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José Roberto Mendonça de Barros
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O PIB visto da Faria Lima

Pujança vista dessa avenida paulista não se repete no resto da cidade e do País

José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2019 | 05h00
Atualizado 12 de agosto de 2019 | 09h01

Correções: 12/08/2019 | 09h01

Vistas da Avenida Faria Lima, as coisas vão bastante bem. Existem muitas razões para isso. A primeira delas resulta da importante queda da taxa Selic nos últimos meses, que está levando uma boa parte das pessoas a mudarem a estrutura de suas aplicações financeiras, saindo da renda fixa e buscando retornos maiores em aplicações de riscos mais elevados, sejam ações ou fundos lastreados em títulos de crédito (que pagam juros maiores).

Isso está levando a indústria financeira a correr atrás desse tipo de papel. Novos fundos de crédito, uma intensa busca por papéis incentivados, como debêntures de infraestrutura, fundos imobiliários, títulos de crédito do agronegócio e outros. Um grande número de novos gestores se lançou no mercado, ampliando a competição e a disputa por aplicadores. 

Ademais, criou-se um amplo mercado para a abertura ou o aumento de capital das empresas que ainda vai continuar bombando neste ano. O levantamento das operações concluídas até aqui mostra uma captação superior a R$ 55 bilhões, cinco vezes maior do que todo o ano passado.

Ao lado desses movimentos, mas não menos importante, observamos uma intensa atividade nas áreas de reestruturação, fusões e aquisições de empresas, negócios que geram muito trabalho e comissões para bancos e butiques de investimentos. Essas operações decorrem tanto da entrada de novas empresas no Brasil quanto do enfraquecimento das companhias, que discutimos tantas vezes neste espaço, e que conduzem a pedidos de recuperações judiciais. 

No caderno de negócios do Estado, Ricardo Knoepfelmacher, veterano de dezenas de reestruturações, afirmou nesta semana que ainda restam centenas de companhias para se ajustar, empresas que no passado se endividaram “se preparando para um país que não aconteceu”. 

Com tantos negócios, novos tratos e muitos distratos, é natural que os grandes escritórios de advocacia da Faria Lima também tenham bastante trabalho nas áreas de contencioso, comercial, tributária e outras, inclusive arbitragens. Não surpreende que as autoridades do Ministério da Economia façam tanto sucesso em eventos do mercado financeiro.

Em terceiro lugar, nessa região, o mundo das startups, incubadoras e escritórios de coworking não para de se desenvolver. Estima-se que hoje, em São Paulo, algo como 60 mil pessoas atuem nessas atividades. O volume de captações financeiras não para de crescer, como evidenciou o exemplo da entrada do Softbank no capital do Banco Inter.

Finalmente, e sem surpresa, o mercado imobiliário renasceu na região. A disponibilidade de áreas comerciais para locação reduziu-se muito e inúmeros prédios residenciais estão sendo lançados na Avenida Rebouças, Rua dos Pinheiros e adjacências. 

O PIB visto da Faria Lima exala pujança. E o que ocorre nas outras áreas da cidade? 

A animação acima descrita não se repete no ABC Paulista, no Largo da Concórdia, no Largo do Socorro e no centro da cidade. 

Antes de tudo porque o mercado de trabalho segue muito mal: é enorme o contingente de desempregados, de desanimados e daqueles que trabalham apenas parte do tempo porque não acham emprego em tempo integral. Para o Brasil como um todo, esse contingente é da ordem de 25 milhões de pessoas. 

Da mesma forma, inúmeras empresas seguem estagnadas, lutando para sobreviver. Como nos últimos dez anos, as companhias que entram em recuperação judicial dificilmente saem saudáveis. A maioria segue definhando. Na minha avaliação, nossa experiência com esse instituto não logrou, até agora, grandes resultados.

Com a maioria dos Estados, e boa parte das prefeituras, em situação quase falimentar, observamos atrasos de salários e de outros pagamentos, gerando bastante incerteza entre funcionários e fornecedores. 

Além disso, o volume de investimentos públicos não para de se reduzir, inclusive no governo federal. É o menor em muitas décadas e, com o atraso dos programas de concessão e privatização, não há a substituição por investimento privado.

Finalmente, o discurso que emana do Palácio do Planalto, embora tenha método como apontam muitos analistas, é bastante insensato e gera uma grande insegurança, tornando mais difíceis as decisões de novos projetos. 

Como a Faria Lima é bem menor que o remanescente da cidade e do País, o crescimento deste ano seguirá medíocre. 

Nossa recuperação vai seguir desigual e lenta, muito lenta. 

*ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

Correções
12/08/2019 | 09h01

O Softbank não investiu no Nubank, como publicado anteriormente, mas no Banco Inter.

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