de produção, porque trapaceia em pelo menos três áreas de negócios: paga salários insignificantes a seus trabalhadores; opera no comércio exterior com um câmbio artificialmente desvalorizado, o que tira competitividade ao produto norte-americano; e pirateia alta tecnologia e direitos de propriedade intelectual.

O resultado que esse estado de coisas produz, argumenta o presidente Trump, não é apenas o enorme superávit comercial que beneficia a China em detrimento dos Estados Unidos (veja os gráficos), mas, também, a migração de empresas para a China, com o objetivo de operar a custos baixos. E, também, o desemprego crônico provocado nos Estados Unidos, com proporcional redução de salários.

Este é também o diagnóstico dos eleitores de Trump, que se ressentem dessa que entendem como concorrência desleal da China. Assim, as novas políticas de Trump têm por objetivo atender a essa crescente insatisfação das classes médias, as mesmas que também defendem a adoção de políticas agressivas contra os imigrantes e adventícios que, segundo eles, invadem o mercado de trabalho dos Estados Unidos, para aviltar os salários de quem trabalha duro há tantos anos.

No entanto, é grave equívoco restringir os conflitos apenas à área comercial. Durante os últimos 30 anos vigorou um arranjo, mais tácito do que explicitado nos tratados, em que a China assumiu o papel de fornecer produtos mais baratos e de cada vez melhor qualidade para o consumidor dos Estados Unidos e, com o que faturou, formar enormes reservas técnicas em dólares, automaticamente aplicadas em títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

Na prática, a China não se limitou a fornecer mercadorias a custos mais baixos, mas, também, passou a ser importante financiador do déficit orçamentário dos Estados Unidos, na medida em que o Tesouro só emite títulos para cobrir déficits fiscais.

Se o rombo comercial dos Estados Unidos com a China passar a ser zerado, como pretende o presidente Trump, não poderá ser desprezado o efeito a ser produzido na demanda por títulos de dívida dos Estados Unidos hoje atendida pela China. E isso acontece numa conjuntura em que o presidente Trump derrubou os impostos para as empresas americanas, fator que deve aumentar o déficit orçamentário nos próximos anos.

Em outras palavras, Trump não está apenas tentando restabelecer o poder de fogo comercial dos Estados Unidos em cumprimento de sua palavra de ordem “put America first”. Ameaça, com isso, desarticular a outra ponta do arranjo que até aqui vinha equacionando o equilíbrio das finanças públicas dos Estados Unidos.

Em princípio, uma quebra relevante da demanda por títulos do Tesouro dos Estados Unidos deve aumentar os juros (sobre operações em dólar) o que, por sua vez, tende a produzir valorização do dólar em relação às outras moedas e, portanto, perda de competitividade do produto americano nos Estados Unidos e em todo resto do mundo. Só não estão claras as proporções em que esses ajustes acontecerão.

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