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O ovo da serpente

Um movimento político nasce na internet – não é só no Brasil, é no mundo

Pedro Doria, Impresso

02 de dezembro de 2016 | 05h00

O Brasil vive um momento perigoso. Há elementos demais na praça que, em conjunto, têm alto poder de combustão. Uma crise econômica. Um Congresso que abandonou por completo a tentativa de disfarçar preocupação com o que pensam os brasileiros. Um presidente indeciso. Partidos esfacelados. Polarização política. E, nas redes sociais, grupos se radicalizando a cada dia.

Este ano, a Itália elegeu para as prefeituras de Roma e Turim duas mulheres jovens que vieram de fora da política. Virginia Raggi, que governará a capital, é advogada. Chiara Appendino, empresária. São, ambas, o maior feito político do Movimento 5 Estrelas.

Não se chama “movimento” à toa. Não é um partido. Começou organizando grandes marchas contra todos os políticos cujo mote era vaffanculo. Quer dizer exatamente o que soa. A plataforma defendida pelo M5S vai de bicicletas a teto de salários para funcionários públicos, passando por boa gestão financeira. Não é claramente nem de esquerda nem de direita. Pessoas do movimento já disseram que vacinas causam autismo, que uma conspiração do banco JP Morgan trabalha para mudar a constituição italiana e até que há dúvidas a respeito de o homem ter ido à Lua.

Brasil e Itália são um bocado parecidos. Somos latinos, temos PIBs de tamanho equivalente, burocráticos e um sistema partidário no mínimo frágil. Os países são, também, diferentes. Não somos europeus, temos um enorme déficit educacional, a mobilidade social é muito maior por aqui. O que acontece em um país não necessariamente acontece em outro. Mas há também um outro país continental, de alta mobilidade social, não europeu, que recentemente elegeu um presidente apolítico com queda pela demagogia e interesse por teorias conspiratórias.

Um movimento político nasce na internet. Não é só no Brasil, é no mundo. No Brasil, ele não está organizado. Mas suas características são similares por toda parte. Uma é que pesca pautas tanto da direita quanto da esquerda. Outra é que abusa de teorias conspiratórias. Não faltam, por aqui, pessoas rede afora com explicações claras para descrever a confusão generalizada que se instalou em Brasília. São teorias com início, meio e fim, e vilões bem demarcados. A esquerda tem as suas, a direita idem. Uma terceira característica é sua capacidade, aproveitando-se da estafa geral, de levar gente às ruas. Muita gente.

Que ninguém entenda isto mal: motivos para ir às ruas não faltam. A crise que vivemos não é apenas obra dos ciclos econômicos naturais. Ela foi piorada, em muito, pela incompetência dos governantes e por reformas nunca feitas. Não bastasse, a crise moral no Congresso chegou a um pico inédito na história do país. É um Parlamento que legisla em causa própria. Acintosamente. Sequer disfarça o fato de que deseja manobrar para evitar investigações que envolvam seus membros. Para não falar de um presidente que, embora professor de Direito, finge não saber que tráfico de influência é crime tipificado faz sete décadas.

Os políticos brasileiros, por um lado, não percebem com clareza o nível de revolta popular. Por outro, dão sinais de que não estão nem aí.

E, neste momento da história, essa mistura é um risco. Porque o Brasil tem, rigorosamente, todas as características que geram estas frentes demagógicas, populistas, sem qualquer compromisso com a verdade ou os fatos. Só o que o povo quer ouvir.

A tecnologia era outra, mas no tempo do rádio o mundo viveu coisa parecida. Na época, chamava-se fascismo. E, no início, prometia todas as soluções para a incompetência generalizada daqueles políticos.

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