'O problema não se resume ao fiscal', afirma Paulo Leme

Para presidente do Conselho de Administração do Goldman Sachs, a economia brasileira tem problemas bem mais complexos, que estariam sendo tratados de forma simplista

Entrevista com

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2014 | 02h10

Para o presidente do conselho de administração do banco americano Goldman Sachs no Brasil, Paulo Leme, o País deve ajustar a economia o mais rápido possível para evitar uma queda mais acentuada no crescimento e o desemprego. "É como na corrida de táxi - fica mais cara quanto mais tempo você roda", explicou, na entrevista a seguir:

Alguns economistas dizem que o Brasil caminha para uma crise. O sr. concorda?

PAULO LEME - Não. Você precisa ver que a escala da economia brasileira é grande em termo de trilhões de dólares de PIB: US$ 2,2 trilhões, US$ 2,3 trilhões. Então, em termos de escala, é uma economia expressiva no contexto global. Ela não faz curvas fechadas como uma lancha. É um petroleiro que tem inércia para fazer as curvas. Por causa das condições iniciais, dados os grandes avanços que foram feitos em vários governos, não só do PSDB, mas também do próprio PT, a economia brasileira tinha uma boa condição: um estoque altíssimo de reservas, da ordem de US$ 375 bilhões, um sistema financeiro muito sólido, a confiança do empresariado no Brasil e do investidor estrangeiro. Esses são ativos com vida longa. É difícil você abater uma economia desse tamanho e com essas condições em três semanas. O processo de deterioração é gradual. A economia vai ficando mais vulnerável. Mais dependente de condições externas: do que ocorrer com a política monetária dada pelo Fed (Banco Central do Estados Unidos), pelo Banco Central Europeu, pelo preço das commodities (matérias-primas agrícolas e minerais). Ou seja: a probabilidade de você ter uma crise em 12 meses é baixa. Agora, existem, sim, desequilíbrios na economia. É preciso fazer ajustes. Buscar um novo enfoque tanto macroeconômico, quanto microeconômico. E, quanto mais cedo se fizer isso, melhor, porque os custos do processo serão menores. Se você esperar, por exemplo, um ano, um ano e meio, quando o Fed estiver no preâmbulo de subir a taxa de juros, o processo de ajuste será mais profundo em termos de desemprego, de contração da atividade econômica. Mas se de uma maneira proativa, profilática, reduzir a demanda agregada e o câmbio, permitir que a taxa de juros reflita as condições de mercado para baixar a inflação, acredito que o País vai estar muito bem preparado. E vai pagar um custo menor - todo processo de ajuste tem um custo. O custo a valor presente em termos de PIB destruído e de desemprego será mais alto se o País esperar um ano ou dois e for forçado pelas condições externas a fazer esse esforço. É como bandeirada de táxi - quanto mais você corre com desequilíbrios, mais caro sai a conta.

Quais são os desequilíbrios?

PAULO LEME - Nos comentários econômicos e na discussão dos analistas, o problema tem tido um enfoque simplista, como se fosse resumido à questão fiscal. Mas é mais complexo. Há um colapso na produtividade. Os números mostram. Sai de algo próxima a 2,4% ao ano para abaixo de 0,5%. Temos queda do PIB - foi de 4,5%, em média, há cinco anos, para perto de 2%. A poupança também caiu - quase 4 pontos porcentuais do PIB. Vemos um descompasso entre uma economia que consome muito e investe pouco. Há deterioração expressiva do balanço de pagamento - ainda em andamento. Dependendo dos fluxos de capitais, que estão em tendências de queda - inclusive do investimento direto estrangeiro -, o déficit será expressivo neste ano, da ordem de US$ 15 bilhões, E temos uma inflação reprimida, beirando o teto da banda.

Qual seria a dimensão do ajuste: desvalorização maior do dólar, queda dos salários reais, uma parada da economia?

PAULO LEME - A resposta não é simples, apesar de as soluções serem claras para qualquer bom aluno de graduação. Na parte macro, seria preciso corrigir os desequilíbrios de inflação e de balanço de pagamentos - e isso se faz reduzindo gastos do governo, a expansão do crédito, os salário e a taxa de câmbio. Pelo lado microeconômico, seria preciso eliminar as distorções de preços relativos, de subsídios, dos juros. A parte estrutural exigiria a retomada de reformas que foram abandonadas e dos investimentos em infraestrutura. Um modelo mais liberal poderia acelerar o processo. O êxito das últimas concessões mostra que os ativos são muito atraentes. Estamos sempre em contato com investidores e eles esperam mais clareza e transparência para entrar. Na parte da produtividade, são necessárias reformas no Judiciário e na lei trabalhista, que possam reduzir o custo unitário da mão de obra. É preciso uma reforma tributária que reduza a carga e torne o regime mais eficiente. Ou seja: gastar menos para arrecadar menos.

Pela sua experiência, qual a probabilidade de o governo fazer o ajuste em ano de eleição?

PAULO LEME - É baixíssima. E não está claro qual seria o rumo, seja no caso da reeleição deste governo ou da eleição de outro.

Como o investidor estrangeiro está vendo o cenário eleitoral?

PAULO LEME - Muito próximo do que dizem as pesquisas eleitorais - que é cedo para fazer julgamentos, porque estamos em fevereiro. A campanha eleitoral efetivamente ainda não começou. Mas a avaliação é que a presidente vai ser reeleita.

E qual a expectativa em relação a um novo mandato?

PAULO LEME - Na opinião dos investidores estrangeiros, que seria a continuidade do atual governo. Não haveria mudanças expressivas na orientação microeconômica, na política macroeconômica e a presença do Estado na economia permaneceria bastante ativa.

Qual a sua análise sobre as manifestações da sociedade?

PAULO LEME - Eu acho que elas têm um impacto direto sobre a atividade econômica. Por exemplo: você deixa de fazer compras num shopping na Avenida Paulista porque sabe que haverá uma manifestação às 17h. As pessoas deixam de circular, de consumir. As manifestações também deprimem o estado de ânimo e criam incertezas - e, na incerteza, as pessoas adiam decisões importantes de consumo e investimento.

As manifestações também levaram ao represamento de reajustes de preços, como o da passagem de ônibus. Isso afeta o ânimo dos empresários?

PAULO LEME - Numa sociedade em que a oferta de bens é finita - bens são escassos por definição -, os preços precisam refletir a escassez. No caso do ônibus, estamos falando da gasolina, do salário e de outros insumos que entram na composição de uma corrida. Quando o preço relativo do serviço é distorcido, o resultado é que se vai investir menos naquela atividade. No futuro, você não terá o transporte na qualidade que gostaria, pode nem ter o transporte ou vai pagar muito mais caro por ele. Não tem almoço grátis. É isso que a sociedade precisa entender. Toda ação no plano econômico tem uma consequência - e essas consequências não têm tido o debate que merecem.

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