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O princípio do lazer

Os jovens que viajam a trabalho querem curtir mais e hotéis se esforçam para atender os desejos dos novos executivos

The Economist, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2016 | 05h00

Para o bem ou para o mal, o começo e o fim dos dias úteis vêm assumindo contornos cada vez mais indistintos. Com os smartphones e o Wi-Fi, nem na cabine de um avião, que até pouco tempo atrás era o último refúgio dos viajantes corporativos, a pessoa consegue ter um pouco de paz e sossego. Mas essa não é uma via de mão única. Às vezes, o lazer dá as caras em pleno expediente.

Quanto mais os jovens viajam a trabalho, mais os hotéis e assemelhados têm de se esforçar para satisfazer seus desejos. Em relatório publicado recentemente, a Skift, empresa que acompanha as tendências no mundo das viagens, diz que os jovens executivos de hoje em dia são pessoas “sociáveis, volúveis, narcisistas e obcecados por design”. Atendê-los implica oferecer mais que uma cama, uma sala de reuniões com buffet e o primeiro voo de volta para casa.

A rede de acomodações Lindenberg é um exemplo disso. Com 27 quartos, o seu Libertine Lindenberg, inaugurado em março em Frankfurt, têm espaços coletivos de lazer e culinária ? incluindo aulas com um chef na noites de quinta-feira e organiza atividades em grupo para quem gosta de praticar corrida de rua. O edifício abriga também um estúdio de gravações e uma agência de publicidade, o que garante um burburinho constante. Alguns dos quartos são alugados por vários meses. O resultado é algo semelhante a um albergue para adultos, de alto padrão, reunindo num mesmo lugar moradores, viajantes corporativos e turistas.

Fanina Karabelnik, que elaborou o plano de negócios do empreendimento, diz que inicialmente a rede esperava atrair para suas “comunidades de hóspedes” pessoas ligadas a atividades de criação. Mas, como o prédio está localizado no centro bancário de Frankfurt, o conceito começou a despertar o interesse de empresários e executivos do setor financeiro em busca de mudanças na rotina do dia a dia.

A Lindenberg não está sozinha. A rede Citizen M, com sede em Amsterdã, oferece quartos pequenos mas “lobbies com jeito de sala de estar”. Por sua vez, a Ikea e o Marriott se associaram para criar os hotéis Moxy, que acenam com “salas de estar coletivas, onde a animação é constante e sempre há alguma coisa acontecendo”. No momento, a rede opera com cinco unidades, devendo inaugurar mais quatro ainda este ano e outras 25 em 2017.

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Segundo estudo, os jovens executivos de hoje são pessoas 'sociáveis, volúveis, narcisistas e obcecadas por design'
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Estudo recente da operadora de cartões de crédito Barclaycard atribui as mudanças ao “efeito do lazer”. Hábitos criados em períodos de férias e o desejo de experiências mais personalizadas começam a se fazer presentes na esfera profissional. Em suas viagens de negócios, os jovens têm maior tendência a mesclar trabalho com prazer. Estudo realizado em 2014 pela operadora online de viagens Hotwire e pela Egencia, especializada em viagens de negócios, indica que, entre os executivos na faixa de 18 a 34 anos, 56% costumam estender as viagens profissionais para incluir algum tempo de lazer. Entre os executivos mais velhos, o porcentual cai pela metade.

Isso significa que a separação entre as horas de trabalho e as de lazer já não é tão nítida. Também aponta para o desejo de economizar. Em cidades que atraem grande número de viajantes corporativos, o preço das acomodações cai nos fins de semana. O estudo da Hotwire, que se restringe aos Estados Unidos, informa que em Houston, os US$ 154 que há dois anos eram cobrados durante a semana por um quarto num hotel quatro estrelas, caíam para US$ 69 entre sábado e domingo; em Atlanta, o quarto que custava US$ 112 de segunda a sexta-feira, saía por US$ 64 no fim de semana.

O Airbnb também quer explorar esse novo mercado. No ano passado, o site de compartilhamento de acomodações lançou um serviço voltado para viagens corporativas. Agora, as operadores de viagens podem fazer reservas em nome de seus clientes e buscar os tipos de apartamentos ou outras acomodações que os executivos gostam de frequentar quando estão viajando a trabalho.

Fazendo eco ao estudo da Hotwire, o site diz que as viagens corporativas duram, em média, seis dias, o que significa que pelo menos parte da estadia avança pelo fim de semana adentro. O faturamento com viagens de negócios no setor de compartilhamento de acomodações ? que inclui também sites como VRBO e HomeAway cresceu 56% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com igual período de 2015, informa a empresa de gestão de viagens Concur.

De volta a Frankfurt, a Lindenberg também está expandindo sua operação. Às suas unidades atuais, de 10 e 27 quartos, a rede acrescentará no ano que vem um edifício com 50 quartos em Mannheim e um hotel de 100 quartos no bairro de Ostend, na zona oeste de Frankfurt. Coincidentemente, e em sintonia com os tempos, esse último será vizinho de um novo Moxy Hotel, da parceria Marriott/Ikea. Para alguns, as viagens a trabalho têm cada vez mais um quê de curtição.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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