O poder de virar o jogo

É preciso que as empresas tenham segurança de que podem assumir riscos porque a política econômica vai focar o futuro da indústria

Carlos Eduardo Calmanovic *,

05 de junho de 2013 | 15h48

Estamos construindo uma cultura mais inovadora no Brasil. Nossa dívida histórica com a competitividade precisa ser resgatada, e a inovação é fundamental para darmos o salto necessário para colocar o Brasil numa posição de liderança internacional.

Mais da metade das empresas brasileiras não inova. Estão muito ocupadas com a legítima sobrevivência imediata e não conseguem olhar o longo prazo, tampouco a competitividade no curto prazo. Essa não é uma receita de sucesso e temos de agir rapidamente. Embora haja compreensão crescente sobre a relevância da inovação para o aumento da competitividade, poucas são as empresas realmente inovadoras. É necessário sinalizar claramente às empresas que elas podem assumir riscos, que podem ser ambiciosas, que podem se lançar em novos projetos, porque a política econômica focará no futuro da indústria e da economia.

O Plano Inova Empresa, recém-anunciado pelo governo federal, caminha nesse sentido. É um avanço e uma oportunidade que deve ser aproveitada pelas empresas. A integração de instrumentos de fomento a atividades de P&D, a articulação entre as agências que financiam a inovação e o estímulo à inovação nas cadeias produtivas são aspectos fundamentais que ajudam a consolidar a inovação no Brasil.

Mas, para o pleno aproveitamento do plano, alguns cuidados são necessários. Esse esforço não pode ser pontual. As fontes de recursos para suportar o Inova Empresa devem ser trabalhadas numa perspectiva de longo prazo, para garantir a continuidade da mobilização das empresas, das agências de fomento e das iniciativas de PD&I. Teremos que avançar na discussão sobre os recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, muito dependente do fundo setorial do petróleo, o CT-Petro, hoje, ameaçado pela discussão dos royalties do petróleo. Além disso, é necessário ampliar a base de empresas inovadoras, para garantir a competitividade crescente do Brasil.

Nesse sentido, a desoneração da folha de pagamento de pesquisadores poderia apoiar o Plano Inova Empresa, contribuindo para a fixação de equipes de pesquisadores nas empresas e incentivando o desenvolvimento de mais inteligência tecnológica, elemento fundamental para a competitividade das empresas.

Outro ponto importante é a inclusão, na Lei do Bem, de empresas que adotam o regime de lucro presumido no pagamento de seu Imposto de Renda. Atualmente, apenas as empresas que seguem o regime do lucro real podem usar os incentivos fiscais para inovação previstos na Lei do Bem. Ambos os pontos beneficiariam, sobretudo, as micro e pequenas empresas inovadoras, estimulando, assim, o adensamento tecnológico das cadeias produtivas no Brasil.

A recém-criada Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) permitirá, quando bem-sucedida, transformar ciência em tecnologia, ajudando a fechar o ciclo da inovação num de seus elos mais frágeis hoje que é a transformação de conhecimentos em negócios. O sucesso da Embrapii dependerá da agilidade e da flexibilidade das instituições de pesquisa, que devem ser capazes de identificar e entender as demandas das empresas. Já as empresas terão de se adaptar ao modo de trabalho das instituições de C&T.

Não podemos esquecer que o investimento em inovação tem resultados principalmente no médio e longo prazos e que precisamos nos habituar a medir o impacto das nossas iniciativas. Assim, a sociedade civil deve acompanhar a evolução do Inova Empresa, do lançamento dos editais à contratação dos projetos, da elaboração dos projetos à colocação das inovações no mercado. Esse acompanhamento atento e construtivo será parte importante da contribuição da sociedade ao sucesso do plano.

Estamos caminhando na direção correta. Temos de fazê-lo numa velocidade maior. O Brasil está bem posicionado nesse contexto: destaque para a produção de bens intensivos em recursos naturais com potencial de construirmos uma economia dinâmica e sustentável e de crescimento ancorado num mercado interno promissor. Por meio da inovação asseguraremos os próximos passos dessa caminhada.

* É PRESIDENTE DA ANPEI

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