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Fernanda Camargo: O insustentável custo de investir desconhecendo fatores ambientais

O petróleo afunda

Já há consultores apontando para preços de US$ 15 por barril de 159 litros

O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2015 | 03h00

Já há consultores apontando para preços de US$ 15 por barril de 159 litros, como esta Coluna apontou na quarta-feira. No caso, foi o que disse na semana passada o especialista norte-americano em Petróleo David Kotok, presidente da Cumberland Advisers, que expôs seus pontos de vista à TV Bloomberg.

Parece chute, embora na direção do gol, porque os preços continuam mergulhando e ninguém se atreve a atestar a fundura desse poço.

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Na semana que passou, os mercados fecharam com o West Texas Intermediate (WTI) o tipo de referência negociado em Nova York a US$ 40,45, 4,8% abaixo da cotação do fechamento da semana anterior, o menor nível desde fevereiro de 2009. O tipo Brent, negociado em Londres, deslizou para US$ 45,46 por barril, 7,6% abaixo. Apenas para comparar, há pouco menos de quatro meses, as cotações do Brent estavam a US$ 69 por barril. 

Cinco são as forças baixistas: (1) a economia mundial, especialmente a da China, continua fraquejando e isso aponta para menos consumo de energia e de combustíveis do que o previsto anteriormente; (2) mais petróleo do bloco da Opep está sendo despejado no mercado, cerca de 1,5 milhão de barris por dia, como atestou seu último relatório; (3) a suspensão do bloqueio comercial que se seguirá ao acordo nuclear dos Estados Unidos com o Irã permitirá aumento de 2 milhões a 3 milhões de barris diários sobre os 2,8 milhões de petróleo iraniano hoje produzidos; (4) os custos de produção baixaram substancialmente porque a demanda por equipamentos caiu e derrubou seus preços; e (5) grandes exportadores tendem a compensar com mais produção a quebra de receitas em consequência do tombo dos preços, contribuindo para afundar o mercado.

Não há previsões seguras sobre o que se seguirá nem a curto nem a médio prazos, porque nenhuma potência ou bloco está em condições de controlar o mercado, como há alguns anos a Opep estava. Estados Unidos e Rússia são apenas dois grandes produtores que aumentaram a oferta. Por toda parte onde as condições geológicas são favoráveis, vêm aumentando a prospecção e a produção. E há o forte aumento dos investimentos em energia renovável, como a nuclear, a eólica, a solar e a de biomassa, que também passou a ocupar o espaço do petróleo, desta vez para atender a metas de controle da poluição ambiental.

Um dos efeitos que se esperam no mundo a partir da queda ou até mesmo da manutenção dos preços baixos é certo nível de deflação. Seus traços já são visíveis a partir da baixa das demais commodities, e podem se acentuar se o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) começar ainda este ano, como muitos esperam, a puxar pelos juros, fator que, por sua vez, valorizará o dólar.

A derrubada dos preços já produziu estragos importantes no Brasil, na medida em que os royalties do petróleo (R$ 18,53 bilhões em 2014), pagos à União, Estados e municípios, são calculados a partir das cotações do Brent. E devem produzir ainda mais se a baixa continuar.

Se isso se confirmar, luzes amarelas se acenderão automaticamente por outras razões: porque o custo de produção no pré-sal oscila em torno dos US$ 40 por barril e certos cronogramas de investimento podem ser inviabilizados.

A Petrobrás tem alguma margem de ajuste às novas condições. Poderia, por exemplo, diminuir o ritmo da produção interna e importar petróleo e derivados a preços mais baixos - ainda que essa tática derrube o fato gerador dos royalties. Mas as condições de produção poderão se deteriorar. E não se pode deixar de mencionar que a derrubada dos preços do petróleo soterra a competitividade do etanol brasileiro. 

Ao contrário de David Kotok, citado no início da Coluna, a maioria dos consultores aposta em que os preços baixos acabarão por aumentar o consumo global e, portanto, por acionar a recuperação das cotações. Mas nem essa gente nem ninguém passa firmeza quando se atreve a apontar uma data provável para a virada ou a intensidade em que poderá acontecer.

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