O perigo de não decidir

Governar é administrar problemas. A definição de crise é um problema que se torna agudo. Juscelino costumava dizer que no gabinete do presidente não entram as questões resolvidas, só problema. Não sou tão pessimista. Ali também se toma café e ouve boas histórias.Eu, como queria Trotsky para o socialismo, vivi uma crise permanente ou, como batizou João Sayad, "a estabilidade da instabilidade". Minha experiência expressa assim o sentimento do stress constante. Iniciei meu governo sob os efeitos e rescaldos de três grandes crises: a do petróleo, com a elevação disparada do seu preço entre 1973 e 1979; a fiscal, com o fim do modelo de subsídios e incentivos à indústria e às exportações, e a terceira, a maior de todas, que transcendia a nossa decisão, a da dívida externa, que explodira como impagável para a América Latina, na moratória mexicana, quando o estouro geral obrigou a nacionalização de todo o sistema bancário do país.Somem-se a essas a inflação crônica, com seu componente insolúvel da correção monetária vinculada a preços, salários e contratos. O mundo era outro, não existia a globalização financeira de nosso tempo e a Lei de Informática brasileira atrasava o país, como atrasou por muito tempo.Para administrar qualquer crise, mesmo em seu estado paroxístico, como acontece na área financeira em alguns momentos a necessitar intervenções cirúrgicas, duas coisas são necessárias: prudência e coragem. Podem parecer condutas e qualidades opostas, mas não são. A coragem do homem público sem prudência é bravata, e a prudência sem a coragem de tomar a decisão ponderada, com a certeza de ser a melhor, é uma fuga acovardada. Viaja-se no fio da navalha, havendo sempre a sedução de "levar com a barriga", protelar, adiar, esperar o tempo resolver, que é o pior e mais desastroso caminho.Nunca decidir sozinho, dono da verdade, sem a humildade de ouvir todos e a paciência de aceitar contestações à nossa vontade. O poder de decidir não é infalível. Está sempre convencido de que pode estar errado.Duas decisões em crises que se tornaram agudas foram dolorosas: o Cruzado Dois e a Moratória. Quanto ao primeiro, segui todas as minhas regras e decidi errado. Até hoje me arrependo dela, depois de ter sofrido seus efeitos. A outra foi uma necessidade sem remédio: não tínhamos dinheiro para pagar a dívida e nossas reservas davam apenas para dois meses de importação. Decretei a moratória. Hoje, com a visão do tempo, mudei meu ponto de vista. Acho que foi certa. Não chegamos ao abismo da Argentina: a bancarrota.Saber que toda decisão tem perigo e enfrentá-lo. O presidente é para isso e por isso. *José Sarney foi presidente da República no período de 1985 a 1990

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