Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

'O problema da economia não é o juro, é a falta de vacinas', diz economista

Para Armando Castelar, País só vai encontrar um rumo na economia com o avanço da vacinação e o fim dos desgastes do governo federal com Estados e municípios

Entrevista com

Armando Castelar, economista do Ibre/FGV

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2021 | 19h15

O aumento dos juros básicos é a forma de o Banco Central dar sinais de atenção para a alta preocupante da inflação nos últimos meses, segundo análise do coordenador de Economia Aplicada, do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), Armando Castelar. Nesta quarta-feira, 17, o BC elevou a taxa Selic de 2% para 2,75% ao ano.

O economista lembra que os juros reais negativos (uma vez que não conseguem superar a inflação) não têm sido suficientes para animar a atividade econômica e que o País só vai encontrar novamente um rumo com o avanço do programa de vacinação e o fim dos desgastes provocados pelo governo federal contra Estados e municípios. A seguir, trechos da entrevista:

Era hora mesmo de aumentar os juros?

É o movimento correto, a inflação tem surpreendido para cima e uma reação do Banco Central controla as expectativas e evita que ela continue subindo. Os preços subiram pela questão dos alimentos, mas o petróleo também começou a subir muito, o que pressionou bastante o preço da gasolina. Alguns serviços, como planos de saúde, quase não tiveram reajuste no ano passado, mas esse aumento vem este ano. Muito do que foi subtraído no ano passado virá em 2021. Há outra questão relevante: a inflação acumulada em 12 meses vai bater em 7% em maio, o que impacta nas expectativas. Quando se olha para os resultados mês a mês também, a inflação surpreendeu para cima. A questão imposta ao BC é reagir para mostrar que ele está atento.

Os cortes recentes da Selic foram além do necessário? 

O corte lá atrás foi maior do que o necessário. Ao reduzir os juros para 2% ao ano, gerou-se um risco maior de ter de subir a Selic antes que a pandemia estivesse resolvida. Agora, o risco se mostrou verdadeiro. O resultado é que se acelerou a necessidade de um aumento mais forte, com todas as consequências disso. Talvez o melhor tivesse sido cortar juros até 3% e esperar um pouco. Mas isso não é uma crítica de que foi feita errada.

Como um novo ciclo de alta de juros pode impactar na dívida pública?

A dívida vai se complicar bastante, pois os juros estão subindo lá fora, com a vitória dos democratas nos Estados Unidos, o pacote fiscal e a vacinação. Isso já era percebido nos juros mais longos e vai ter um efeito significativo na Selic e na dívida. Mas os juros reais (descontada a inflação) ainda estão negativos, o que a gente está falando é que é preciso que eles deixem de ser tão negativos. Levar a Selic para 5,5% no fim do ano, por exemplo, não seria uma catástrofe. 

Juros mais altos não devem ter um impacto forte na atividade econômica? A economia freou no fim do ano passado e devemos ter um primeiro trimestre já muito ruim.

Tem um efeito direto negativo sobre os custos de financiamento, mas reduz as incertezas. Não saber se o governo está atento à inflação também gera incertezas para o investidor. Mas, para além dos juros, o que está fazendo a economia travar é a pandemia, é a falta de vacinação. Os juros reais negativos de agora não têm tido um impacto grande na atividade econômica. Com os juros reais em 3% negativos, a economia deveria estar bombando. Não está, pois não é o juro que está segurando a economia. A economia está completamente dependente da vacinação, quanto antes ela acontecer, mais rápido o emprego vai se recuperar também. A tendência é que a curva de juros futuros fique menos inclinada e isso dará mais segurança e previsibilidade. Se eles não mostrarem que estão atentos à inflação, não tem como passar um sinal de segurança para a população.

Com o caos nas UTIs em todo o Brasil e o programa de vacinação em ritmo lento, corremos o risco de que 2021 seja um ano perdido?

A economia vai se sair melhor no segundo semestre, estou otimista com relação a algum avanço na vacinação. Se metade do que se está prometido na compra de vacinas for entregue, vai ser bem melhor. Mas a primeira metade do ano vai ser muito ruim e tem muita heterogeneidade entre setores. O câmbio desvalorizado está sendo positivo para a indústria, mas não há uma tendência para a melhora dos serviços, em geral, principalmente transporte aéreo e turismo, e o comércio teve uma parada no começo do ano também. Talvez o País tenha até uma recessão técnica (dois trimestres seguidos de recuo no PIB) neste início de ano, mas que pode se reverter, em partes, no segundo semestre. Só que o desemprego ainda deve ser agravado ao longo de 2021.

Por diversas vezes, o presidente Jair Bolsonaro opôs o controle da pandemia à proteção da economia. Essa escolha entre pandemia e economia era real?

Eu não acho que seja assim e uma pandemia tem vários estágios. O lockdown tem impacto imediato na redução da atividade econômica, é fato, mas o que se passou a fazer em outros países foi um fechamento mais inteligente, de madrugada, e mais pontual, escolhendo bem o tipo de serviço interrompido. E a saída é combinar essas restrições ao estímulo ao uso de máscara, medidas de higiene, distanciamento etc. Depois do susto inicial no segundo trimestre do ano passado, o segredo está em fazer direito. No Brasil, porém, há uma briga entre governo federal de um lado e Estados e municípios do outro, com um encorajamento a não usar máscara e não tomar o cuidado de evitar aglomerações. O resultado é a pandemia ter ficado muito maior do que deveria estar, até por ter chegado ao Brasil depois de vermos o que aconteceu na Europa e nos Estados Unidos. É o pior dos mundos. Se tivesse sido feito um esforço pelas vacinas há seis meses, estaríamos em outra situação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.