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‘O pau está comendo’

Desgaste político colocou a reforma no meio do campo de batalha das redes sociais

Adriana Fernandes, O Estado de S. Paulo

23 de março de 2019 | 05h00

Na contramão do que se esperava depois das eleições, o governo do presidente Jair Bolsonaro foi obrigado a anunciar uma queda da previsão de crescimento da economia em 2019. A estimativa caiu de 2,5% para 2,2%.

O tombo poderia ter sido ainda pior, a considerar o cenário de incertezas que novamente rondam a economia com as sucessivas crises políticas.

Elas se acumularam em profusão e ganharam novos contornos com a briga do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e a família Bolsonaro; a prisão do ex-presidente Michel Temer; e o acirramento nas redes sociais do embate entre os três Poderes em torno da continuação das investigações da Lava Jato, que bate às portas de integrantes do Judiciário.

Uma das consequências do ritmo mais lento da economia já foi o corte de R$ 30 bilhões do Orçamento. Com toda certeza, o corte vai alimentar insatisfações e pressão por recursos na Esplanada dos Ministérios. 

A máquina do governo vai ficar com R$ 90 bilhões até o fim do ano para gastar, volume considerado quase um “shutdown” (paralisação). Vai ser uma guerra geral por recursos.

A briga começa na próxima semana até que o corte seja “repartido” entre os diversos ministérios e órgãos de governo. O time do “me deixa fora disso” já entrou em campo. É provável que o governo deixe as emendas parlamentares de fora do corte. Os aliados cobram recursos e cargos para apoiar a reforma e o presidente deve ceder à pressão do ministro da Casa Civil, Onxy Lorenzoni, pela preservação das emendas.

A decisão será do presidente Jair Bolsonaro. Nos últimos anos, as emendas parlamentares sofriam com o corte na mesma proporção do tamanho do bloqueio de recursos. Agora, devem ser preservados em prejuízo de outras áreas.

Os técnicos da área econômica avisaram que a máquina não aguenta esse aperto orçamentário depois de julho. O cenário precisa melhorar para garantir mais arrecadação ou se instala também uma crise.

Mas o que se vê até agora é “o pau comendo”, nas palavras do próprio ministro da Economia. Nos bastidores, Paulo Guedes age como bombeiro para preservar a articulação política da reforma da Previdência.

O desgaste político, alimentado pelos tuítes de Carlos Bolsonaro (o filho número 2 do presidente), no entanto, colocou a reforma da Previdência bem no meio do campo de batalha das redes sociais.

A essa altura do ano era para o presidente Jair Bolsonaro e seus aliados, inclusive os seus três filhos, estarem reforçando a comunicação para a aprovação da reforma.

O ambiente em torno da reforma, que já estava ruim, só piorou com a ameaça de Maia de deixar a articulação. A troca de farpas ganhou temperos de briga passional com o ataque midiático nas redes a Maia, patrocinado pelos apoiadores de Bolsonaro.

A articulação da reforma já tinha perdido pontos com o envio do projeto de lei do sistema de proteção social dos militares que, a contragosto da equipe econômica, foi acompanhado de uma reestruturação de carreira, com aumento de salários e gratificações, que vão custar R$ 86,85 bilhões em dez anos. É bom lembrar que a reforma nas regras garantirão uma receita R$ 97,3 bilhões e uma economia ao final de R$ 10, 4 bilhões no período.

O projeto foi classificado de “abacaxi” pelo líder do PSL, deputado delegado Waldir (GO), para a articulação política da reforma. 

Como explicar para a população que o “sacrifício” da reforma dos militares virá com aumento de salários? Os R$ 10,4 bilhões de economia da reforma dos militares não passam nem perto do esforço que está sendo cobrado dos mais pobres com a mudança no benefício de assistência social para os mais idosos (BPC) e no abono salarial.

A previsão de economia é de R$ 182,2 bilhões com esses dois itens da reforma. Os brasileiros mais desassistidos vão contribuir 18 vezes mais com a reforma dos que os militares. Não tem como os projetos dos militares não atrapalhar a tramitação da reforma, que continua suspensa.

O governo precisa virar essa página e partir para uma agenda positiva de crescimento da economia. 

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