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‘O populismo pode enfraquecer as instituições dos EUA’, diz economista

Para economista, natureza ‘errática’ de Donald Trump torna mais palpável uma guerra comercial com a China

Entrevista com

Barry Eichengreen, economista

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2018 | 04h00

Apesar da retórica estridente do governo Donald Trump, existe uma chance de 50% de o conflito comercial entre Estados Unidos e China terminar em acordo que evite uma guerra tarifária entre as duas maiores economias do mundo, avalia o economista Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley. Mas a natureza errática do atual ocupante da Casa Branca traz o risco de que o pior cenário se concretize.

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Eichengreen vê nas políticas comerciais de Trump um reflexo dos instintos populistas que o levaram à presidência. “Trump tende a ver o comércio internacional como um jogo de soma zero, no qual exportadores ganham e importadores perdem.” A recente emergência do populismo no Ocidente é tema do livro The Populism Temptation (A Tentação Populista), que Eichengreen acaba de lançar nos EUA. A seguir, trechos da entrevista. 

Qual a probabilidade de uma guerra comercial ampla entre EUA e China?

Eu continuo a estimar em 25% a chance de que ela ocorra. Também coloco em 25% a probabilidade de tarifas limitadas, que afetariam US$ 3 bilhões em importações de aço e alumínio e US$ 50 bilhões de outros bens. Atribuo a maior probabilidade, de 50%, a uma solução negociada, como a que foi encontrada na revisão do acordo de livre-comércio entre EUA e Coreia do Sul, no mês passado. O secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, sinalizou a disposição de negociar. Então, podemos ser esperançosos. Mas com a natureza errática do presidente Trump, sempre há a possibilidade de que as coisas deem muito errado.

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Quais seriam as consequências de uma guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo?

Haveria grandes rupturas nas cadeias globais de suprimento e a confiança dos investidores seria abalada. Não estou seguro de que uma recessão global poderia ser evitada. 

Como uma guerra comercial afetaria o Brasil e outros países latino-americanos que exportam commodities para a China?

O governo chinês tem controle suficiente da economia para controlar o ritmo de desaceleração. Eles têm espaço monetário e fiscal para compensar o declínio nas exportações. Mas conflitos comerciais acelerariam a rotação da produção chinesa da produção de mercadorias para a direção de serviços. E serviços são menos intensivos em energia e commodities, portanto, haveria consequências para países como o Brasil.

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Que tipo de concessões a China teria de fazer para evitar uma guerra comercial?

A renegociação do acordo entre Coreia do Sul e EUA dá algumas pistas. Os EUA extraíram pequenas concessões no acesso ao mercado de veículos da Coreia do Sul. Também foi adotada uma “cláusula de manipulação de moeda”, desenhada para dar aos EUA um meio de reclamar, caso seu déficit comercial com a Coreia do Sul aumente muito. É possível imaginar pontos semelhantes em relação à China. Mas é difícil chegar a um acordo sobre a aplicação mais efetiva de leis de proteção de propriedade intelectual pela China, que é outra demanda dos EUA. Uma guerra comercial será evitada apenas se a administração Trump entender que a solução desse problema demanda tempo. Isso vai exigir a construção de uma coalizão de países interessados na mesma coisa. E vai requerer trabalhar com a OMC (Organização Mundial do Comércio). Não está claro se Trump tem paciência para isso. 

O governo Trump parece alarmado com a influência da China no mundo e, em particular, na América Latina. Como o sr. vê o futuro dessa relação bilateral

O conselheiro de Trump para questões comerciais, Peter Navarro, é autor de um livro chamado Death by China (Morte pela China). Portanto, não deveria surpreender essa abordagem alarmista em relação à postura geopolítica cada vez mais assertiva da China. Conflitos comerciais vão ter o lamentável efeito de tornar mais difícil para os EUA e a China cooperarem em questões como a Coreia do Norte.

O sr. acaba de publicar The Populism Temptation, livro que analisa a emergência de movimentos populistas no Ocidente. As medidas de Trump em relação ao comércio internacional refletem uma visão populista?

Claro. Populistas veem as coisas em termos de “nós versus eles” ou “nativos versus o ‘outro’”. Trump tende a ver o comércio internacional como um jogo de soma zero, no qual exportadores ganham e importadores perdem. Um conhecimento básico de economia é suficiente para levar à conclusão de que essa visão é falaciosa. Mas o sr. Navarro e o presidente que ele aconselha não possuem esse conhecimento.

Quais são os riscos representados pela onda populista?

No curto prazo, guerras comerciais e hostilidade em relação a imigrantes e minorias. No longo prazo, enfraquecimento das instituições que fazem os EUA o país que ele é, de um FBI com integridade à independência de uma imprensa livre.

Quais forças impulsionam essa emergência populista?

Minha pesquisa confirma que as forças subjacentes são uma combinação de insegurança econômica – de fato ou ao menos o temor de ser deixado para trás – e preocupações com identidade – o medo de se tornar uma minoria racial ou étnica no caso dos cidadãos brancos nos EUA e na Europa. É a interação entre insegurança econômica e política da identidade que cria um terreno fértil para os populistas.

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