O pulo do gato morto?

Quase insustentável leveza do crescimento do segundo trimestre decorreu da acelerada queda inflacionária desde o início do ano

Mônica de Bolle, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2017 | 05h00

Dizem que até um gato morto pula quando é arremessado de grande altura. O PIB brasileiro, e, mais especificamente, o consumo das famílias brasileiras, foram arremessados de grande altura nos últimos dois anos. Quando isso ocorre, é natural que os próprios mecanismos de auto-estabilização da economia promovam surto de melhora. O PIB do segundo trimestre de 2017 cresceu 0,2% na comparação com o primeiro trimestre do ano. O resultado veio em decorrência da alta do consumo, a primeira depois de 9 trimestres consecutivos de retração. O governo quer enfeitar a notícia dizendo que o ocorrido proveio das reformas. Mas, que reformas? Os rombos fiscais foram aumentados, a dívida brasileira não para de subir, a reforma da Previdência está empacada no Congresso. Não, não foram as reformas.

A quase insustentável leveza do crescimento do segundo trimestre decorreu da acelerada queda inflacionária desde o início do ano, o que ajudou a recompor os salários daqueles que estão empregados. A queda inflacionária, por sua vez, é em parte mecanismo auto-corretivo e endógeno – isto é, resultou da própria recessão – e em parte derivada da atuação do Banco Central. O quanto da queda dos preços se deve a um ou outro fator sujeito está a controvérsias. Mas, é provável que a relação com a brutal recessão do País seja mais forte.

Com a parcial recomposição dos salários, o consumo teve impulso. E, não há dúvida de que a devolução do FGTS também ajudou as compras das famílias no segundo trimestre. Ante a perspectiva de que a queda inflacionária se estabilize, e dado que não haverá mais liberação de FGTS, o ímpeto ao consumo tenderá a dissipar-se nos próximos meses.

No mais, caiu o investimento, encolheu a indústria, as receitas do governo não param de apresentar surpresas negativas. Portanto, falar em recuperação com base nesse que seria chamado de “Pibinho” fosse Dilma ainda a Presidente, é para lá de prematuro.

Pensando em gatos, o PIB brasileiro é o verdadeiro gato de Schrödinger: dentro da caixa fechada (e preta) que é o Brasil, ele pode estar morto e vivo ao mesmo tempo.

* ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS

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