O poder atual dos 'Brics' e dos 'Próximos 11'

No caso do Brasil, o crescimento decepcionante em 2011 e 2012 é fruto da chamada 'doença holandesa', à qual o governo já está reagindo

ECONOMISTA, PRESIDENTE DA GOLDMAN SACHS ASSET MANAGEMENT, CRIADOR DO TERMO BRIC , JIM, ONEILL, ECONOMISTA, PRESIDENTE DA GOLDMAN SACHS ASSET MANAGEMENT, CRIADOR DO TERMO BRIC , JIM, ONEILL, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h10

À medida que nos aproximamos do fim de 2012, ficou muito na moda opinar que a era de crescimento dramático dos países conhecidos pela sigla Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) acabou e a suposta ascensão dessas economias esmorecerá como ocorreu com muitas outras histórias econômicas de sucesso. Essa visão que se alastra surge após um ano "desapontador" para cada uma das economias dos Brics. A meu ver, este não é um julgamento sensato.

Há três aspectos bastante simples que os comentaristas parecem ignorar quando avaliam as economias Brics. Em primeiro lugar, à medida que cresce a importância dessas nações, aumenta também sua influência no mundo. Em segundo, e associado a isso, a China é não somente a segunda maior economia do mundo; ela é tão grande quanto as outras três juntas, de modo que, se alguém estiver discutindo o panorama combinado dos Brics e sua influência, o que se está passando na China é muito mais importante do que nos outros três.

Em terceiro, e isso é fundamental, a maneira como as economias Brics estão se saindo deve ser vista no contexto de até que ponto sua projetada ascendência está ocorrendo conforme as projeções.

Em 2012, a China provavelmente terá um crescimento no valor de seu Produto Interno Bruto (PIB), medido em dólares americanos, da ordem de US$ 1 trilhão, elevando sua economia a cerca de US$ 8,3 trilhões, o que reflete o provável crescimento real "mais suave" de 7,7% que registrará, além de um valor incremental resultante de uma nova valorização do yuan ante o dólar.

Embora esse aumento de US$ 1 trilhão esteja abaixo do aumento de US$ 1,3 trilhão em 2011, ainda está perto de criar o equivalente a outra economia grega a cada quatro meses (ante três meses, em 2011) e quase a metade de uma nova Itália por ano. Para os países Brics coletivamente, seu PIB nominal em dólares em 2011 cresceu quase US$ 2,3 trilhões, o que na realidade é mais do que o tamanho da Itália.

Esses exemplos demonstram, assim espero, a escala da influência que os países Brics estão tendo no mundo, mesmo que fosse verdade que eles estão desacelerando e "desapontando".

Deixem-me abordar agora as suas "desacelerações", que não podem ser vistas sob a mesma luz. Por sua importância chave, analisar a desaceleração da China é fundamental. Por que a China desacelerou? A resposta é quase completamente "porque os dirigentes chineses queriam que a China desacelerasse". Embora o crescimento das exportações tenha nitidamente enfraquecido com o que ocorreu nos Estados Unidos e na Europa, é um erro reduzir o desempenho mais fraco da China a isto, e é um erro pensar nas forças domésticas como algo que "simplesmente aconteceu".

A maior parte da desaceleração da China pode ser atribuída ao endurecimento deliberado das condições monetárias em 2010 e 2011 porque os dirigentes queriam reduzir a inflação e interromper os aumentos exorbitantes dos preços dos imóveis em muitas áreas urbanas.

Em fevereiro, o primeiro-ministro, Wen Jiabao, "previu" que a China cresceria 7,5% em 2012 especificamente. Assim, supusemos que a China cresceria 7% em média durante toda esta década, e, por causa do crescimento de 2011 e 2012, de fato, a China cresceu mais do que vínhamos supondo.

Me vejo às vezes brincando que, se a China fosse um time de futebol da primeira divisão, eu gostaria de torcer por ele! A administração da economia pelos dirigentes chineses tem sido impressionante, e quando penso nas coisas que me preocupam, o crescimento da China não está no topo da lista. Um crescimento na vizinhança de 7,5% a 8% em 2013 (e além) parece bastante provável.

Para o Brasil e outros países, é importante notar que os vencedores e perdedores da "nova China" poderão ser diferentes dos antigos, mas o crescimento continuará, assim como sua rápida ascensão na escala da importância mundial.

Outro Bric também precisa ser compreendido de maneira diferenciada. A Rússia superou as expectativas positivamente em 2012 e, embora seu crescimento também esteja mais lento do que na década passada, não foi desapontador. A maioria das pessoas escreve coisas negativas sobre a Rússia porque não aprova o estilo de liderança e governança, mas isso não deve ser confundido com crescimento decepcionante. Olhando para o futuro, o crescimento do PIB real em torno de 4% provavelmente vai continuar.

Brasil e Índia foram genuinamente mais desapontadores em 2012, e cada um desses países merece uma reflexão, sobretudo de seus próprios dirigentes. Eu vinha advertindo com frequência que as políticas microeconômicas da Índia não eram fortes o suficiente para sustentar o desempenho de rápido crescimento, e, em 2012, isso finalmente ocorreu. Se quiserem voltar às taxas de crescimento de 8% (estimamos 7,5% para a década como um todo), terão de fazer as reformas modestas recentemente anunciadas.

Uma atitude muito mais positiva ante o investimento estrangeiro, ajudando a aumentar a competitividade e a produtividade de muitos setores da economia indiana, seria útil, assim com um arcabouço mais claro para uma polícia macroeconômica. Não devemos esquecer que a Índia tem uma demografia espetacular e, se suas políticas forem mais incisivas, a economia começará facilmente a crescer 8% ou mais.

O problema do Brasil, assim eu penso, tem sido muito específico e, em certa medida, a política econômica já está reagindo a ele. O crescimento brasileiro decepcionante (tanto em 2011 como em 2012) se explica por dois fatores: a significativa valorização do real e a desaceleração dos preços globais das commodities. De certa maneira, o Brasil já tem sofrido a chamada "doença holandesa" e, para o futuro, precisa assegurar que sua moeda se mantenha num nível consistente com a competitividade dos setores não relacionados a commodities, e empreender outras medidas para reforçar a produtividade de sua economia não relacionada a commodities.

Suspeito que o Brasil reagirá mais do que muitos hoje projetam, principalmente porque o grau de decepção do terceiro trimestre foi exagerado por uma provável desaceleração temporária no setor financeiro. Acredito que o Brasil provavelmente crescerá perto de 4% em 2013, e eu não descartaria um crescimento maior (um padrão volátil similar foi registrado na década passada).

Além das economias Brics, há muitas coisas empolgantes em algumas outras grandes economias emergentes, incluindo muitos dos países chamados por nós de "Próximos 11". Além da Indonésia, e do vizinho latino do Brasil, o México, Turquia, Nigéria e Filipinas estão entrando cada vez mais no radar dos negócios, como deveriam. Na década de 2011-20, essas economias, os Próximos 11, embora sem criar nada parecido com o impacto dos Brics, provavelmente contribuirão mais para o crescimento do PIB global do que os EUA.

Em resumo, acredito que o crescimento contínuo dos Brics e da influência dos Próximos 11 no mundo mais uma vez surpreenderá positivamente as pessoas, ainda que alguns deles cresçam menos do que no passado. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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