O preço do atraso do Banco Central
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O preço do atraso do Banco Central

O Banco Central está correndo atrás da curva de inflação e deixando a desejar no cumprimento de uma das funções mais importantes da autoridade monetária que é a de ancorar as expectativas dos fazedores de preços

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2021 | 19h30

O Banco Central decidiu finalmente abrir sua caixa de ferramentas e tratar a inflação com mais firmeza.

Desde setembro do ano passado, deu pouca importância à alta dos alimentos. Avisou e tornou a avisar que se tratava de uma pressão apenas temporária e que, por isso, não devia reduzir demais o volume de moeda na economia (aumentar os juros). Aparentemente, não queria asfixiar a recuperação ainda frágil da economia com o encarecimento do crédito.

Na reunião desta quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) abandonou o jogo contemporizador. Não repetiu que a inflação dos alimentos é transitória. Ao contrário, reconheceu que, em vez de recuar, a alta dos alimentos avançou ainda mais e que tende a continuar assim, em consequência da crise climática (falta de chuvas e geadas nas Regiões Sul e Sudeste).

Reconheceu, pela primeira vez, o que parecia óbvio para outros observadores que o afrouxamento das medidas de isolamento social empurrou o consumidor ao mercado de serviços do qual estava afastado e, com isso, contribuiu para novo foco de alta.

A conclusão é a de que não basta dar um “apertinho” nos juros básicos (Selic), com a dose de 0,75 ponto porcentual por vez. Tinha logo de ser mais agressivo. Até o fim do ano, o Banco Central admite puxar a Selic, agora nos 5,25% ao ano, para 7,0%. Mas não está convencido de que esse aperto será suficiente para domar a inflação, coisa que deixará para monitorar nos próximos meses.

Três conclusões podem-se tirar daí. Primeira, o Banco Central subestimou a virulência da inflação. Segunda, não conduziu o processo; foi conduzido por ele ou, na linguagem de alguns comentaristas, “ficou atrás da curva”. Nessas condições, não conseguiu ancorar as expectativas dos fazedores de preços – uma das funções importantes da autoridade monetária. E, terceira, como saiu atrás dessa corrida com barreiras, o Banco Central tem agora de ser “mais intempestivo”.

A meta de inflação de 2021, de 3,75%, mais 1,50% de escape tolerado (total de 5,25%) está estourada. O objetivo agora é tentar assegurar o cumprimento da meta para 2022, de 3,50%.

 

Onde o Banco Central errou? Errou em não ter entendido que o “fique em casa”, como defesa contra o alastramento da covid-19, alterou a cesta de consumo e, de alguma maneira, deixou de registrar parte da inflação real.

Outro erro: não ter dado a devida importância à deterioração das contas públicas que, entre outros efeitos, derrubou a confiança de investidores, produtores e consumidores.

Também não levou em necessária conta a disparada dos preços industriais, acusadas pelo galope do Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) que, em julho, acumulou alta de 15,98% no ano e de 33,83% em 12 meses. E não percebeu, já em março, que a falta de chuvas produziria a crise hídrica que, agora, é responsável pela disparada dos preços da energia elétrica e pelo aumento da percepção geral de encarecimento do custo de vida.

Vamos às consequências. Juros muito mais altos agora aumentam os custos do endividamento. Todo o setor produtivo, altamente dependente de financiamento de capital de giro, enfrentará aumento da pressão de custos. A área da construção civil já começa a se ressentir dessa ralada.

Na área das aplicações financeiras será inevitável certo direcionamento de recursos para a renda fixa, segmento que ficou para trás enquanto os juros básicos permaneceram em torno dos 2,0% ao ano.

Mas o maior impacto sobre a economia pode provir da causa de tudo: da forte deterioração das contas públicas. Ainda sobra muito dinheiro no mercado internacional e a economia brasileira pode continuar sendo beneficiada pela maior entrada de dólares. No entanto, um volume maior de despesas com juros será incorporado ao principal da dívida pública. É o que pode provocar o aprofundamento da percepção da disparada do rombo fiscal.

O movimento seguinte poderá ser o do aumento das incertezas e cobrança de maiores prêmios de risco pelos investidores em títulos do Brasil, movimento que tenderá a ser aguçado pela antecipação do processo eleitoral.

Como disse o poeta, rimar vasto mundo com Raimundo não é solução.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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