finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

O pequeno e discreto império de Diogo Gadelha

Lojista e segundo maior acionista do Iguatemi, ele hoje tem cotas cobiçadas, avaliadas em R$ 100 milhões

Patrícia Cançado, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

Quem freqüenta o shopping Iguatemi já deve ter notado uma cena que se repete há anos, todas as tardes: um senhor com bengala apoiada nas mãos, sentado num dos bancos de corredor em frente à loja Center Sport. Embora pareça, o cearense Diogo Queiroz Gadelha, de 82 anos, não é um aposentado que gasta suas horas vendo o ir-e-vir do público abonado do lugar. Também não é pai do dono da loja e muito menos cliente assíduo da Louis Vuitton, Burberry ou Salvatore Ferragamo, grifes vizinhas ao seu banquinho. Gadelha, um anônimo para a maioria das 50 mil pessoas que passam por ali todos os dias, é o maior acionista do Iguatemi, depois do também cearense (porém famoso) empresário Carlos Jereissati. Além da tal loja de esportes, ele é dono de 11% das ações do shopping. Nos últimos meses, Gadelha tem sido assediado por fundos de investimento e, principalmente, pela família Jereissati para vender sua parte. A reportagem do Estado flagrou uma dessas tentativas de compra, em que um corretor fazia oferta de R$ 124 milhões pelas ações, no corredor do Iguatemi. O comerciante não fez o negócio. E o corretor, que dizia representar um grupo de investidores, saiu inconformado. "Eu não vendi e não vou vender para ninguém", diz, enfático. "Eu não preciso do dinheiro." No mercado, no entanto, circulam rumores de que ele não vai demorar muito para ceder à pressão de Jereissati . No ano passado, ele vendeu uma pequena parte de suas cotas à companhia controlada pelo empresário, a Iguatemi Empresa de Shopping Centers, que tem ações em bolsa e participação em 11 shoppings no País (incluindo o Iguatemi São Paulo).Em outros tempos, as cotas de Queiroz não valeriam essa montanha de dinheiro - é como se ele ganhasse no mínimo cinco vezes na Mega-Sena acumulada. Agora, o setor de shopping center vive dias de euforia, com ofertas milionárias e, por vezes, até irracionais, em que vale (quase) tudo para engordar o número de metros quadrados de "área bruta locável" do portfólio das empresas. Para Jereissati, a compra é importante porque o coloca muito perto do controle do shopping - o empresário entrou no ramo em 1979, treze anos depois da inauguração do Iguatemi e até a última sexta-feira tinha 39% do negócio. "O Iguatemi representa 20% do faturamento da empresa, mas, no fundo, o grupo já controla o shopping. A compra só lhe daria mais conforto", acredita o analista da Corretora Itaú, Tomas Awad.Para outros grupos, é a chance de entrar no shopping mais antigo do País, que tem o metro quadrado de aluguel mais caro da América Latina e movimenta mais de R$ 1 bilhão por ano. "Aquilo é uma máquina de fazer dinheiro", completa Awad.VISÃO OU SORTE?Gadelha construiu um pequeno império em silêncio. Na década de 70, quando o Iguatemi era considerado um grande mico comercial em São Paulo (a Augusta era a rua famosa), esse cearense passou mais de dez anos comprando cotas todos os meses. Ele diz que diminuiu o ritmo só nos tempos de hiperinflação dos anos 80."O Diogo nem precisava procurar muito. O pessoal sabia que ele comprava bastante", diz o dono da rede Brooksfield, Carlos Antunes, que o conhece há 32 anos. "Não sei se o Diogo foi um visionário ou teve sorte. Há dois anos, ninguém podia imaginar esse cenário no setor."Na época da inauguração, em 1966, o Iguatemi tinha mais de 10 mil cotistas. Dava para contar nos dedos das mãos o número de ações de cada um. As primeiras 30 cotas de Gadelha, pagas em 20 parcelas, foram adquiridas diretamente da construtora do shopping. "Eu fui me entusiasmando e comprando barato, porque muita gente foi desistindo", diz o comerciante."As cotas saíam quase de graça. E o Diogo ficou conhecido como o comprador de cotas do Iguatemi. Ele ficava sentando naquele mesmo banquinho em frente à loja, só negociando cotas", lembra Waldemar Tobias, representante comercial há 50 anos. "Todo mundo sabia. Quando alguém queria vender cota, ia direto falar com ele." Gadelha virou acionista do shopping antes mesmo de ser lojista (o que só foi ocorrer em março de 1968, dois anos depois da inauguração). Antes da Center Sport, ele tinha uma tabacaria no centro de São Paulo. No começo, chegou a vender fumo e bola de futebol no mesmo lugar. "Eu fui até a loja de esportes porque queria comprar as cotas do dono. Fiquei uns meses indo lá, mas ele pensava que eu estava indo atrás da loja."Se não estava interessado no começo, acabou gostando do que viu. No fim das contas, ele não só levou as cotas, como também a loja, que na época chamava Multi Sport e tinha a metade do tamanho atual. O comerciante poderia ter construído uma rede de lojas de material esportivo nos outros shoppings da cidade, como fizeram os seus pares. Não quis. Nesses últimos 40 anos, o máximo que fez no seu ponto foi dobrar o tamanho e uma ou outra reforma. Por comodismo ou por acreditar, de fato, na sua aposta, ele ficou quieto no Iguatemi, trabalhando até 14 horas por dia e reinvestindo quase todo o lucro na compra sistemática de cotas. "A loja ficava tão cheia que eu tinha de pagar para o fiscal deixar ela aberta até mais tarde. Teve uma época que só tinha uma loja de esportes no Iguatemi." Hoje, ele tem pelo menos três concorrentes. Na vida pessoal, Gadelha também é um sujeito que não gosta de sair de casa. "O lugar mais longe que eu fui até hoje foi o Ceará. Eu só saí do Brasil duas vezes. E para Buenos Aires, de navio." Nos fins de semana, sua maior aventura é passar algumas horas com os amigos da "máfia", no Clube Pinheiros, vizinho à sua segunda casa, o Iguatemi. A tal máfia é um grupo de amigos que se encontra há mais de uma década para jogar boliche.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.