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José Roberto Mendonça de Barros
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O passado não se repete

Tenho escutado de muita gente o receio de que pudesse se repetir hoje o ocorrido em 2005, quando o governo, o partido no poder e o então presidente Lula, depois de fortemente pressionados pelo problema do chamado mensalão, acabaram recuperando-se perante a opinião pública, ganharam três eleições e estão até hoje no poder.

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2015 | 03h00

Depois de muito pensar, minha resposta é que o episódio passado, com toda probabilidade, não se repetirá. Quatro, pelo menos, são as razões para tanto.

1 - A situação econômica é exatamente a oposta daquele momento. Lá, a inflação caía (7,6% em 2004 e 5,7% em 2005) e hoje, a mesma sobe muito (6,4% em 2014 e 9,70% ou mais neste ano). O PIB crescia (5,7% e 3,1%, em 2004 e 2005) e hoje enfrentamos um desastre (0,1% no ano passado e pelo menos -3,0% no corrente exercício). O desemprego do trabalhador diminuía naquela ocasião e piora substancialmente hoje, devendo ultrapassar os 10% até o final do ano. A situação fiscal era de tranquilidade (superávit primário de 3,7% e déficit nominal de apenas 2,9% e 3,5% do PIB, para 2004 e 2005, respectivamente). Hoje, os números são de déficit primário de 0,6% e 0,9% e de horríveis 6,2% e 9,8% do PIB de déficit nominal. A dívida bruta está subindo aceleradamente e vai rapidamente ultrapassar os 70% do PIB. Ademais, não existe a menor chance de nenhuma melhora em 2016. Projetamos outra queda no PIB (-1,4%) e uma elevação adicional do desemprego, para mais de 11% da população ativa, com redução da renda familiar real.

2 - A China crescia vigorosamente (8,8% e 12,4%, em 2004 e 2005), empurrando para cima os preços de commodities e hoje o crescimento é menor do que 7%, o que levou a um tombo nos preços das mercadorias. No último ano, as cotações da soja, do açúcar e do café, em dólares, caíram 12,5%, 38,1% e 9,2%, respectivamente. A demanda chinesa de minério de ferro e de aço desmontou e seus preços estão no pior momento dos últimos anos, até porque, o mundo não cresce mais como antes.

3 - Em 2005, a descoberta do potencial do pré-sal era recente, o bilhete premiado de loteria, no dizer dos governantes, que abria a esperança de um salto para o futuro. O óleo de fato existe, mas seus baixos preços e a crise na Petrobrás estão arrebentando a companhia e a sua cadeia de fornecimento, implicando numa queda profunda do investimento. Com crise em outros setores, a Taxa de Formação Bruta de Capital deve cair mais de 10% neste ano, sem nenhuma possibilidade de melhora nos próximos semestres.

4 - A única agenda efetiva atual do governo é a de evitar a abertura de um processo de impeachment, de sorte a se manter no poder. A reforma ministerial foi uma demonstração inequívoca dessa observação. Por outro lado, a evolução recente mostra que a crise econômica é muito mais profunda do que se imaginava e ainda não chegou ao seu ponto mais baixo. A elevação veloz do desemprego, a redução da produção e do consumo vão continuar afetando, tanto as famílias, quanto as empresas. Apenas a título de exemplo de quão fundo são esses eventos, vale mencionar que o consumo de farinha de trigo, em quantidade, caiu 10,5% de janeiro a agosto deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado. No que tange às empresas, a situação financeira da maior parte delas é cada vez mais difícil, o que tem levado a um número recorde de insolvências, que só fazem elevar o contingente de desempregados.

Ao mesmo tempo, a deterioração da situação fiscal é extraordinária: de uma promessa de superávit (1,2% do PIB) evoluímos rapidamente para uma perspectiva de déficit primário superior a R$ 50 bilhões, sem falar no eventual ajuste por conta das chamadas “pedaladas fiscais”. A situação é muito esquizofrênica não só porque a proposta de ajuste fiscal que está no Congresso não deverá andar neste ano, assim como o principal partido no poder e seu líder não param de pedir a troca do ministro da Fazenda. Ora, o desarranjo fiscal só aponta para uma situação ainda mais difícil no ano que vem.

Ademais, as crises setoriais são fundas e não existe nenhuma proposta ou perspectiva de melhorá-las. Além do setor de petróleo acima mencionado, vale observar que o setor de energia elétrica está totalmente paralisado, porque existem mais de 200 ações judiciais em andamento. O choque tarifário não resolveu o problema financeiro do segmento, mas, evidentemente não poderá ser repetido dada a precária situação das finanças de famílias e empresas. Claramente, o governo não tem nenhuma estratégia coerente para superar a situação, que será agravada pelo baixíssimo nível de água nos reservatórios da Região Nordeste.

Além da área de energia, o remanescente da infraestrutura (aeroportos, estradas, ferrovias e portos) também mostra um grave impasse regulatório que trava os novos projetos. Assistimos nas últimas semanas a uma sucessão de adiamentos de leilões de concessões em todas as áreas, sem falar no claro fracasso do último leilão de petróleo. Neste momento, o governo não tem nada a oferecer, tanto proposta, quanto esperança de melhora da situação.

Encerro com duas observações. A economia continuará muito mal e me parece impossível que consigamos nos arrastar nessas condições por mais três anos e dois meses.

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