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Fábio Alves
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O patinho feio

Temor de uma bomba fiscal com agravamento da situação política afasta investidor

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2020 | 04h00

O Brasil é um dos países emergentes mais castigados pelos investidores estrangeiros durante a crise da pandemia do coronavírus. Além da preocupação com o tamanho da recessão causada pelas medidas de restrição à circulação de pessoas e à atividade econômica, a resposta confusa e descoordenada no combate à doença e a escalada da crise política do governo Jair Bolsonaro afugentam o capital externo.

Até a primeira quinzena deste mês, por exemplo, o real era a moeda com o pior desempenho ante o dólar nos mercados emergentes, com a divisa dos EUA acumulando, até então, alta de 45%. O fluxo cambial no acumulado do ano até o dia 8 de maio, último dado disponível, estava negativo em mais de US$ 12 bilhões.

O Ibovespa também está entre os índices acionários que registram as maiores quedas no ano entre os pares emergentes, depois de ter batido o recorde histórico de 119.593,10 pontos em janeiro. Até o último dia 15, os investidores estrangeiros haviam retirado R$ 77,6 bilhões da Bolsa brasileira. Em maio, houve saques líquidos de capital externo da Bolsa todos os dias, à exceção do primeiro dia útil do mês. Sem falar que a curva de juros brasileira apresentava uma das maiores inclinações entre os emergentes, resultando em forte aperto das condições financeiras.

“Os investidores estão extremamente desconfortáveis com os países emergentes na seguinte ordem: Brasil, México, África do Sul, Rússia e Turquia”, diz o economista sênior internacional da consultoria inglesa Pantheon Macroeconomics, Andres Abadia. “Se o risco político seguir aumentando no Brasil, os investidores vão alocar o dinheiro nos mercados que estão conseguindo controlar melhor a pandemia do coronavírus e cujos governos estão com políticas (fiscal e monetária) de maior suporte à recuperação.”

O temor dos investidores é que o surto do coronavírus está saindo do controle no Brasil e que as medidas de isolamento social tenham de ser endurecidas e prorrogadas por mais tempo, gerando um estrago maior à economia.

O Brasil ultrapassou, na segunda-feira, o Reino Unido no triste ranking de países com maior número de casos confirmados de covid-19, totalizando mais de 254 mil infectados. O crescimento de novos casos e de novos óbitos no Brasil só é superado pelos Estados Unidos. O número de mortos no Brasil já soma mais de 17 mil.

“Os investidores estão agora muito focados em como os governos ao redor do mundo estão lidando com o combate a essa pandemia”, diz Simon Quijano-Evans, economista-chefe da gestora de recursos Gemcorp Capital, em Londres.

Não à toa, os analistas vêm revisando para baixo seguidamente as projeções do desempenho do PIB brasileiro em 2020. A mediana das estimativas de 25 instituições consultadas na mais recente pesquisa do Projeções Broadcast já aponta para uma queda de 6,0% do PIB brasileiro neste ano.

O que agrava a percepção dos investidores é que o Brasil já entrou na crise da pandemia de covid-19 em uma situação fiscal pior do que vários outros emergentes. E a preocupação agora é que o aumento dos gastos públicos para combater a doença não se limite apenas a 2020, ou seja, que despesas extras temporárias se tornem permanentes.

Há analistas que chegam a projetar um déficit primário do setor público de R$ 800 bilhões neste ano, facilmente ultrapassando 10% do PIB. A dívida bruta do País deve subir para 90% do PIB. E isso num contexto em que o Brasil já entrou na crise do coronavírus em situação mais frágil: a classificação de risco soberana do País começou a crise com três níveis abaixo do grau de investimento por duas agências de rating (S&P e Fitch). Aliás, desde então, a S&P e a Fitch revisaram a perspectiva do rating soberano brasileiro de estável para negativa.

Nem todos os fundamentos do Brasil estão piores do que os outros emergentes. A inflação bem comportada deve ajudar a manter os juros básicos em níveis historicamente baixos por muito tempo. As contas externas sob controle já não deixam o País vulnerável como em crises passadas, incluindo reservas internacionais elevadas.

Mas o temor com uma bomba fiscal mais adiante e com o agravamento da situação política, incluindo o espectro do impeachment e de uma crise institucional, tornou o Brasil o patinho feio dos mercados emergentes aos olhos dos estrangeiros. 

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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