O preço da ignorância

“Guerras comerciais são boas e fáceis de vencer”, declarou Donald Trump há algumas semanas, depois de anunciar novas tarifas sobre o aço e o alumínio. Na verdade, guerras comerciais raramente são bombas e de modo nenhum são fáceis de ganhar- especialmente se você não tem a mínima idéia do que está fazendo. E esse pessoal de fato não sabe o que está fazendo.

Paul Krugman, O Estado de S.Paulo

23 Março 2018 | 18h45

É estranho, num certo sentido. Afinal, comércio é uma matéria que Trump realmente nutre uma paixão. Ele tentou aniquilar o Obamacare, mas aparentemente sua principal preocupação foi manchar o legado do seu predecessor. Ele queria reduzir os impostos, mas apenas para contabilizar uma “vitória” do que por saber do que se tratava. Mas reduzir o déficit comercial é uma antiga obsessão do presidente, de modo que era de se esperar que ele aprendesse alguma coisa sobre como funciona o comércio mundial, ou pelo menos que ele se cercasse de pessoas que entendessem do assunto.

Mas não. E o que ele não sabe irá prejudicar você, leitor.

No caso do aço, eis o que ocorreu: primeiramente Trump anunciou enormes tarifas, aparentemente em nome da segurança nacional, enfurecendo os aliados dos Estados Unidos, que são a principal fonte das nossas importações de aço. Em seguida, veio o que pareceu um recuo: o governo isentou Canadá, México, União Europeia e outros países daquelas tarifas.

Esse recuo foi uma reação às ameaças de retaliação ou o governo acabou entendendo que as tarifas afetariam especialmente os nossos aliados? De qualquer maneira, Trump viu-se diante da pior das situações: irritou países que deveriam ser nossos aliados e criou uma reputação de um aliado e parceiro comercial nada confiável, sem contribuir muito para um setor que, supostamente, estava tentando ajudar.

Agora temos o Trumptrade II, ou a Síndrome da China. Na quinta-feira o governo anunciou que irá taxar vários produtos provenientes da China, e os detalhes serão informados mais tarde. Como vai funcionar essa taxação?

Vamos esclarecer: no que se refere à ordem econômica global, a China de fato não é um parceiro exemplar. Em particular se comporta de maneira imoral no campo da propriedade intelectual, roubando tecnologias e idéias desenvolvidas em outros lugares. E também subsidia alguns setores, incluindo o do aço, contribuindo para o excesso de capacidade do mundo.

Mas embora sua equipe mencione esses problemas, Trump parece fixado no déficit comercial com a China, que insiste em dizer que é de US$ 500 bilhões (Na verdade são US$ 375 bilhões, mas quem se importa?).  

O que há de errado com esta fixação?

Em primeiro lugar, grande parte desse enorme déficit é uma ilusão estatística. A China, como alguém explicou, é a Grande Montadora: muitas exportações chinesas são na verdade de peças montadas  produzidas em outros lugares, especialmente na Coreia do Sul e Japão. O exemplo clássico é o iPhone, que vem com a inscrição “Made in China”, mas cuja mão de obra e o capital chineses representam apenas uma pequena porcentagem do preço final.

Este é um exemplo extremo, mas se insere num padrão mais abrangente: a maior parte do aparente déficit comercial com a China – provavelmente quase a metade – é na realidade um déficit com os países que vendem componentes para a indústria chinesa (e com as quais a China contabiliza déficits). E isto tem duas implicações: os Estados Unidos têm uma alavancagem comercial sobre a China muito menor do que Trump imagina e uma guerra comercial com os chineses vai enfurecer um amplo grupo de países, alguns deles estreitos aliados dos EUA.

E o mais importante, o superávit comercial total da China não é presentemente um grande problema para os Estados Unidos ou o mundo como um todo.

Utilizo a palavra “presentemente” de propósito. Não faz muito tempo, os Estados Unidos registravam um alto índice de desemprego e a China, ao manter sua moeda desvalorizada e contabilizando enormes superávits comerciais, tornou nosso problema de desemprego ainda pior. Naquela época, insisti que os Estados Unidos deviam agir com mais agressividade a respeito.

Mas isso foi no passado. Os superávits comerciais chineses diminuíram; os Estados Unidos não contabilizam mais altas taxas de desemprego. Trump talvez pense que nosso déficit comercial com a China significa que ela está ganhando e nós estamos perdendo, mas não é o que ocorre. O comércio chinês – ao contrário de outras práticas condenáveis da China, não é um problema que nos deve preocupar no mundo de 2018.

E entrando desastradamente numa guerra comercial, Trump corrói nossa capacidade de fazer alguma coisa no caso de problemas reais. Se nós pretendemos pressionar a China a respeitar a propriedade intelectual, temos de reunir uma coalizão de nações prejudicadas pelos roubos cometidos pelos chineses, ou seja, uma união com outros países avançados como Japão, Coreia do Sul e países europeus. Mas Trump vem sistematicamente isolando esses países com suas decisões, caso das novas tarifas sobre o aço e suas ameaças de taxar produtos que, montados na China, são produzidos em outros lugares.

Em termos gerais, a política comercial de Trump está rapidamente se tornando uma aula prática sobre o preço da ignorância. Ao se recusar a fazer seu trabalho de casa, a equipe do governo está perdendo amigos e ao mesmo tempo deixando de influenciar pessoas.

A verdade é que as guerras comerciais são ruins e quase todas acabam sendo perdidas do ponto de vista econômico. Se houver um “vencedor” ele estará entre as nações que ganharão influência geopolítica porque os EUA estão dilapidando sua própria reputação. O que significa que, se houver um vitorioso nessa guerra comercial iniciada por Trump, será a China. /Tradução de Terezinha Martino

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