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O poder das ideias erradas

As ideias erradas, que nunca morreram, conseguiram voltar ao governo

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2016 | 05h00

José Alexandre Scheinkman, das Universidades de Colúmbia e Princeton, é considerado o economista brasileiro de maior destaque acadêmico internacional. Há muitas décadas nos EUA, ele relata que a pergunta mais frequente que lhe fazem hoje em dia é “what is going on in your country? (o que está acontecendo no seu país?)”.

O resto do mundo está perplexo em relação à crise brasileira: como a situação econômica e política do País pode ter se deteriorado tanto em tão pouco tempo? Até 2010, o Brasil era festejado como uma das economias do grupo Brics (que inclui China, Rússia, Índia e África do Sul), predestinada a assumir um papel preponderante no cenário global. A combinação de política econômica supostamente responsável e política social agressiva do ex-presidente Lula era cantada em verso e prosa mundo afora.

O próprio Scheinkman se confessa surpreso. Ele alertou contra a euforia excessiva ao final do governo Lula, mas julgou que a mudança de política econômica no início do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, com Joaquim Levy no Ministério da Fazenda, poderia dar certo. Hoje, ele vê piora nos problemas de curto, médio e longo prazo.

No curto, a situação fiscal é gravíssima, e as medidas econômicas tomadas pelo governo para tentar garantir sua sobrevivência política comprometem ainda mais as contas públicas. No médio prazo, o combate ao crescimento acima do PIB das despesas públicas, que exige iniciativas como a reforma da Previdência, fica paralisado pelo caos político. No longo, nem se fala mais da fundamental agenda de aumento da produtividade.

No fundo, para o economista, são as ideias erradas que tiraram o Brasil dos trilhos. Scheinkman nota que os economistas que defendem que é preciso controlar câmbio e preços e incentivar setores estratégicos não desapareceram durante o período de melhora da política econômica que vai de meados da década de 90 até o início do governo Lula. “Essas pessoas e essas receitas estavam por aí, me lembro muito bem das críticas à política econômica do (ex-ministro da Fazenda) Palocci”.

A mudança, portanto, foi que – por um complexo conjunto de razões, difícil de destrinchar –, as ideias erradas, que nunca morreram, conseguiram voltar ao governo, onde já haviam reinado em épocas como o governo Geisel e o governo Sarney.

Scheinkman acha que a coincidência entre a crise global de 2008 e 2009 e o boom das commodities foi de certa forma infeliz. Os países ricos amargaram grandes problemas econômicos, enquanto nações produtoras de matérias-primas, como Brasil, Venezuela e Rússia, rapidamente se recompuseram e voltaram a crescer: “E aí Chávez, Putin, Lula e Dilma passaram a achar que eram gênios econômicos”, ironiza o professor de Princeton.

Há uma leitura alternativa, mais dura e condenatória que a de Scheinkman, sobre a crise brasileira. A tentativa canhestra e desastrada de reeditar o capitalismo de Estado a partir de determinado ponto da era petista teria sido uma iniciativa deliberada para aumentar as rendas de corrupção a serem utilizadas para perpetuar o partido no poder. O fato, porém, é que a própria ideologia intervencionista e estatista, ao aumentar as interações discricionárias entre o governo e o setor privado, amplia as oportunidades e o volume da corrupção.

Seja como for, como diz Scheinkman, “o governante tem sempre a tentação de descobrir o almoço grátis, o atalho para o desenvolvimento, e acha que entende as coisas e tem mais capacidade do que possui na verdade; é o sujeito sentado em Brasília, pensando que sabe o que vai dar um grande retorno para a economia brasileira – é a húbris”, ele conclui, referindo-se à expressão grega para o orgulho que cega a ponto de trazer a punição dos deuses e a queda. A punição para a cegueira ideológica, porém, recai sobre todos os brasileiros.

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