Anindito Mukherjee/Reuters
Anindito Mukherjee/Reuters

O protecionismo não protegerá emprego em nenhum lugar

Problemas enfrentados pela Ásia em desenvolvimento ameaçam pôr pressão enorme sobre os salários globais

Kenneth Rogoff*, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2017 | 05h00

CAMBRIDGE - Os líderes europeus e dos Estados Unidos inquietos com o futuro dos empregos de qualidade devem ter em mente os problemas muito mais graves enfrentados pela Ásia em desenvolvimento – problemas que ameaçam pôr uma pressão enorme sobre os salários globais. Na Índia, onde a renda per capita é de cerca de um décimo da registrada nos Estados Unidos, mais de dez milhões de pessoas deixam o campo a cada ano e se estabelecem nos centros urbanos, e não conseguem encontrar trabalho, nem mesmo como ambulantes, muito menos como programadores de computadores. A mesma ansiedade que americanos e europeus têm quanto ao futuro do emprego é muito maior na Ásia.

A Índia deve seguir o tradicional modelo de exportação de manufatura, explorado primeiramente pelo Japão e depois adotado por muitos países, inclusive a China? E o que resultará disso nos próximos anos e décadas se a automação tornar obsoletos muitos desses empregos?

Naturalmente há o setor de serviços, que emprega 80% da população das economias avançadas, e o setor de terceirização da Índia ainda está em primeiro lugar no mundo. Infelizmente, nesse caso, o caminho também é difícil. A automação já suplantou uma parte substancial das atividades dos centros telefônicos e muitos empregos na área de programação de rotina também perderam espaço para os computadores.

O avanço econômico da China foi o grande evento dos últimos 30 anos, mas o país depara com desafios similares. Embora a China seja muito mais urbanizada do que a Índia, são dez milhões de pessoas por ano que chegam às cidades. Com empregos perdidos para a automação e para países concorrentes onde os salários são ainda mais baixos, como Vietnã e Sri Lanka, integrar os novos trabalhadores fica cada vez mais difícil.

Recentemente, o aumento do protecionismo global agravou uma situação já difícil, e exemplo disso foi a decisão da Foxconn (a maior provedora da Apple) de investir US$ 10 bilhões em uma nova fábrica em Wisconsin. Sem dúvida, os 13.000 novos empregos nos Estados Unidos são uma gota no oceano em comparação com os 20 milhões (ou mais) que Índia e China precisam criar a cada ano, ou mesmo comparados com os dois milhões de empregos que os Estados Unidos necessitam gerar.

Estados Unidos e Europa possivelmente têm escopo para tornar o comércio mais justo, como Trump disse que faria. Por exemplo, muitas siderúrgicas chinesas possuem controles de poluição de última geração, mas são desligados para reduzir os custos. Quando essa produção excessiva é despejada nos mercados mundiais e vendida a preços baratos, os países ocidentais têm todas as justificativas para adotar medidas defensivas.

Infelizmente, a longa história do protecionismo global nos ensina que tais medidas assumem a forma de um ataque cirúrgico. Com muito mais frequência os principais beneficiários são os ricos e as pessoas politicamente relacionadas, ao passo que os prejudicados são os consumidores, que terão de pagar mais pelo que compram.

Países que têm se isolado muito para a concorrência estrangeira acabam em posição de desvantagem, com a perda de inovação, empregos e crescimento baixo. Brasil e Índia, por exemplo, sempre sofreram por causa de políticas comerciais fechadas, embora tenham aberto mais suas economias nos últimos anos.

Outro problema é que muitas economias ocidentais estão profundamente entrelaçadas nas cadeias de suprimento globais. Mesmo o governo Trump teve de reconsiderar seus planos de sair do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) – ao perceber que grande parte das importações feitas pelos Estados Unidos do México tem substancial conteúdo americano. Estabelecer barreiras tarifárias será prejudicial para o emprego nos EUA e também no México. E, naturalmente, se os Estados Unidos aumentarem drasticamente suas tarifas de importação, grande parte do custo será repassado para os consumidores, que terão de pagar mais pelos produtos.

O comércio envolverá cada vez mais o setor de serviços também. O Mechanical Turk, da Amazon (nome que vem do chamado Turco Mecânico, um robô jogador de xadrez criado no século 18 e que na verdade tinha um humano escondido nele) é exemplo de uma nova plataforma que permite aos compradores contratarem tarefas específicas muito pequenas (como programação ou transcrição de dados) pagando um salário muito baixo. O slogan da Amazon é “inteligência artificial".

Mesmo se os protecionistas conseguirem reduzir a terceirização de tarefas, qual será o custo disso? Com certeza as plataformas de serviço online precisam ser regulamentadas, como ficou demonstrado no caso do Uber. Mas diante do imenso número de empregos novos que China e Índia necessitam criar a cada ano, e com a internet continuando muito permeável, é uma loucura achar que as economias avançadas podem restringir severamente as exportações de serviços.

Então, como os países devem enfrentar o avanço implacável da tecnologia e do comércio? No momento, aprimorar a infraestrutura e a educação ajudará muito. Enquanto o resto do mundo enfrentava problemas decorrentes da crise financeira de 2008, a China continuou a ampliar suas vastas redes de suprimento e logística.

Num mundo onde as pessoas provavelmente precisam mudar de emprego com frequência, e às vezes radicalmente, mudanças em grande escala na educação dos adultos são necessárias, especialmente por meio do aprendizado online. E muito importante também, os países precisam adotar medidas com vistas a uma redistribuição mais vigorosa da riqueza por meio e impostos e transferências. Políticas comerciais populistas, como as defendidas por Trump, não deram muito certo no passado e hoje seriam ainda piores. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*EX-ECONOMISTA-CHEFE DO FMI, É PROFESSOR DE ECONOMIA E POLÍTICAS PÚBLICAS EM HARVARD

 

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