Paul J. Richards/AFP
Paul J. Richards/AFP

O processo de invenção, ontem e hoje

Registros de patentes revelam que a maneira como os produtos são criados mudou no decorrer dos anos

O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2015 | 02h05

No século 19, os inventores eram heróis. Stephenson, Morse e Goodyear, entre outros, formaram a tropa de choque da Revolução Industrial. Suas ideias contribuíram para arrastar a humanidade da pobreza agrária para a riqueza manufaturada. Hoje, contudo, superestrelas da invenção, mesmo não estando ausentes, são raras.

Isso porque, em parte, o processo de invenção mudou desde o século 19. Não observamos uma desaceleração no crescimento do número de patentes expedidas anualmente, mas a introdução de classes de tecnologia fundamentalmente novas é mais rara do que no passado.

A tecnologia da informação com certeza transformou o momento presente. Mas as ferrovias, o telégrafo elétrico, a fotografia, a telefonia fixa, o automóvel e os setores químicos e de siderurgia, cada um separadamente, produziram transformações tão importantes como as provocadas pela tecnologia da informação. Talvez o processo de invenção tenha sido realmente mais heroico na era vitoriana.

Ter a impressão de que alguma coisa mudou não prova que a mudança realmente ocorreu. Para isto você necessita de dados. E, num documento publicado no Journal of the Royal Society Interface, Youn Hyejin, da Universidade Oxford, e seus colegas, forneceram algumas.

A invenção tem origem de duas maneiras. A lâmpada de Thomas Edison, por exemplo, não foi tanto produto de um momento de descoberta, do "estalo", representado pela metáfora da lâmpada, mas da junção de componentes pré existentes - eletricidade, um filamento aquecido, um vácuo e um invólucro de vidro. Nada disto era novidade nos anos 1870, mas nas mãos de Edison a combinação transformou-se numa invenção patenteável. Contrariamente, o transistor de William Shockley, inventado 70 anos mais tarde, envolveu muitos elementos da nova física na qual Shockley e seus colegas tiveram de se aprofundar por si próprios. Entretanto, ambos os dispositivos mudaram o mundo (o de Shockley tornou-se o elemento com base no qual a Tecnologia da Informação foi criada). Juntos eles exemplificam os dois aspectos que existem, em diferentes proporções, em qualquer invenção de sucesso: descoberta e recombinação.

Inventividade. A Dra. Youn averiguou o equilíbrio existente entre essas coisas e como isto mudou. Ela extraiu seus dados do USPTO - United States Patent and Trademarks Office (Escritório de Marcas e Patentes dos Estados Unidos) -, que não é um perfeito indicador da inventividade, mas provavelmente um bom substituto. Ali os responsáveis separam os documentos das patentes em dois grupos com base no assunto comum. Para isso, classificam as várias tecnologias responsáveis pela novidade do invento usando uma combinação meticulosa de códigos.

Cada grupo de assuntos no programa do USPTO inclui um componente maior chamado classe e um menor chamado subclasse. Uma classe diferencia uma tecnologia de outra. As subclasses delineiam processos, características estruturais e funcionais da tecnologia naquela classe particular. Um par classe/subclasse, digamos 135/206, para a classe 136 (baterias, termoelétrica e fotoelétricas) e a subclasse 206 (tipo energia solar) - é um código único e cada patente é identificada por pelo menos um desses códigos. O departamento tem registros de tais códigos que remontam a 1790.

No geral, esses registros cobrem 474 classes e mais de 160 mil códigos.

Somente quando chega uma proposta de patente que não pode ser inserida na classificação existente é que uma nova é criada.

Quando a Dra. Youn e seus colegas examinaram os arquivos de patentes do escritório americano descobriram que quase metade das patentes expedidas pelos Estados Unidos durante o século 19 foram para invenções de um único código. Hoje, ao contrário, nove décimos são para invenções que combinam pelo menos dois códigos. O número de códigos e o número de patentes cresceram exponencialmente, na mesma proporção, até os anos 1870 (mais ou menos à época da lâmpada de Edison). Depois disso, o número de códigos novos criados diminuiu fortemente e o de novas patentes ligeiramente. Mas a introdução de novas combinações de códigos continuou a expandir em sintonia com o número de patentes outorgadas. O que sugere que hoje a invenção avança principalmente por meio da recombinação de tecnologias, o que é coerente com a noção de que as invenções foram, num certo sentido, mais fundamentais no passado do que hoje.

Biotecnologia. Esta explosão combinatória sem dúvida reflete em parte o fato de que o número de possíveis combinações cresce mais rápido do que o número de códigos nos quais elas se baseiam. Mas que isto tenha realmente ocorrido não havia sido demonstrado antes.

O que ainda precisa ser averiguado é se a biotecnologia mudará as coisas. Até agora muitas invenções foram baseadas na física ou na química. Hoje o entendimento que temos da biologia é mais ou menos similar à compreensão das ciências físicas no século 19.

A biologia, assim, está totalmente pronta para produzir um novo grupo de classes de patentes - possivelmente para coisas (computadores neurológicos?) tão inimagináveis para as pessoas nos dias atuais quanto foi o telefone para o soldado na batalha de Waterloo. Então, talvez surja uma nova geração de inventores heroicos.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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