TIMOTHY A. CLARY/AFP
TIMOTHY A. CLARY/AFP

O Picasso de US$ 179 milhões que explica a desigualdade global

O número de pessoas com a disposição e recursos para comprar arte de ponta está aumentando graças à distribuição da riqueza 

Neil Irwin, The New York Times

14 Maio 2015 | 17h11

Ainda não sabemos quem concordou em pagar US$ 179,4 milhões por um Picasso num leilão realizado na noite de segunda-feira - nem de onde veio o dinheiro, nem os motivos que levaram o(s) comprador(es) a gastar mais do que qualquer outra pessoa numa única obra de arte. Mas uma coisa é sabida: a alta astronômica nos preços das obras de arte mais procuradas é em parte a história da crescente desigualdade global.

Em seu núcleo, trata-se da mais elementar matemática econômica. A oferta de pinturas de Picasso ou esculturas de Giacometti (uma delas foi arrematada por US$ 141 milhões no mesmo leilão essa semana) é fixa. Mas o número de pessoas com a disposição e os recursos para comprar arte de ponta está aumentando, graças à distribuição da riqueza extrema.

Uma das descobertas mais importantes dos principais economistas que estudam a desigualdade diz que a riqueza e a renda no topo da pirâmide são "fractais". Com isso eles querem dizer que, quando analisamos de perto a fatia mais alta da distribuição de renda, os padrões se repetem numa escala cada vez mais profunda e detalhada.


Os sócios de escritórios de advocacia que fazem parte do 1% superior da distribuição de renda observaram um aumento em seus ganhos mais acentuado do que aquele recebido pelos dentistas que pertencem aos 10% mais bem pagos. Mas uma margem semelhante de diretores executivos de grandes empresas que fazem parte do 0,1% mais rico veem sua renda aumentar ainda mais rápido que os sócios de escritórios de advocacia. Os diretores de fundos de hedge no 0,01% mais rico também obtêm desempenho superior ao dos diretores executivos.

E o tipo de pessoa que pode se dar o luxo de pagar mais de uma centena de milhões de dólares por um Picasso, digamos os pertencentes ao 0,001 mais rico, conseguem desempenho ainda melhor que isso. Podemos chegar a essa conclusão ao ler a obra dos economistas franceses Thomas Piketty e Emmanuel Saez. Ou ao observar atentamente o mercado das obras de um determinado pintor espanhol.

Vamos supor brevemente que ninguém gastaria mais de 1% de toda a sua renda num único quadro. De acordo com esse raciocínio, o comprador de Les Femmes d'Alger (Version O) teria uma riqueza pessoal de no mínimo US$ 17,9 bilhões. Isso implicaria que, de acordo com a lista de bilionários da Forbes, só poderia haver 50 pessoas em todo o mundo capazes de comprar o quadro.

Este é apenas um exercício ilustrativo, não literal. Algumas pessoas estão dispostas a gastar mais que 1% de sua riqueza num quadro; o magnata dos cassinos Steve Wynn disse à Bloomberg que ofereceu US$ 125 milhões pelo Picasso esta semana, o que corresponde a 3,7% de sua fortuna. A lista da Forbes pode conter imprecisões, ou talvez alguma família ultrarrica tenha conseguido ocultar suas posses.

Mas essa métrica simples mostra o quanto o conjunto de potenciais compradores de arte megaendinheirados cresceu desde a última vez que esse mesmo Picasso foi levado a leilão, em 1997, por exemplo. Depois de ajustar os valores pela inflação e aplicando nossa premissa do 1% da fortuna pessoal, uma pessoa precisaria de uma fortuna de US$ 12,3 bilhões em dólares de 1997 para poder comprar o quadro. Se consultarmos a lista da Forbes daquele ano, vemos que apenas doze famílias se enquadravam nesse perfil.

Em outras palavras, o número de pessoas que, de acordo com essa métrica, seriam capazes de pagar facilmente US$ 179 milhões por um Picasso aumentou mais de quatro vezes desde a última vez que o quadro foi a leilão. Isso ajuda a explicar o preço pelo qual a pintura foi vendida em 1997: meros US$ 31,9 milhões, que seriam US$ 46,7 milhões depois de ajustados pela inflação. Simplesmente havia menos pessoas na estratosfera da riqueza que pudessem dar lances até trazer o preço ao nível de 2015.

O aumento no número de pessoas dando lances por um artigo de oferta relativamente fixa só pode fazer o preço subir. Na segunda feira, o leilão envolveu o melhor da arte. Mas a mesma dinâmica se aplica aos melhores imóveis no centro de Londres ou com vista para o Central Park, ou às garrafas do Bordeaux 1982.

Isso ajuda a explicar por que a recente venda do Picasso representou uma valorização de 462% em relação ao leilão anterior, de 1997, intervalo durante o qual o índice Standard & Poor's 500 teve retorno de 215%, incluindo dividendos reinvestidos (a comparação não é totalmente adequada, pois o quadro exigiu gastos anuais com segurança, armazenamento e seguro, diminuindo o retorno; por outro lado, o Picasso fica melhor na sala de alguém do que no portfólio de um fundo de investimento).

O que isso significa para o futuro? Não existe almoço grátis, nem mesmo para quem paga milhões de dólares numa tela pintada. O preço da arte é vulnerável aos modismos. Os Picassos podem se tornar menos procurados, relativamente, nos próximos anos, e nesse caso o comprador anônimo dessa semana pode não obter o mesmo tipo de retorno financeiro excepcional obtido pelo comprador anterior.

Há riscos jurídicos. O governo chinês já está investigando a corrupção entre funcionários do governo e especialmente as demonstrações de riqueza, o que pode sufocar a demanda por arte na China nos próximos anos. Autoridades americanas e europeias também podem se esforçar mais no sentido de impedir que transações do mercado da arte sejam usadas para lavar dinheiro e sonegar impostos, como o economista Nouriel Roubini disse ser comum.

Mas qualquer bilionário que gaste somas astronômicas por um quadro ou escultura deve torcer principalmente para que a tendência global básica à desigualdade - que faz com que a riqueza dos ultrarricos aumente mais rápido que a economia como um todo e a riqueza da população mundial - seja mantida. Enquanto ela permanecer intacta, sempre haverá outro comprador em potencial capaz de dar início a uma guerra de ofertas como a que foi vista essa semana. (Tradução de Augusto Calil)

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