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O país das balas de prata

Para resgatar a economia, não bastará uma boa reforma da Previdência, nem apenas a derrubada do custo Brasil, nem melhorar o sistema de ensino

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2019 | 21h00

Um dia espalhou-se a crença, ou apenas jeito de dizer, de que lobisomens, vampiros, assombrações e monstros dessa ordem seriam definitivamente eliminados com um tiro certeiro de bala de prata.

Logo se viu que não existem tais monstros nem balas de prata. A expressão ficou para dar a entender que não existem soluções simples para problemas complexos. Ou, então, que determinados problemas têm de ser enfrentados sem vacilação, sob pena de mergulho imediato no caos ou no fim do mundo.

O Brasil tem uma longa história de eleições de problemas de vida ou de morte e de soluções radicais. Talvez o mais antigo tenha acontecido no século 19, quando o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire se impressionou com a devastação provocada pela saúva e proclamou: “Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”. De lá para cá, apesar do formicida Tatu e das iscas de exterminação que vieram depois, nem o Brasil acabou com a saúva nem a saúva acabou com o Brasil.

Mas teve Ruy Barbosa no início do século 20, para quem tudo se resolveria se fosse sancionado um único artigo de lei, revogadas as disposições em contrário: “Todo o brasileiro está obrigado a ter vergonha na cara”.

E então vieram os economistas. Logo eles passaram a dizer que o grande problema do Brasil era o latifúndio improdutivo e que, por isso, seria preciso reforma agrária radical já para acabar com todas as mazelas. Também houve o tempo em que tudo se resolveria quando o Brasil tivesse indústria e quando controlasse o petróleo. Veio a indústria e, quando esta se desenvolveu, no resto do mundo e também no Brasil, o setor predominante da economia passou a ser o de serviços. “O petróleo é nosso” ajudou, mas não resolveu.

Nos anos 60, os economistas mais identificados com o progresso ensinavam que a inflação era o efeito colateral inevitável do processo de desenvolvimento. Nos anos 70, no regime militar, o avanço passou a depender da chegada de capitais e, assim, a estratégia de desenvolvimento baseou-se no aumento da dívida externa. Deu no que deu, na baita crise do endividamento. A cada disparada da inflação, o governo da hora inventava um plano infalível, como o congelamento artificial de preços, o corte de zeros da moeda velha e a criação de uma nova.

A história econômica do Brasil vem convivendo com recomendações infalíveis. Por muitos anos, os empresários brasileiros vinham identificando o câmbio atrasado ou os juros escorchantes como a explicação definitiva para todos os males do setor. Agora, muitos elegeram o trabalho informal como vilão maior.

De umas semanas para cá, foram inúmeros os economistas e políticos que saíram a advertir que nem a reforma da Previdência, nem a ainda longínqua estabilização fiscal, nem a também distante modernização do ensino seriam a bala de prata que garantiria o fim da estagnação em que está atolada a economia.

O maior erro desses diagnósticos e dos procedimentos recomendados está na falta de visão abrangente. O desempenho de um avião não depende apenas da perícia do piloto, nem só das turbinas, das asas, da fuselagem ou da excelência do trem de pouso. Depende de que tudo funcione como planejado.

Não bastará uma boa reforma da Previdência, nem apenas a derrubada do custo Brasil, nem melhorar o sistema de ensino para resgatar a economia. Todo o avião tem de funcionar. Mas, no dia a dia, as pessoas querem balas de prata.

Confira

» Abaixo dos R$ 4

Há duas semanas, o “câmbio a 4” virou sinal de desalento. Mas bastou que lá em Brasília os chefões da política se mobilizassem para um “ensaio de pacto” para que o nervosismo baixasse de patamar. Nesta quarta-feira, as cotações do dólar no câmbio interno resvalaram para os R$ 3,97. No entanto, ensaio de pacto não é nem pacto nem garantia de que os políticos se mobilizem para aprovar as reformas. Por isso, as cotações continuam sujeitas às marés. Para o final do ano, o mercado prevê o dólar a R$ 3,80.

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