O pior no Brasil já passou

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) está pessimista com o crescimento das principais economias mundiais que integram a organização, e mais otimista com o Brasil.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2012 | 02h11

Este ano, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve ficar em 1,5%, bem abaixo da média mundial de 2,9%, mas acredita que no próximo ano pode chegar a 4% por causa das medidas de estímulos fiscais e monetários anunciadas pelo governo.

Muito mais, porém, terá de ser feito para atenuar o cenário depressivo da economia mundial. Um cenário que, prevê a OCDE, deve durar dois anos e somente será atenuado se os governos e os bancos centrais agirem imediatamente. O apelo da OCDE é para mais liquidez - só os bancos europeus vão precisar de US$ 500 bilhões.

Por que essa diferença de visão entre o Brasil e o mundo? Para a organização, o governo já começou a agir e a economia não sofre os mesmos efeitos negativos do desemprego elevado e crescente dos outros países. Mas o governo deve persistir, ir mais adiante, porque a economia não deixará se ser afetada pelo clima depressivo mundial.

O que falta? A OCDE não vai mais adiante em sua análise, mas aponta a falta de investimento aqui e lá fora. O governo deu os primeiros passos para incentivá-lo, mas os resultados ainda demorarão para vir. Como os investimentos privados não reagem, os do governo caminham lentamente. Todas as previsões , do mercado, da OCDE, se baseiam no contínuo crescimento atual do consumo interno, e não no aumento da produção industrial. É uma saída, mas não uma solução sustentável a médio prazo. Mas podemos confiar nela pelo menos por mais um ano? Dados divulgados pelo IBGE e do mercado dizem que sim, mas com distorções porque a renda média dos assalariados continua crescendo - não pela produção industrial e sim pelas importações. Um fato que não é novo, mas vem se agravando de forma impressionante, como assinalou o Instituto de Estudos e Desenvolvimento Industrial, nesta semana. É de tal forma significativo que e merece destaque especial da coluna. É um desafio que está longe de ter sido enfrentado, apesar da nova taxa de câmbio. As vendas do varejo, diz o estudo, cresceram 8,9% em termos reais nos três primeiros trimestres deste ano sobre igual período do ano passado. Esta é uma indicação de que está em curso uma aceleração do nível de atividade do setor no corrente ano. Os dados são referentes ao "comércio restrito" de bens, não englobando o comércio de automóveis, autopeças e de material de construção. Considerando o "varejo ampliado", que inclui essas atividades, o avanço no ano é inferior, mas, mesmo assim, muito expressivo: 7,8%.

Ainda que o desempenho do último trimestre venha a ser mais fraco, o resultado deste ano será excepcional porque se dá em um contexto de aumento de apenas 1,5% do PIB e de um impulso modesto do crédito ao consumidor se comparado aos anos anteriores.

A análise dos segmentos que mais vêm se destacando é reveladora das atuais tendências de consumo. A elevação de vendas no acumulado do ano em "equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação" (+13,5%) e em "móveis e eletrodomésticos" (+13,1%) corresponde à diversificação do consumo por parte das dezenas de milhões de novos consumidores que ingressaram no mercado consumidor desde 2005. Inovações de produtos nesses setores e incentivos tributários, como a redução de IPI na compra de móveis e de bens duráveis da chamada linha branca, concorreram para renovar e intensificar as vendas.

Indústria não. Há um contraste muito acentuado entre os índices do varejo e os da indústria, diz o Iedi, citando o IBGE. A industria brasileira continua sendo incapaz de atender ao mercado interno, cedendo espaço ao produto importado a despeito da taxa de câmbio mais favorável.

Por quê? Isso refle o tempo necessário para que várias políticas já adotadas tenham efeito para reduzir o custo industrial e reposicionar a competitividade da indústria. Em 2011, os dados de variação do varejo e da produção industrial foram de: 6,7% e 6,6%, respectivamente, e de 0,4% e -0,5%, para a indústria geral e indústria de bens de consumo. Em 2012, até setembro, o varejo evoluiu 8,9% e 7,8%, enquanto a produção industrial caiu 3,4% e 2% (indústria geral e de bens de consumo). Ou seja, o desafio de aumentar a produção industrial e atender à expansão da demanda interna , não só está aí, mas vai demorar ainda para ser superado.

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