O projeto Europa fracassou?

A crise europeia da dívida não é apenas uma crise econômica: é um conflito de identidade cada vez mais amplo - um conflito étnico

O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2012 | 03h06

Artigo

Na semana passada, os líderes europeus reuniram-se em Berlim enquanto se acumulavam os sinais de uma iminente recessão e de um possível consenso sobre a saída da Grécia da zona do euro no prazo de um ano - decisão que poderá ter consequências nefastas para o futuro da moeda.

Há muitas razões por trás da crise, desde a corrupção e a irresponsabilidade coletiva na Grécia até a rigidez das instituições europeias e o conceito equivocado de união monetária sem união fiscal. Mas essa história não trata de gastos descontrolados e de uma rígida política monetária. A crise europeia da dívida não é apenas uma crise econômica: é um conflito de identidade cada vez mais amplo - um conflito étnico.

União Europeia era um conceito político, criado para domar a belicosa Alemanha. Acreditava-se que as instituições da união cultivariam uma forte interdependência econômica e uma identidade europeia comum, e os europeus se beneficiariam da prosperidade econômica propiciada pela integração.

As elites podiam vender o conceito ao seu público enquanto a Europa prosperasse e desfrutasse de elevado status internacional. Mas a união perdeu o seu brilho; hoje, ela está desacelerando e envelhecendo. Seu antigo aliado, os Estados Unidos, já transfere suas atenções ao Leste Asiático. E sua política de defesa comum é superficial.

À medida que o status da Europa declinar, a já abalada identidade europeia enfraquecerá ainda mais e os cidadãos das nações mais ricas buscarão uma identificarão em termos nacionais - como alemães ou franceses - e não como europeus. Desse modo, aumentará a relutância em utilizar seus impostos para salvar países etnicamente diferentes do sul da Europa, principalmente os gregos, tão distantes em termos culturais; e minguará qualquer perspectiva de integração fiscal para salvar o euro.

O resultado é um círculo vicioso: à medida que as identidades étnicas voltam a se manifestar, as diferenças étnicas tornam-se mais acentuadas, e todas as partes recorrem a estereótipos e à estigmatização do adversário pela língua ou por ações para degradar o inimigo e justificar atos hostis. Trata-se de um processo comum nos conflitos étnicos em todo o mundo, e hoje se tornou evidente também na Europa.

A transição para o conflito étnico na Europa não é violenta, mas pode ser destrutiva, tanto em termos econômicos quanto políticos. É o caso das tensões entre Grécia e Alemanha. Pesquisa recente mostra que a maioria dos alemães quer a Grécia fora do euro, se ela não adotar rapidamente as reformas, embora a maioria dos analistas afirme que a saída da Grécia teria custos incalculáveis para a Alemanha. Evidentemente, algo mais profundo motiva os alemães.

Estudo recente dos cientistas políticos Michael Bechtel, Jens Hainmüller e Yotam Margalit concluiu que as atitudes dos eleitores alemães em relação às operações de salvamento podem ser explicadas por seu grau de "cosmopolitismo", ou o grau no qual eles se identificam com grupos distantes em termos geográficos ou culturais. Quanto mais cosmopolitas forem os indivíduos, maiores serão as probabilidades de apoiarem a ajuda aos vizinhos da Alemanha, no sul do continente.

Infelizmente, o cosmopolitismo pode ser a primeira vítima das tensões étnicas, fortalecendo a posição dos extremistas. Exemplos dessa estigmatização na Europa são abundantes, desde o acrônimo depreciativo PIGS, usado em referência a Portugal, Itália, Grécia e Espanha, até as já gastas analogias com enfermidades, como uma eventual contaminação do Norte por causa do contágio do Sul. Os alemães pretendem ensinar aos gregos como devem viver; os gregos retrucam chamando-os de nazistas.

Este não é apenas o resultado de um desgaste econômico ou do medo. É o ressurgimento de identidades nacionais controladas a duras penas, que a União Europeia esperava banir. É verdade que muitos gregos, principalmente os que vivem no exterior, ainda preferem ater-se à regra europeia quanto à necessidade de "tomar o remédio" prescrito pelos "médicos" europeus, por mais doloroso que seja.

Por quê? Alguns temem a revolta social de uma transição para a dracma. Outros temem que políticos populistas abandonem as reformas estruturais. Mas a psicologia social sugere que muitos gregos poderiam se agarrar aos últimos farrapos de identidade europeia, pois isso lhes proporciona maior autoestima do que a alternativa - a identidade com o Médio Oriente ou os Bálcãs que há dezenas de anos tentavam abandonar.

Os alemães precisam ter uma franca discussão pública sobre o que significa ser europeu e como os bons cidadãos europeus deveriam se comportar em relação a outros europeus, e sobre o motivo pelo qual uma Europa forte é boa para os interesses alemães em um mundo dominado por Estados Unidos, China e pelas potências emergentes como Índia e Brasil. Sem essa discussão, e sem concessões reais para a Grécia, a saída desta será inevitável - e com ela o triunfo da visão estreita na Europa.

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