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O papel limitado da tecnologia contra o Ebola

O equipamento de ponta desenvolvido para ajudar na proteção de agentes de saúde pode não ser útil em países pobres

The Economist, O Estado de S. Paulo

23 de março de 2015 | 03h00

Em meio aos delírios e convulsões que o acometem, um paciente de Ebola com sintomas agudos é capaz de eliminar, por dia, dez litros de sangue e outros fluidos corporais, fezes e tecidos em decomposição, todos altamente contagiosos. Isso torna difícil e perigosa a tarefa de cuidar de pessoas infectadas com essa doença terrível - a ponto de haver médicos e enfermeiros que prefiram largar o emprego a ter de enfrentar mais um dia de trabalho estressante. Como em todos os episódios de Ebola, a prevenção a novas infecções durante o surto em curso na África Ocidental - o pior da história - implica direcionar grande dose de energia aos cuidados com os responsáveis pelo tratamento das vítimas do vírus. Ainda que equipamentos de alta tecnologia tenham sido desenvolvidos para proteger esses profissionais da saúde, há países em que a utilização de tais equipamentos talvez não seja muito recomendada.

O vírus do Ebola se dissemina por contato direto, que pode se dar através do mais insignificante fragmento de pele rachada ou de membranas mucosas presentes, por exemplo, nos olhos, nariz ou boca. A fonte de contaminação pode ser o sangue ou outros materiais corporais e objetos como agulhas e seringas. Equipamentos de proteção são necessários. Mas, ao sair à procura desse tipo de artefato especializado, Nichodemus Gebe, chefe de engenharia biomédica do Ministério da Saúde de Gana, não encontrou nenhuma unidade de tratamento que fosse facilmente transportável e capaz de conter o vírus. Em julho do ano passado, Gebe resolveu pedir ajuda à Odulair, uma empresa americana de Cheyenne, no Wyoming, especializada na produção de clínicas móveis.

Dois meses depois, a Odulair lançou uma unidade de isolamento modular para o tratamento de pacientes com Ebola. A fabricante garante que entre produção, entrega via aérea e instalação do produto não se passa mais que um mês. A unidade mantém pressões atmosféricas variáveis entre os quartos a fim de impedir a propagação do vírus; embora não seja transmissível pelo ar, o Ebola é capaz de aderir a partículas que nele flutuam. Por isso, uma pressão mais elevada é mantida nas áreas reservadas para a equipe médica e para os pacientes que aguardam diagnóstico. Nos quartos, o ar é purificado até 36 vezes por hora com filtros que recolhem quase todas as partículas cujo tamanho exceda um terço de micrômetro ou três milionésimos de metros, medidas inferiores às de um vírus de Ebola. O ar também é bombardeado com luz ultravioleta para matar os germes.

Vídeo-médico. As portas da unidade se abrem automaticamente, o que viabiliza a ronda de um robô de “telepresença”. Esse robô exibe imagens ao vivo de um médico ou enfermeira, possibilitando que eles conversem com os pacientes. O RP-VITA, como é chamado o robô, reduz significativamente o número de vezes que os profissionais envolvidos no atendimento às vítimas de Ebola precisam vestir roupas de proteção e entrar nos quartos, diz Anita Chambers, diretora da Odulair.

Todo lixo fluido e sólido, incluindo itens como agulhas e colchões, é direcionado para uma câmara cilíndrica, abrigada num contêiner. Aí, o lixo é esmagado por um triturador e então cozido em vapor escaldante, sob alta pressão, até restar no interior da câmara apenas um pó acinzentado e estéril. A unidade de isolamento da Odulair também incorpora um sistema nebulizador que esteriliza os quartos desocupados com vapor de peróxido de hidrogênio. Alguns hospitais desinfetam seus quartos com máquinas operadas por controle remoto, como a Q-10, fabricada pela britânica Bioquell, ou com um robô produzido pela texana Xenex Disinfection Services, que é capaz de esterilizar um quarto em dez minutos.

No início do segundo semestre de 2014, o Escritório das Nações Unidas para Serviços de Projetos (UNOPS) em Abidjã, capital da Costa do Marfim, recomendou que alguns países africanos investissem nesses kits.

Mas, de lá para cá, a Odulair vendeu apenas duas de suas unidades de isolamento, e o destino delas não foi nem a África nem qualquer outro país onde existam pacientes de Ebola. A primeira unidade foi adquirida por uma empresa que presta serviços para o Departamento de Segurança Nacional dos EUA, e a segunda, por Trinidad e Tobago. Para países pobres, equipamentos desse tipo são caros demais, diz o ganês Gebe. Uma unidade Odulair que comporte dez casos confirmados de Ebola e oito com suspeita de contaminação custa cerca de US$ 900 mil - e no preço não está incluso o robô. Um Q-10 sai por aproximadamente US$ 53 mil, e um Xenex, por cerca de US$ 100 mil.

Não é apenas o custo que impede a utilização de soluções high-tech em focos de infestação de Ebola. A realização de atividades de reparo e manutenção é problemática. Peças e ferramentas pontiagudas podem perfurar as roupas de proteção e causar ferimentos, aumentando os riscos de infecção. Pouco familiarizados com esse tipo de tecnologia, os técnicos locais às vezes não se dispõem a realizar consertos, diz Agnès Lamaure, uma especialista em logística da Médicos Sem Fronteiras (MSF), a ONG francesa que protagonizou grande parte do esforço internacional de combate ao Ebola.

Outra dificuldade é que, na maior parte das vezes, as clínicas de campanha de Ebola precisam gerar sua própria eletricidade. Portanto, no cálculo do valor de um sistema ou dispositivo como esse entra não apenas o custo financeiro, mas também a preciosa quantidade de energia que ele deve consumir, acrescenta Lamaure. Na África, os sprays operados com bombas manuais, geralmente empregados para aplicar pesticidas em jardins, são a maneira mais prática de pulverizar com desinfetantes um centro de Ebola. E, em vez de importar máquinas para destruir materiais infectados, que podem custar até US$ 300 mil, esses centros queimam o lixo por eles produzidos em poços que depois são lacrados e cobertos com concreto.

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Apesar disso, algumas inovações tecnológicas têm se mostrado úteis na África Ocidental, onde, apesar da queda no número de casos de Ebola, a doença permanece ativa. Por muitos anos, a bíblia sobre o combate a surtos epidêmicos em países pobres foi um relatório elaborado pela Organização Mundial da Saúde e pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos EUA, intitulado “Controle de Infecções para Febres Virais Hemorrágicas nas Condições dos Sistemas de Saúde na África”. O documento priorizava uma espécie de “realismo do mínimo denominador comum”, baseado nos recursos que se encontravam amplamente disponíveis, e não nos mais adequados, diz o epidemiologista da MSF Armand Sprecher. Isso contribuiu para fazer do vestuário cirúrgico a roupa padrão dos profissionais envolvidos no atendimento a pacientes de Ebola.

No entanto, roupas confeccionadas para serem usadas em centros cirúrgicos não são as mais apropriadas para, por exemplo, recolher cadáveres que jazem em meio a fluidos corporais infecciosos. Aventais e roupões cirúrgicos deixam a maior parte das costas do profissional desprotegidas. Assim, quando ele se agacha para levantar um corpo, o material acumulado em suas botas tende a umedecer o tecido de algodão de suas vestes cirúrgicas na região das nádegas e das coxas. “É uma sensação desagradável”, diz o dr. Sprecher, que começou a colaborar com a MSF no combate a surtos de Ebola em 2000, alguns anos antes de macacões confeccionados com Tyvek, uma fibra sintética da DuPont, tornarem-se amplamente disponíveis.

O Tyvek é produzido com fibras de polietileno de alta densidade. Essas fibras não são obtidas por fiadura, como a maior parte dos tecidos, e sim por um processo chamado “flashspun”, que envolve a evaporação de um solvente. Embora impermeável e resistente a rasgos e rupturas, o Tyvek não impede a passagem de moléculas de ar sob alta pressão. Isso tem levado à adoção em larga escala de um tecido laminado ainda mais impermeável chamado Tychem, também fabricado pela Dupont.

No entanto, os macacões feitos com Tychem têm uma grande desvantagem.

Esse material restringe a tal ponto as trocas gasosas que o resfriamento evaporativo é suprimido, de modo que, sob calor excessivo, o profissional pode sofrer um rápido superaquecimento corporal, ficando vulnerável a episódios de confusão mental ou mesmo insolação. A transpiração e o cansaço se acumulam em ritmo tão acelerado que na África Ocidental as atividades com esse tipo de macacão são limitadas a duas ou, às vezes, três sessões diárias de 45 minutos, informa Hélène Esnault, uma enfermeira da MSF que atualmente trabalha na República Democrática do Congo. O dr. Sprecher tem esperança de que pesquisas conduzidas pelos CDC levem à elaboração de um tecido tão resistente ao Ebola como o Tychem, porém mais respirável.

Na última década, as luvas de látex foram largamente substituídas por luvas feitas com nitrila, uma borracha sintética que resiste melhor à ação corrosiva dos desinfetantes a base de cloro. Um número cada vez maior de óculos protetores é fabricado sem aberturas de ventilação na borda superior, a fim de impedir que os olhos do profissional sejam expostos a agentes de contaminação misturados ao suor ou à chuva. E agora, nos países africanos mais pobres, é muito mais generalizado o uso de máscaras cirúrgicas, cujo preço caiu cerca de 75% nos últimos 15 anos, diz Juan Martínez Hernández, um epidemiologista e especialista em Ebola de Madrid.

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No entanto, as máscaras cirúrgicas deixam de ser eficazes quando encharcadas de suor. Máscaras de tipo “bico de pato”, que não se colam ao rosto, funcionam melhor, mas são mais caras. A MSF vem testando uma série de máscaras respiratórias, impulsionadas por uma bateria presa ao cinto. O ar filtrado é levado por uma mangueira de borracha até um capuz dotado de um visor de plástico. Sua liberação ocorre em volume maior do que aquele que a pessoa é capaz de inalar, o que mantém sob o capuz uma pressão ligeiramente mais elevada do que a ambiente, ajudando, assim, a impedir o contato com partículas flutuantes.

A um custo unitário de cerca de US$ 1,6 mil, há poucas “máscaras respiratórias de pressão positiva” em utilização na África Ocidental. E usá-las pode ter consequências negativas, diz o dr. Hernández, um dos signatários de uma carta publicada no periódico de medicina The Lancet, desencorajando o uso dessas máscaras. Médicos e enfermeiros que veem colegas usando uma máscara assim, sentem-se menos inclinados a trabalhar com máscaras passivas, muito embora, usadas com cautela, estas últimas ofereçam proteção suficiente, garante ele. Ministérios da saúde de vários países africanos querem impedir que o padrão de proteção seja elevado a níveis financeiramente impraticáveis, acrescenta o dr. Sprecher, da MSF.

Uma maneira prática de prevenir infecções e diminuir o risco para os profissionais da saúde é educar a população sobre a doença, diz Khadija Sesay, diretora da Open Government Initiative em Serra Leoa. Com a ajuda da IBM, a entidade usa softwares para analisar mensagens de texto e ligações telefônicas para números de emergência do governo. Com base nisso é possível mapear a prevalência de pessoas cujos comportamentos podem espalhar a infecção. Comer carne de animais selvagens, por exemplo, pode transmitir o vírus de Ebola. É improvável, portanto, que as tecnologias mais sofisticadas venham a ter um papel muito significativo no combate ao Ebola na África, principalmente se o número de infectados continuar alto. O Ebola já atacou e foi debelado antes, mas ainda que arrefeça, um dia estará de volta.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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