O perigoso triunfalismo do governo

Vão surgindo, aqui e lá fora, e em ritmo cada vez mais intenso, os sinais de que a crise está indo embora. Um resumo dos últimos dados animadores incluiria, por exemplo, o surpreendente resultado da produção industrial anunciado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em julho, a indústria produziu 2,2% mais do que em junho, aumento bem maior do que o esperado.

Jorge J. Okubaro*, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

O crescimento da produção de bens de consumo duráveis, de 2,7%, era até certo ponto previsível, por causa dos fortes estímulos tributários oferecidos pelo governo para a compra de automóveis e de produtos eletrodomésticos da linha branca. Mas cresceu também a produção de bens de capital, numa indicação de que os investimentos produtivos estão começando a voltar. É um sinal de confiança do empresariado no futuro e de crescimento ainda mais intenso quando os investimentos estiverem maduros.

No plano internacional, uma boa notícia vem dos Estados Unidos, onde a crise vinha se armando desde 2006 e de onde ela se espalhou para o resto do mundo depois da quebra do Lehmann Brothers, em 16 de setembro do ano passado. "Os indicadores e as evidências fortaleceram a confiança de que o declínio da atividade econômica está acabando e que o crescimento provavelmente será retomado no segundo semestre", afirmou, em sua linguagem cautelosa, a ata da reunião de agosto da Comissão Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).

Estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne algumas dezenas das principais economias do mundo, por sua vez, concluiu que a economia mundial está saindo de sua pior crise desde o fim da 2ª Guerra Mundial mais depressa do que se previa. "O pior já passou", disse o economista-chefe da OCDE, Jorgen Elmeskov.

Hora de estourar o champanhe? O governo acha que sim. Entre os parâmetros que utilizou para montar o Orçamento de 2010, cuja proposta o presidente Lula enviou ao Congresso na segunda-feira, está a previsão de aumento de 1% do PIB neste ano e de nada menos do que 4,5% no ano que vem. Crise? Que crise?

Inquestionavelmente, esse comportamento triunfalista do governo, que não viu nada de preocupante nos últimos meses nem vê riscos no futuro próximo, é determinado por seu interesse político-eleitoral. O governo só vê e só fala de dias cada vez melhores daqui para a frente porque, quanto melhor estiver o País, mais fácil será conquistar votos para seus candidatos - e, em particular, para sua candidata.

O triunfalismo oficial terá consequências práticas, que poderão ser custosas para os brasileiros. Com base nesses parâmetros, o governo programou gastos recordes em 2010, sobretudo com o custeio da máquina administrativa. Programou também o aumento recorde dos investimentos. Na outra parte do Orçamento, previu o recorde de arrecadação - isto é, da parte da renda que o contribuinte terá de recolher aos cofres públicos. Quanto pior o desempenho da economia em relação ao projetado pelo governo, tanto maior será, proporcionalmente, a conta do contribuinte. É ele que pagará a conta.

Governos costumam errar com frequência em suas previsões, lembrou o professor de economia da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do FMI Kenneth Rogoff, em artigo publicado quinta-feira pelo Estado. "Como podem os governantes estar tão certos de que a catástrofe financeira não se repetirá num futuro próximo quando eles pareciam nem sequer fazer ideia de que uma crise como essa aconteceria em primeiro lugar?", perguntou. Em seguida, advertiu: ainda há o risco de que a crise esteja simplesmente hibernando.

Menosprezar os riscos, para desse modo poder justificar o aumento dos gastos públicos que ajudam a compor uma imagem favorável do governo e, sobretudo, a de sua candidata à sucessão presidencial, é uma atitude perigosa, que pode resultar em custos pesados para os contribuintes.

*Jorge J. Okubaro, jornalista, é autor de O Súdito - Banzai, Massateru! (Editora Terceiro Nome) e coautor de Desvirando a Página - A Vida de Olavo Setubal (Global Editora). E-mail: jorge.okubaro@grupoestado.com.br

O colunista Celso Ming está em férias.

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