O preço da desconfiança

O livro Trust (confiança), do autor Francis Fukuyama, relata os aspectos sociais que conduzem à prosperidade um país. Descreve como o funcionamento da economia, das instituições e dos negócios depende das relações que se estabelecem e se transmitem por gerações, a partir de valores e normas, e como o nível de confiança mútua permite aos indivíduos abrir mão do interesse puramente individual e se associar com outros. Sob a ótica do autor, os países que se desenvolveram mais rápida e profundamente foram aqueles em que o nível de confiança da comunidade é elevado. A falta de confiança leva ao fraco desempenho econômico.

Patricia Marrone, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2011 | 00h00

Assim, "...a lei, os contratos e a racionalidade econômica fornecem a base necessária, mas não suficiente, para a prosperidade das sociedades pós-industriais... Elas devem sedimentar-se também sobre valores como: reciprocidade, obrigação moral, dever perante a comunidade". Ou seja, a confiança é estabelecida quando normas éticas são compartilhadas.

Nos países onde a confiança é baixa, não é de estranhar que não só o desenvolvimento foi menor nas últimas décadas, como, ainda hoje, o ambiente é pouco propício à realização de negócios. Prova disso é o resultado de 2011 do relatório do Banco Mundial Doing Business - Measuring Business Regulations, que avalia anualmente a facilidade ou a dificuldade na realização de negócios entre 183 países. O objetivo é acompanhar internacionalmente a evolução do ambiente regulatório dos negócios. Ao país onde é mais fácil realizar negócios atribui-se a posição de primeiro no ranking. Ao de maior dificuldade cabe a 183.ª posição. Representantes dos mais importantes escritórios de advocacia nacionais são consultados para atribuir pontos conforme os critérios adotados na pesquisa.

O Brasil caiu três posições no relatório de 2011, em relação ao ano anterior. Passamos do 124.º lugar, em 2010, para o 127.º lugar. Cingapura foi considerado o campeão e cotado como o país onde é mais fácil realizar negócios. Chade foi o pior cotado. O Japão ficou em 18.º lugar. México, em 35.º; Chile, em 43.º; China, em 75.º; e Argentina, em 115.º. Entre os países importantes no cenário econômico da atualidade, só a Índia foi pior que o Brasil, ficando em 134.º lugar.

De 2010 para 2011, pioramos em seis dos nove quesitos, em que são contabilizados os números de documentos para: 1) obter crédito; 2) proteger investidores; 3) pagar impostos; 4) realizar o comércio entre fronteiras; e 5) fechar negócios. Pioramos também no número de registros exigidos para adquirir uma propriedade (6).

Só melhoramos no quesito (7) de documentos e exigências para a construção civil. Mesmo assim, no Brasil são necessários 411 dias para obter uma autorização para construir um galpão comercial que custe por volta de R$ 1,2 milhão. Permanecemos inalterados em dois itens: nas exigências para abrir empresas (8) e na medida da eficiência do Judiciário, quando da resolução de disputas comerciais (9). Mas nesse quesito também estamos mal, pois o custo de uma disputa é estimado em 16,5% da causa judicial, com uma estimativa de duração de 616 dias.

O relatório também avaliou o progresso de cada país nos cinco anos contados de 2006 a 2011. Ele mostra que progredimos muito pouco, ao contrário da China, do México e da própria Índia, que, apesar de ocupar pior posição que o Brasil, vem realizado esforços para melhorar seu ambiente de negócios.

Apesar dos avanços sociais recentes, retrocessos num ambiente de negócios já ruim prejudicam ainda mais a economia. Ademais, a gradual perda de competitividade internacional dos nossos produtos se deve não só ao câmbio, mas também ao ritmo lento com que os negócios se desenvolvem, atrapalhados por papeladas e burocracias de todo o tipo, que também tornam o ambiente desses negócios caríssimo e permeável a toda sorte de intermediários, inclusive os que atuam via corrupção.

ECONOMISTA (USP), COORDENA O DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DE ENTIDADES DE CLASSE PATRONAIS E É SÓCIA DA CONSULTORIA WEBSETORIAL

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