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O pato e os empresários

Os empresários podem não querer pagar o pato, mas foram eles os primeiros a reivindicar e a apoiar políticas esquisitas que ajudaram a afundar o País

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2016 | 21h00

Quem viu o imenso pato amarelo de plantão durante as manifestações da Avenida Paulista ou a profusão de seus clones em miniatura na Esplanada dos Ministérios pode ter ficado com a impressão de que os empresários estão engajados na defesa de uma política de fortalecimento dos fundamentos da economia.

Pelo menos até aqui, isso não foi verdade. As entidades representativas dos interesses dos empresários podem não querer pagar o pato, mas foram elas as primeiras a reivindicar e a apoiar políticas esquisitas nos últimos 11 anos que ajudaram a afundar o País e a multiplicar a conta do pato.

Festejaram todos os pacotes de bondade que o governo distribuiu entre eles, como espécies de bolsa empresário. Festejaram a desoneração que comeu em mais de R$ 100 bilhões por ano a arrecadação federal, desastre que até o ex-presidente Lula passou a criticar, e apoiaram os programas irracionais de conteúdo local que ajudaram a afundar a Petrobrás.

Os dirigentes da Fiesp bateram-se todos os dias pela derrubada artificial dos juros, sem dizer como ficaria a política de metas de inflação. Qualquer que fosse a cotação do dólar, para eles o câmbio sempre estava fora de lugar e o real tinha de ser desvalorizado substancialmente para dar competitividade à indústria, sem levar em conta as verdadeiras causas dessa falta de competitividade.

Nunca se viu um dirigente de entidade defensora dos interesses dos empresários desaprovar a política da eleição dos campeões nacionais praticada pelo BNDES, que criou condições artificiais de competitividade e  privilegiou determinados empresários em detrimento da maioria. Tampouco esses dirigentes condenaram as políticas que concediam isenções seletivas de impostos, que quase sempre privilegiaram os setores com maior poder de lobby em Brasília, como a indústria automobilística e a indústria de aparelhos domésticos.

Os dirigentes dos empresários agora se queixam de que os sucessivos governos do PT não tomaram a iniciativa de negociar novos acordos comerciais que lhes abrissem a preferência para seus produtos no exterior. E, no entanto, eles próprios favoreceram bem mais as políticas defensivas baseadas em altas tarifas de importação do que a abertura do mercado.

E, se o Brasil foi até aqui um gigantesco parque de corrupção, como agora se sabe, isso não aconteceu apenas porque funcionários públicos, políticos e assalariados graduados das estatais se deixaram corromper, mas também porque na outra ponta da corda atuaram os corruptores e, entre eles, grande número de empresários.

Enfim, a crítica que se pode fazer à atuação dos empresários é a de que, em vez de dar força a políticas que garantissem a firmeza dos fundamentos da economia e lhes abrissem os horizontes e lhes dessem previsibilidade, preferiram brigar por resultados imediatos e aceitar um caramelo aqui, outro cala-boca ali.

Não querem pagar o pato, mas também não conseguem dizer como deverá ficar a distribuição da enorme conta a pagar por todos esses anos de mazelas e de imprevidência que prevaleceram na política econômica. 

CONFIRA:

O comportamento das vendas no varejo foi surpreendentemente melhor em fevereiro: crescimento de 1,2% sobre os números de janeiro. Se forem considerados também os segmentos de veículos e de materiais de construção (varejo ampliado), o resultado é mais expressivo: crescimento de 1,8%. Mas esse bom resultado não deve gerar ilusões. Os números gerais são ruins. No período de 12 meses terminado em fevereiro, o saldo é negativo: queda de 5,3% no varejo restrito e queda de 9,1% no varejo ampliado. O momento é de forte queda do poder aquisitivo do consumidor e de aumento da recessão.

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