‘O parcelado sem juros não vai acabar’

Presidente da maior credenciadora de cartões do País diz ainda que lojista não vai pagar mais caro pelo serviço

Leandro Modé, de O Estado de S. Paulo,

26 de setembro de 2012 | 22h27

SÃO PAULO - No jargão financeiro, a Cielo é uma credenciadora. Para quem não é do ramo, a definição mais clara possível é a de uma empresa que credencia estabelecimentos comerciais para aceitar pagamentos com cartões de crédito e débito, e cuida do processamento, transmissão e liquidação das operações.

Com a alta do consumo nos últimos anos, é um negócio que cresce sem parar no Brasil. A Cielo é líder do segmento, com cerca de 60% do mercado. É do alto dessa liderança que o presidente da companhia, Rômulo De Mello Dias, não mede palavras: as vendas parceladas sem juros no cartão de crédito não vão acabar e o lojista não vai pagar mais pelo serviço.

"Tenho visto notícias na imprensa sobre supostos movimentos coordenados que implicariam alterações mais radicais no sistema. Pelo menos em relação ao credenciamento, isso não vai acontecer", afirma, nesta entrevista ao Estado.

Qual a posição da Cielo sobre a proposta de acabar com as compras sem juros parceladas no cartão de crédito?

A Cielo não fará nenhum movimento bombástico ou radical para mudar qualquer coisa oferecida ao lojista. Qualquer movimento será feito pelo oferecimento de um cardápio de opções para o lojista. Vamos continuar oferecendo o parcelado sem juros, que acreditamos ser extremamente importante para impulsionar as vendas do lojista. Vamos, simultaneamente, oferecer o parcelado com juros. Quem vai escolher é o cliente.

O sr. tem estimativas sobre o impacto no consumo de um eventual fim do parcelado sem juros?

É preciso ficar claro: o parcelado sem juros não vai acabar. Se hipoteticamente isso acontecesse, toda a economia ia perder: o lojista e a pessoa física. Algumas simulações internas mostram que, se isso ocorresse, haveria impacto até mesmo no Produto Interno Bruto (PIB).

Pode citar algum número?

Não me sinto confortável. Há muitas variáveis envolvidas.

O consumidor não deve se preocupar, então?

Não haverá mudança. Não só o consumidor não precisa se preocupar, como o lojista também não tem de se preocupar. Não vamos mexer nas tarifas que cobramos do lojista por causa de discussões que possam, eventualmente, estar ocorrendo.

Quando o cardápio a que se refere será apresentado ao lojista?

Já está sendo oferecido. Lançamos o crediário, que nada mais é do que permitir que a pessoa física simule uma venda em até 48 meses com juros na loja. O meu cliente é o lojista. Vamos fazer testes no parcelado sem juros simultaneamente ao parcelado com juros.

Por que estão ocorrendo essas discussões no segmento de cartões no Brasil neste momento?

Discussões sempre existiram e sempre existirão. Mas daí a dizer que há um movimento coordenado no sentido de que algo vai mudar sistemicamente a partir de uma data 'x', não.

Existe alguma pressão do governo para alterações no setor?

O governo tem conversado com o sistema no que se refere à questão do rotativo. Alguns movimentos nesse sentido, aliás, estão ocorrendo, haja vista anúncios recentes do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e do Bradesco.

Com a queda do juro básico, há impacto sobre todo o sistema financeiro. Quais mudanças o sr. vê no segmento de cartões?

Tenho visto notícias na imprensa sobre supostos movimentos coordenados que implicariam alterações mais radicais no sistema. Pelo menos em relação ao credenciamento, isso não vai acontecer. O que tem é uma conversa sobre esse mundo novo, com queda das taxas de juros e dos spreads (diferença entre o que os bancos pagam na captação do dinheiro e o que cobram nos empréstimos). O movimento é salutar para toda a economia. Vai gerar um combustível adicional para que, no fim das contas, vendamos mais.

O juro alto no cartão atrapalha o negócio da Cielo?

Alguns grandes bancos estão reduzindo as taxas do rotativo. Acredito que isso vai ocorrer em outros bancos também. Quanto mais espaço houver no bolso do consumidor para que possa fazer as compras, mais vendas haverá, o que é bom para nós. As perspectivas para a nossa indústria continuam positivas porque somos afetados diretamente pelo crédito. Se há uma redução do juro, o valor da parcela cai. Tudo isso colabora para gerar mais vendas.

Para a Cielo, qual o limite para o número de parcelas sem juros?

Doze meses é um limite bastante razoável.

Parcelado sem juros é uma jabuticaba? Só tem no Brasil?

Não. Foi um produto criado no Brasil para substituir o pré-datado, mas existe na Argentina, na Itália e em outros países.

Exportamos, então, a jabuticaba?

É verdade. Mas aqui há um ponto importante: não foi o sistema de cartões que criou o parcelamento sem juros, mas o próprio comércio, com o cheque pré-datado.

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