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O primeiro choque entre Prat Gay e Kirchner

O presidente do Banco Central argentino, Alfonso Prat Gay, está numa situação delicada, dependendo da vontade política do presidente Néstor Kirchner, que deverá decidir se pede ou não a sua demissão. O motivo foi a declaração de Prat Gay num café da manhã com a Fundação Amigos da Universidade Hebréa de Jerusalém, ontem, qualificando de "enorme disparate" a intenção manifestada pelo governo de manter alto o valor do dólar. As palavras de Prat Gay foram interpretadas pelo mercado como uma desqualificação do pensamento do presidente Kirchner e uma decisão de enfrentar o ministro de Economia, Roberto Lavagna. A tensão entre Prat Gay e Lavagna teve início a partir do momento em que o ministro de Economia decidiu tomar para si a tarefa de redefinir o sistema financeiro, através da Unidade de Reestruturação, aprovada por um decreto nos últimos dias de mandato do ex-presidente Eduardo Duhalde. A criação da Unidade, também chamada de comissão, foi publicada no Diário Oficial da última segunda-feira. "O presidente nos disse que gostaria de um dólar a três pesos, o que eu poderia dizer que é um enorme disparate. O presidente não tem que dar nunca semelhante nível de detalhe. Não há forma de prognosticar cotações de câmbio. A última coisa que eu recomendaria a um presidente recém-eleito é jogar sua credibilidade em algo que não se pode prognosticar", disse o presidente do BC em sua palestra ontem, que caiu no mercado com uma deliberada exposição, tanto para tomar distância intelectual de algumas definições econômicas do novo governo, como para não aparecer com um poder débil diante do sistema. Marcar territórioOs banqueiros e analistas estão convencidos de que, ontem, Alfonso Prat Gay tentou marcar território diante de Néstor Kirchner, porque considera que o governo está interferindo em assuntos que devem ser tratados, exclusivamente, pelo Banco Central.Para o presidente de um banco argentino, que preferiu manter o anonimato, o presidente do BC "disse o que pensa, mas sem se esquecer que é um funcionário público". Segundo ele, "as palavras de Prat Gay não foram inocentes porque serviram para delimitar o território que administra, e são uma clara mensagem a Kirchner, de que a política monetária é fixada no Banco Central e não na Casa Rosada ou no Ministério de Economia", interpretou.Segundo outros três diretores de diferentes bancos, a crítica de Prat Gay ao presidente Kirchner não caiu bem, mas tampouco é considerado bom o fato de o presidente do país estar exercendo pressão para manter o dólar a 3 pesos, quando se sabe que a política monetária praticada tem a ver com metas de inflação e não com o câmbio. Eles consideraram, no entanto, que o verdadeiro motivo das polêmicas declarações de Prat Gay, apenas três dias após a posse do novo governo, é a pressão pública e privada que ele tem sofrido nos últimos dias. De um lado, os economistas afirmam que o BC deveria ter maior independência, como o ex-ministro de Economia, Roque Fernández, que disse que o BC está se tornando um órgão do governo, atado às decisões da Casa Rosada. Do outro, além da comissão criada para a reestruturação do sistema financeiro com amplos poderes do Ministério de Economia, o governo também interferiu na diretoria do BC.O presidente não parece estar disposto a ter um BC que não responda ao seu programa de governo, nem ter funcionários que não lhe sejam leais. Por isso, retirou ontem do Senado, os pedidos de aprovação de dois diretores do BC: Rafael Norberto Iniesta e Ricardo Abel Ferreiro. Os pedidos de aprovação se encontravam na comissão do Senado, mas Kirchner, ao retirá-los, anunciou que estes serão substituídos. Segundo fontes do governo, Ferreiro é um homem ligado ao menemismo, enquanto que Iniesta é ligado ao peronismo de Buenos Aires, sem conexão com Kirchner ou seus representantes.ArrogânciaMuitos acreditam que a relação do presidente do BC, Prat Gay, com Kirchner e o ministro de Economia, Roberto Lavagna, não poderá ser recomposta e que apesar de seu mandato só terminar em setembro de 2004, uma decisão política poderá afastá-lo do cargo, como fez o ex-ministro Domingo Cavallo com o ex-presidente do BC, Pedro Pou, em 2001. O mercado espera hoje sinais do presidente Néstor Kirchner de ratificação de Prat Gay. Ontem à noite, o chefe de gabinete da Presidência, Alberto Fernández, disse que a declaração de Prat Gay "demonstra uma arrogância que não é bom que se repita".

Agencia Estado,

29 de maio de 2003 | 11h21

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