O ponto de virada

Apatia atual seria chacoalhada apenas com uma perspectiva palpável de troca no comando

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2017 | 05h00

Em 18 de maio, dia seguinte à publicação na imprensa das denúncias do dono da JBS, Joesley Batista, envolvendo o presidente Michel Temer, o dólar encerrou a sessão de negócios no ponto mais alto desde o início da atual crise política: a R$ 3,3868.

De lá para cá, contudo, a moeda americana acomodou-se confortavelmente num intervalo não muito distante da faixa entre R$ 3,25 e R$ 3,30. O sentimento parecia ser o seguinte: diante da enorme liquidez mundial, com os investidores globais sedentos pelas elevadas taxas de retorno oferecidas pelos ativos de países emergentes, o mercado fechou os olhos para a crise política que abala o governo Temer. Os preços dos ativos ontem refletiram uma cautela mais do que um estresse.

A sensação é de que os investidores aceitaram a perspectiva de que, até as eleições presidenciais de 2018, o Brasil vai apenas “muddle through”, ou seguir aos trancos e barrancos, na definição de analistas estrangeiros. E, nesse cenário, os investidores parecem aceitar até que nenhuma reforma seja aprovada, desde que os preços dos ativos brasileiros não entrem em colapso, isto é, desde que o dólar não dispare para além de R$ 4 e que a atividade econômica não mergulhe num caos à la Venezuela.

Ontem, dia seguinte da denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra Temer por corrupção passiva, o dólar começou o pregão apenas levemente acima do intervalo de conforto do mercado, a R$ 3,3094. Chegou a atingir R$ 3,3299 no início da tarde, mas ainda assim longe de um estresse que exigisse a intervenção do Banco Central.

Isso depois de uma acusação contundente contra Temer não somente pela PGR, como também pela perícia da Polícia Federal em relação aos áudios gravados por Joesley com o presidente. Isso também depois de analistas políticos e economistas considerarem que, após a primeira denúncia de Janot, o andamento das reformas, em especial a da Previdência, fica gravemente prejudicado.

E o que poderia tirar o mercado desse equilíbrio precário em relação ao Brasil?

Para muitos analistas, do ponto de vista de fundamentos domésticos, a aparente apatia atual seria chacoalhada apenas com uma perspectiva palpável de troca no comando do País num prazo relativamente curto, como poderia ter sido o caso se o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tivesse julgado pela cassação da chapa Dilma Rousseff-Temer, levando a uma eleição indireta para a escolha de um novo presidente. Dependendo do sucessor, os preços dos ativos ou voltariam para o patamar pré-crise política ou passariam por uma correção bem mais severa.

Mas sem a opção TSE, qual pode ser o ponto de virada para o mercado em relação à permanência ou não de Temer no cargo?

A baixíssima aprovação do presidente, que, segundo a pesquisa Datafolha, caiu para 7%, menor nível desde o governo de José Sarney, aumenta a pressão sobre o peemedebista, mas o respaldo da Constituição o protege no cargo a não ser que o País descambe para uma saída que não seja democrática.

Não foi à toa que, em artigo nesta semana, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez um apelo “ao bom senso” de Temer, instando-o a encurtar o mandato e a chamar novas eleições. Seria a pressão de um político renomado como FHC o ponto de virada?

Aparentemente, não. Isso porque FHC não foi tão longe ao fazer um “apelo ao bom senso” aos líderes do próprio partido, o PSDB, para desembarcar de vez do governo. Isso tornaria a pressão praticamente insuportável ao retirar o apoio parlamentar do peemedebista até para vencer a iminente batalha na Câmara dos Deputados da votação para autorizar o Supremo Tribunal Federal (STF) em seguir adiante com o processo baseado na denúncia da PGR.

Teria sido o gesto de FHC apenas para “inglês ver”, ou melhor, o eleitor indignado?

Enquanto não vir, de fato, o risco de uma iminente troca de comando no País, o mercado parece ter feito um pacto: não se importa que o Brasil atravesse a transição para 2018 aos trancos e barrancos, com um presidente acuado por graves denúncias e sem capacidade de aprovar reformas.

* É COLUNISTA DO BROADCAST

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