'O presidente da Guiné quer a Vale sozinha em Simandou'

Executivo admite que a situação da BSG é difícil, pois o presidente Alpha Condé quer a empresa fora da exploração do minério

Entrevista com

/ D.F. e F.S., O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h08

O presidente do grupo israelense BSG Resources, Asher Avidan, conversou com o Estado sobre sua intenção de processar o banco de investimentos BTG Pactual, de André Esteves, e o empresário Roger Agnelli por interferência nos negócios do grupo na Guiné.

A seguir, leia os principais trechos da entrevista:

Como surgiu a rixa entre a BSG e o governo da Guiné?

O presidente Alpha Condé era, até quatro meses depois das eleições, nosso melhor amigo. No dia em que perdeu o irmão, desmarcou todas as reuniões que tinha, menos com a gente. Disse que éramos os melhores investidores do país. Só que o presidente não é mais jovem e passou as negociações sobre as riquezas minerais da Guiné para seu filho, Mohamed Condé. Mohamed fechou acordos com empresas chinesas e agora vêm o BTG e o (Roger) Agnelli pela porta de trás, por meio do filho do presidente. Eles querem tomar Simandou, o maior ativo de mineração inexplorado do mundo atualmente.

Como poderiam fazer isso? Vocês são donos, junto com a Vale, de metade da reserva.

É isso que quero evitar. Vim ao Brasil conversar com escritórios de advogados. Vamos processar o BTG e o Roger Agnelli. Vou falar com a Vale e tentar fazer com que a empresa seja coautora do processo. Consultei nossos advogados na França e eles chegaram ao termo "tortious interference" (usado quando uma empresa tenta prejudicar o contrato de outra).

Nos disseram que BTG e Agnelli negociam com a Guiné apenas assessoria financeira e estratégica, e numa área que pertence à mineradora Rio Tinto, não a vocês e à Vale.

A proposta feita no início de julho falava sobre tudo em Simandou, e não apenas o lado da Rio Tinto. Eles se ofereceram para participar de todas as negociações e também para ajudar em obras de infraestrutura. O controle da infraestrutura é muito importante, porque influencia muito no controle da mina como um todo.

Considerada apenas a situação atual, a Vale fica no projeto?

Fica 100%. E, caso decida sair, temos mecanismos para garantir compensações. O próprio Roger Agnelli disse, quando assinou o contrato conosco, que Simandou era o futuro da Vale.

Mas, apesar do tamanho das reservas na Guiné, temos informações de que a Vale está considerando sair do projeto.

Eles tinham até abril de 2013 para fazer o pagamento dos US$ 2 bilhões remanescentes, e pediram uma extensão do prazo para o fim do ano que vem. Nós concedemos. Agora, há gente dentro da Vale falando que eles querem sair. Caso isso ocorra, a participação deles será diluída de 51% para 10%, pois eles já pagaram US$ 500 milhões.

Há formas de reconstruir a relação com o presidente Condé? Tentamos de tudo. Nós tentamos reconstruir a relação, nos encontramos com ele algumas vezes. Ele diz que não tem nada contra a BSG, mas que quer a Vale sozinha em Simandou.

E a Vale? Qual o retorno que a empresa deu para vocês?

Temos um excelente relacionamento e também respeito mútuo. Às vezes, eles estão com a gente (nas disputas com o governo), e às vezes eles estão ficando de fora.

A revista 'Exame' publicou que o BSG subornou uma das esposas do ex-presidente Lansana Conté para conseguir a concessão de Simandou...

É a mais completa mentira.

Como foi que, mesmo sendo menor que os concorrentes, a empresa obteve a concessão?

A Rio Tinto tinha 100% de Simandou e sentou em cima dela durante muito tempo sem fazer nada. Um dia, o antigo governo resolveu pegar metade e chamou diversas empresas para que apresentassem propostas. Não fomos os únicos a nos candidatar.

Beny Steinmetz, o dono do BSG, disse numa entrevista ao "Financial Times" que é preciso "sujar as mãos se você quer investir em lugares difíceis". O que ele quis dizer com isso?

Foi mal interpretado. Ele quis dizer que nesses lugares é preciso colocar a mão na massa.

Quem são os responsáveis pelas mortes em Zogota?

Isso é um assunto interno do governo e da polícia local. Nós e a Vale não temos nada a ver com isso.

Alguns habitantes afirmam ter visto os soldados que atiraram nos manifestantes circulando em veículos da Vale.

Alegações falsas. Houve transporte para a comitiva do governo que foi inspecionar as instalações da Vale depois que os manifestantes a atacaram. Quando o pessoal do governo foi embora, o pessoal do vilarejo se revoltou e as tropas do exército atacaram, no meio da noite. Ficamos chocados, mas não sabemos o que aconteceu.

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