O primeiro hacker

Uma história com mais de 100 anos, envolvendo Marconi, um mágico e Shakespeare

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2018 | 03h00

O avanço inexorável da conectividade entre os equipamentos utilizados diariamente por bilhões de pessoas levou a “Informação” para o centro da cadeia de valor da sociedade moderna. Dados são a matéria-prima da Quarta Revolução Industrial, são o bem mais precioso que indivíduos, universidades, indústrias, governos e organizações possuem - e conforme vimos, estamos caminhando para um futuro no qual a produção, transmissão e armazenamento de um número crescente de dados é inevitável.

Empresas trocam informações diariamente a respeito de processos, patentes, invenções, pesquisas, clientes, mercados, estratégias, demissões e promoções. Nosso DNA digital - senhas, preferências, histórico de compras, programas prediletos, situação financeira, fotos, vídeos, documentos, apresentações - estão espalhados por uma infraestrutura multibilionária nos quatro cantos do mundo, em um complexo sistema de equipamentos e programas. A proteção desses dados, por questões de segurança e privacidade, assume portanto, papel central em uma sociedade interconectada, globalizada e completamente dependente de um fluxo ininterrupto e confiável de informações.

A História das invasões não-autorizadas a sistemas - invasões essas popularmente conhecidas como “hacks” - começou há mais de cem anos, quando uma das tecnologias pioneiras desenvolvidas para interconectar a sociedade estava nos seus primórdios. Em mais uma ironia da História da Ciência, um dos primeiros hackers do mundo - e provavelmente o primeiro hacker do mundo moderno - foi um inventor e mágico profissional, o inglês Nevil Maskelyne (1863–1924).

Conforme o jornalista inglês Paul Marks relata, em reportagem publicada pela revista New Scientist em 2011, tudo estava pronto para a primeira demonstração de uma nova tecnologia desenvolvida pelo inventor italiano Guglielmo Marconi (1874-1937): a transmissão sem fio de mensagens em código Morse através de longas distâncias. Em um dia de verão do ano de 1903, Marconi estava na localidade de Poldhu, na Inglaterra, pronto para enviar uma mensagem até o auditório da Royal Institution of Great Britain, em Londres, a cerca de 450 quilômetros de distância. Mas antes de Marconi enviar sua mensagem de demonstração, o equipamento em Londres recebeu outra mensagem: inicialmente, a palavra “ratos” repetida várias vezes, e depois trechos de peças de Shakespeare (trata-se de um hack britânico, afinal de contas) modificados para insultar e provocar Marconi.

Pouco antes do horário marcado para o recebimento da transmissão de Marconi, o hacker encerrou sua transmissão e a demonstração programada ocorreu sem novos incidentes. Mas um dos principais pontos prometidos pela nova tecnologia, reforçado em entrevista do próprio Marconi ao jornal inglês St James's Gazette (fundado em 1880 e absorvido pelo Evening Standard em 1905) era justamente a privacidade das mensagens - algo que foi colocado em dúvida depois do hack. Poucos dias depois, o jornal londrino The Times (fundado em 1785) publicou uma carta do autor da travessura, Nevil Maskelyne.

O autor do livro Wireless, de 2001, Sungook Hong, explica que Maskelyne, um mágico com particular interesse na comunicação sem fio (útil para seus truques), como tantos outros inventores esbarrou nas patentes genéricas depositadas por Marconi e que impediam desenvolvimentos da área realizados por terceiros. Desnecessário dizer que Maskelyne não era o maior fã de Marconi. Em sua carta ao The Times, justificou o hack como algo feito “pelo bem do público geral”, visando revelar e corrigir as falhas na segurança deste tipo de comunicação - uma justificativa utilizada até hoje por hackers ao redor do mundo.

Maskelyne havia sido contratado dois anos antes, no final de 1901, pela Eastern Telegraph Company - responsável pelos cabos submarinos que ligavam o Reino Unido à Indonésia, Índia, África, América do Sul e Austrália - e que poderia ver seu negócio simplesmente desaparecer com o advento da transmissão sem fio na qual Marconi estava trabalhando. De fato, o progresso científico pode impactar dramaticamente negócios bem estabelecidos, a exemplo do que ocorreu com a Kodak e com a Blockbuster.

Este “modelo” de hack é apenas um dos diversos tipos desenvolvidos ao longo dos últimos cem anos. Na próxima coluna - que volta no dia 28 de junho - iremos falar de outras formas através das quais o acesso não-autorizado a sistemas de computação pode ser obtido. Até lá.

 

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificia

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.