O paradoxo dos investimentos

Há, atualmente, no Brasil um grande paradoxo no que tange aos investimentos. Isso porque observamos anúncios de maiores investimentos ao mesmo tempo que está ocorrendo uma redução importante no crescimento dos indicadores que medem a evolução física desses investimentos.No PAC, por exemplo, o governo anunciou um aumento de R$ 142,1 bilhões nos investimentos do programa até 2010, totalizando R$ 646 bilhões. Em contrapartida, os investimentos em termos físicos estão caindo. Na construção civil, por exemplo, a produção de insumos típicos da atividade apresentou queda de 10,6% no período de janeiro a abril de 2009, em relação ao mesmo período do ano anterior. O consumo aparente de bens de capital, por sua vez, caiu 21% de outubro de 2008 - ponto mais alto da série em 2008 - em relação a abril de 2009. (Ver gráfico abaixo.)A expansão dos investimentos, tal como feita para fins de cálculo do PIB, dá-se essencialmente pela incorporação de máquinas, equipamentos e construções (sejam residências, prédios industriais, comerciais e obras de infraestrutura). Assim, dada a evolução dos indicadores de consumo aparente de máquinas e dos insumos típicos da construção civil, discutida acima, é difícil acreditar em manutenção da taxa de investimentos no PIB em 2009, à semelhança do que o BNDES projetou em recente estudo, em que pese o cuidado de suas estimativas. A consultoria MB Associados, por exemplo, projeta que essa taxa caia para 18% do PIB, de 19,4%, em 2008.Assim, é inequívoco que os investimentos estão, de fato, diminuindo. Fato que é bastante razoável, tendo em vista o ajuste no caixa que as empresas tiveram de realizar para se adequarem à menor oferta de crédito e ao encolhimento dos mercados por causa da recessão mundial, desde a quebra da Lehman Brothers. Sendo assim, então, como entender esse paradoxo?Em primeiro lugar, em situações de reversão de ciclo de crescimento, como a que estamos vivendo, inúmeras empresas enfrentam fortes restrições financeiras e queda de demanda, o que as leva a adiar ou cancelar projetos - até porque a utilização média de capacidade instalada vem caindo de forma expressiva. Segundo a Sondagem Industrial da FGV, o nível de utilização da capacidade instalada caiu 7,1 pontos porcentuais (p.p.) de junho de 2008 - ponto mais alto da série dessazonalizada em 2008 -, em relação a maio de 2009. Ademais, como sempre ocorre nas crises, a difícil situação financeira das empresas leva a uma consolidação em diversos segmentos, como, por exemplo, a que está acontecendo no setor sucroalcooleiro e nos frigoríficos. A consolidação ocorre para buscar sinergias e recomposição financeira, que na maioria dos casos não resultam em novas plantas. Ao contrário, num primeiro momento há inclusive redução de pessoal e fechamento de algumas plantas para melhorar a operação como um todo.Não obstante tudo isso, é inegável que a queda na taxa de juros brasileira em 2009 reduz sensivelmente os custos de investir e, portanto, estimula os investimentos. Mas a recente valorização do real - que na visão da MB se manterá neste ano -, combinada à enorme capacidade ociosa no mundo, deve aumentar as importações, o que reduzirá a demanda para os produtos nacionais, levando ao adiamento de novos investimentos.No plano público, o governo tem dificuldades para pôr em andamento os investimentos planejados, o que faz com que os anúncios não se traduzam em investimentos físicos de fato. Um exemplo disso é a lenta execução das obras do PAC. Um levantamento realizado pelo site Contas Abertas mostra que, em dois anos do PAC, apenas 3% das obras foram concluídas, 23% estão em andamento e 74% ainda estão em fase inicial (em contratação, contratada, em ação preparatória e em licitação). Outro exemplo é o episódio, divulgado no jornal O Estado de S. Paulo, em que o governo brasileiro devolveu ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) os recursos de um empréstimo de US$ 57 milhões para obras de saneamento em diversos municípios, simplesmente porque não conseguiu gastar o dinheiro.Neste contexto, mesmo a Petrobrás, com maiores investimentos anunciados para este ano, está redimensionando projetos para adequá-los à realidade atual, inclusive no quesito garantias e financiamento. Na prática, isso significa ir mais devagar com a expansão de seus investimentos, pelo menos neste ano. A MB, por exemplo, tem legítimas dúvidas sobre a economicidade da construção das três refinarias anunciadas.Daí por que é inquestionável que, do ponto de vista do que importa para o crescimento do PIB, os investimentos em termos físicos vão continuar a diminuir, a despeito dos esforços do governo para impedir que isso ocorra. Essa é uma das três razões - junto com a redução das exportações e do crescimento no consumo das famílias - por que a MB acredita que a economia brasileira em 2009 ficará estagnada e poderá apresentar um início de recuperação em 2010. *José Roberto Mendonça de Barros, Renata Ferraz de Toledo Machado e Juliana Aranha Serillo são economistas da MB Associados

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