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O piso da inflação

É quase unânime a opinião dos analistas que a inflação ficará abaixo da meta do BC

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2019 | 04h00

A expectativa de inflação deste ano vem caindo a uma velocidade impressionante nas últimas semanas, colocando a mediana das projeções do IPCA bem abaixo da meta oficial de inflação em 2019, de 4,25%.

Mas ainda há uma dispersão considerável dessas estimativas, o que mostra um grau elevado de incertezas em relação a algumas variáveis para a inflação deste ano. Há desde quem prevê uma alta de apenas 3,3% do IPCA neste ano, no caso da Itaú Asset Management, até quem projete uma inflação de 4,3% em 2019, como o banco suíço UBS.

Apesar da disparidade nas projeções, é quase unânime a opinião dos analistas que a inflação em 2019 deverá ficar bem abaixo da meta do Banco Central. Na mais recente pesquisa Focus, do BC, a mediana das projeções do IPCA em 2019 caiu de 3,94% para 3,87%. Há quatro semanas, essa expectativa era de uma inflação de 4,02% neste ano.

Na opinião da economista-chefe da Icatu Vanguarda, Ana Flávia Soares dos Santos Oliveira, há três razões para a dispersão das projeções da inflação neste ano: a hipótese sobre preços administrados, a trajetória da inflação de serviços e a hipótese sobre a taxa de câmbio.

“O câmbio é a maior fonte de incerteza, pois se o cenário global permanecer favorável aos emergentes, como nesse início de ano, podemos ver uma apreciação maior do câmbio”, diz Ana Flávia. “Mas vejo essa como a única fonte de pressão desinflacionária mais expressiva.”

Segundo ela, algumas instituições financeiras veem potencial para depreciação do dólar até o nível de R$ 3,30 a R$ 3,40. Ana Flávia projeta uma inflação de 3,9% neste ano. Sobre a variação dos preços administrados, ela diz ser um pouco mais conservadora, pois ainda vê nos próximos meses uma pressão nos preços de energia elétrica.

Já sobre a trajetória da inflação de serviços, Ana Flávia não vê potencial para desinflação adicional nos serviços dado o cenário de aceleração da atividade que é esperado. “A ociosidade no mercado de trabalho ainda é bem alta, o que irá conter a inflação de serviços, mas vejo estabilização em torno de 3,5% desse grupo, e, de fato, os últimos dados de IPCA têm mostrado essa tendência”, diz.

Para o economista-chefe da Novus Capital, Tomás Goulart, a inflação de alimentos no domicílio ainda deverá ficar pressionada em 2019, com esse item subindo 5% no ano. Ele projeta uma inflação de 3,8% neste ano, com um desvio ao redor de 0,50 ponto porcentual da meta de inflação de 2019, o que é um tamanho “considerável”.

“Quanto mais baixa a inflação de 2019 - como a inércia na inflação brasileira é relevante - menor tende a ser a projeção para 2020”, explica Goulart. “Esse ambiente de inflação controlada aliado à aprovação de uma boa reforma da Previdência permitirão que o BC corte a taxa Selic em 1 ponto porcentual após a aprovação da reforma em primeiro turno na Câmara.”

A projeção de inflação em 2019 da Garde Asset Management, de 3,4%, está próxima do piso das estimativas e incorpora um crescimento de 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e um dólar a R$ 3,60 no fim do ano.

“A inflação subjacente (os núcleos) segue numa dinâmica muito favorável”, diz o economista-chefe da Garde, Daniel Weeks. “Isso mesmo com uma pressão pontual que tivemos em serviços, que achamos que deverá retroceder nos próximos meses”, afirma Weeks.

Para Weeks, o bom comportamento dos núcleos de inflação vem de um hiato do produto muito aberto e que fecha num ritmo gradual. Ao revisar sua projeção de inflação em 2019, Weeks também cortou sua estimativa para o IPCA de 2020 de 4,0% para 3,8%, abaixo da meta do BC para o ano que vem, de 4,0%.

É muito provável que a mediana das estimativas de inflação em 2019, na pesquisa Focus, siga caindo nas próximas semanas, diante até das recentes surpresas nas últimas leituras do IPCA. Quão mais baixa será essa mediana? Ficará mais próxima do piso das estimativas da inflação neste ano?

Se o BC vai reagir ou não a essa melhora das expectativas inflacionárias neste ano, puxando para baixo as projeções para 2020, vai depender da aprovação da reforma da Previdência e quão rápida e intensa será a recuperação da economia.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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