DIDA SAMPAIO/ESTADAO
DIDA SAMPAIO/ESTADAO
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O pedido de desculpas

Enquanto a Odebrecht divulgou pedido de desculpas, deputados dilaceraram as Dez Medidas contra corrupção

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2016 | 05h00

A Odebrecht, maior empreiteira do País, reconheceu que corrompeu e participou da vasta máquina de corrupção que vigorou no Brasil. Também pediu desculpas públicas pelo comportamento viciado e se comprometeu a nunca mais tolerar práticas desse tipo nos seus negócios.

Repetiu o que também a empreiteira Andrade Gutierrez já havia feito e deverá ser seguido por outras empresas, dentro dos procedimentos jurídicos que envolvem acordos de leniência.

E, no entanto, os políticos envolvidos em corrupção e outras maracutaias seguem olimpicamente, como se nada tivesse acontecido. Ignoram quanto se lambuzaram no melado, não reconhecem o vício praticado, não entendem que esses desvios de conduta atropelam as leis e a sociedade.

A função dos políticos é insubstituível e deve ser sempre prestigiada. O problema é que nem sempre correspondem ao que deles se espera. No momento, no Brasil, se dedicam a arrancar anistias e a garantir condições para seguirem no que já vinham fazendo. No Congresso, a prioridade demonstrada por eles não é virar uma página negra e começar vida nova; é baixar leis para manter agachados juízes, promotores e investigadores.

Nos três últimos governos, por exemplo, o PT teceu e comandou ampla rede de corrupção e de desmandos administrativos. No entanto, ainda que instado pela militância, o presidente Rui Falcão vem repetindo que o PT “não tem de pedir desculpas”. Não se acha responsável por nada, nem pelos graves erros de política econômica nem pela roubalheira de recursos públicos que se espalhou pelo País. Se o Diretório Nacional entender que precisa corrigir certos rumos, nem por isso deveria satisfações à sociedade pelos desvios que eventualmente passaram a pedir correções.

Na última quarta-feira, a Câmara dos Deputados dilacerou o projeto das Dez Medidas contra a Corrupção que havia sido encaminhado ao Congresso com o aval de mais de 2,3 milhões de assinaturas. O objetivo da operação foi não só intimar e enfraquecer o Ministério Público e o Judiciário, mas, também, deixar a porta aberta para as mesmas práticas de patrimonialismo e corrupção.

“Estupefato” com o acontecido, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou que as deformações decididas pelos deputados “dizimaram o projeto”. Foi pior que isso. A dizimação foi a mais severa punição aplicável no exército romano, tão severa que foi raramente adotada. Quando um batalhão (coorte) se amotinava ou se acovardava na batalha, dez por cento dos seus membros (daí o termo latino dizimatio) eram escolhidos por sorteio e, em seguida, estrangulados ou apedrejados até a morte pelos demais. A deformação a que foi submetido o projeto das Dez Medidas pelos deputados alcançou quase todas as propostas e não apenas dez por cento delas.

O presidente Temer mencionou a voz do povo quando tratou de remover o projeto de blindagem explícita dos políticos à ação da Operação Lava Jato, mas a escuta apenas seletivamente. A indignação das massas não tem como causa apenas as más condições da economia. Está sendo insuflada também pelo cinismo dos políticos que continuam manipulando o patrimônio público de acordo com seus interesses, também surdos ao ronco das ruas.

CONFIRA:

Duplo mandato

A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou dia 29 projeto de lei que prevê duplo mandato para o Banco Central. A ideia é de que a política de juros olhe também para o emprego e não apenas para o controle da inflação, como é hoje. Em termos práticos, a mudança só faria sentido se, além da meta de inflação, o Banco Central fosse obrigado a cumprir também meta de emprego. 

 

Controle da inflação

Embora a lei americana preveja esse duplo mandato, não é verdade que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) trabalhe com meta de emprego. A meta de inflação (definida informalmente) é de 2% ao ano. Na prática, a boa situação do emprego é consequência da inflação sob controle. No fim dos anos 70, por exemplo, o então presidente do Fed, Paul Volcker, puxou os juros para acima dos 20% ao ano para controlar a inflação e não tratou do aumento do emprego. E venceu a crise.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.