Nilton Fukuda/Estadão
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Guy Perelmuter
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O perverso poder das fake news

Uma das faces mais perversas da tecnologia é sua utilização para semear desinformação

Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2021 | 04h00

Nosso sistema de tomada de decisões tem dificuldades para lidar com múltiplas variáveis ao mesmo tempo. Procurar uma vaga em um estacionamento lotado não é exatamente divertido, mas tem uma solução simples: assim que achamos uma vaga, basta estacionar. Mas se nos deparamos com uma situação onde há dezenas de vagas disponíveis, a decisão se torna muito mais difícil. Vacilamos diante de tantas possibilidades. Agora, nosso mundo movido à tecnologia nos oferece dezenas de “vagas” disponíveis, o dia todo. Somos bombardeados com informações e somos pré-condicionados a acreditar em tudo o que passa por nossas telas. Já se foi o tempo em que a notícia era selecionada e comprovada a partir do trabalho de um pequeno número de instituições com alto grau de credibilidade.

Como podemos distinguir notícias reais de notícias falsas? Redes organizadas de desinformação poluem o espaço virtual com fofocas, intrigas, teorias da conspiração e os chamados deep fakes (imagens ou vídeos nos quais uma pessoa é substituída por outra, geralmente sem seu consentimento). Seu objetivo é semear o caos, o medo, a dúvida e a incerteza e impedir-nos de analisar os fatos de uma história e seus desdobramentos. As mesmas ferramentas que nos informam também nos desinformam; aqueles que nos apresentam fatos também nos enganam com rumores. Precisaremos de mais tecnologia para resolver esse problema, e essa solução será seguida de mais tecnologia para gerar mais desinformação em um ciclo semelhante à dinâmica entre guardiões de uma fortaleza e invasores em potencial.

Em um artigo de 2018 assinado por pesquisadores do MIT, intitulado The Spread of True and False News Online (algo como “A Difusão de Notícias Verdadeiras e Falsas na Internet”), o comportamento dos usuários do Twitter em relação a um conjunto de 126.000 notícias, verificadas entre 2006 e 2017, foi analisado. A verdade raramente alcançou mais de 1.000 pessoas, enquanto algumas histórias falsas - especialmente notícias políticas - chegaram a mais de 10.000 leitores. É fato que a mentira se espalha mais rápido do que a verdade: neste estudo, por um fator de seis. Em outras palavras, as histórias verdadeiras demoravam seis vezes mais para atingir o mesmo número de usuários do que as temidas fake news. Não por causa de bots mas por culpa dos seres humanos.

O excesso de dados gerados por tudo e por todos tem outro aspecto negativo: é possível construir argumentos sobre praticamente qualquer assunto e montar um conjunto de dados que, à primeira vista, suporta sua tese. Esse fenômeno é tão complexo que mesmo pesquisadores altamente qualificados acabam sendo vítimas dele. Em um artigo de 2005 publicado na Public Library of Science Medicine (PLoS Medicine) pelo médico e pesquisador grego-americano John Ioannidis, intitulado Why Most Published Research Findings Are False (“Por que a maioria das descobertas publicadas é falsa”), o argumento apresentado menciona como os testes estatísticos estão sendo usados para validar afirmações que deveriam ser questionadas.

Essa questão fundamental - notícias falsas contra a verdade, desinformação contra a realidade, fake news contra fatos - só pode ser tratada por uma análise meticulosa dos mecanismos que permeiam todo o processo: o nascimento de uma mentira, sua propagação entre os usuários em uma ou várias redes sociais, os algoritmos gerenciados por essas mesmas redes sociais que servem a seus usuários com desinformação, e o comportamento que torna as pessoas muito mais propensas a espalhar uma falsidade do que uma declaração verdadeira. Essa dificuldade, na própria interseção de negócios, ciência e tecnologia, é um dos nossos principais desafios para o futuro como sociedade, e seguirá como tema de nossa próxima coluna. Até lá.

*FUNDADOR DA GRIDS CAPITAL E AUTOR DO LIVRO "FUTURO PRESENTE - O MUNDO MOVIDO À TECNOLOGIA", VENCEDOR DO PRÊMIO JABUTI 2020 NA CATEGORIA CIÊNCIAS. É ENGENHEIRO DE COMPUTAÇÃO E MESTRE EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

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