Evelson de Freitas/Estadão
Evelson de Freitas/Estadão

O quão profundo é o amor deles?

Aliança do Pacífico é uma grande marca na busca de um produto a ser compartilhado

O Estado de S.Paulo

15 de março de 2015 | 09h05

Os prolixos anais da integração latino-americana, a Declaração de Lima de abril de 2011, se sobressaem pela rara combinação de brevidade e impacto. Em menos de três páginas, os presidentes de Chile, Colômbia, México e Peru decidiram criar a Aliança do Pacífico, tendo como objetivo promover uma "profunda integração" das economias por meio da livre movimentação de produtos, serviços, capital e mão de obra, do fortalecimento dos vínculos com o mundo, particularmente com a região do Pacífico Asiático.

Os quatro membros agiram rápido. Assinaram um acordo em 2013 abolindo tarifas sobre 92% do comércio de mercadorias, com o remanescente a ser também liberado em 2020. Eliminaram as exigências de visto de turismo para cidadãos dos respectivos países e abriram algumas embaixadas compartilhadas no exterior. As Bolsas de Chile, Colômbia e Peru se uniram para criar uma bolsa de valores chamada Mila, à qual a do México passará a integrar em janeiro.

No seu curto período de vida, a Aliança do Pacífico causou forte impacto, atraindo como observadores 34 países de seis continentes. Este mês, no Diálogo de Cartagena, conferência nesta cidade organizada pela Colômbia e pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos - grupo de estudos sediado em Londres -, diversas autoridades asiáticas insistiram para que a Aliança admitisse seus países como membros plenos.

Dois fatores chamaram a atenção dos estrangeiros. A primeira é que os governos membros assumiram um compromisso conjunto com os livres mercados, o livre-comércio e a democracia. O que os distingue de governos mais protecionistas, mais estatais, e em alguns casos autoritários, do Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela.

E, enquanto três economias do Mercosul (Brasil, Argentina e Venezuela) estão em recessão ou próximos dela, as economias da Aliança do Pacífico continuam crescendo, mesmo que mais lentamente do que no passado.

A segunda atração da Aliança. Ela engloba 200 milhões de pessoas, representa 35% do Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina e metade das suas exportações. É um segundo Brasil, seus promotores salientam com frequência. Salvo que não é.

Na realidade, os membros da Aliança do Pacífico, separados por vastas distâncias e com comunicações precárias, têm poucos vínculos econômicos. O comércio entre os países é uma minúscula - e vem diminuindo ligeiramente - porcentagem do comércio total dos seus membros. Se existe um equivalente latino-americano da cadeia de suprimento do setor de manufatura do Leste Asiático, não vamos encontrá-lo no âmbito dessa aliança, mas na integração do México com os Estados Unidos. Mesmo o comércio entre os países dentro do Mercosul é mais importante como uma parcela do total do grupo do que o da Aliança (apesar de estar também caindo). E, para decepção dos investidores nos quatro países, a Mila vem cambaleando porque a harmonização das regras não avança.

Para os otimistas, a Aliança somente agora começa a realizar seu potencial. "Estamos nos descobrindo", diz José Antonio Meade, ministro do Exterior do México, enfatizando o aumento dos acordos comerciais e de turismo entre os quatro países. Maurício Cárdenas, ministro de Finanças do México, vê oportunidades para seus agricultores e fabricantes agora que o boom das commodities acabou e a moeda está mais frágil.

Os quatro membros poderiam também se beneficiar com um trabalho conjunto no campo da inteligência de mercado e facilitação comercial (redução da burocracia, por exemplo). Mas o maior potencial da Aliança é para atrair investimento externo, particularmente da Ásia, onde todos os quatro países têm acordos comerciais. Em Cartagena, autoridades de Japão, Coreia do Sul, países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) e da Austrália mostravam-se especialmente entusiasmados para estreitar as relações - em alguns casos, considerando a Aliança uma maneira de competir com a crescente influência da China na América Latina.

A Aliança do Pacífico parece atônita diante do próprio sucesso diplomático. Seus líderes afirmam que precisam delinear o que desejam e o que podem oferecer para os países observadores. Uma afirmação dos seus valores políticos compartilhados definiria ainda mais a identidade da marca do grupo, o que vai ajudar a atrair investimentos. Nesse caso, o único sinal até agora foi uma política conjunta no campo da mudança climática.

A Aliança é uma resposta tácita para o Mercosul. Mas, com relação ao bloco, os quatro não pensam da mesma maneira. O governo de centro-esquerda do Chile tem afinidade com o Brasil, para onde exporta mais do que envia para todos os membros da sua aliança reunidos.

Além disso, o Chile encorajou os recentes encontros entre os dois blocos para explorarem "uma convergência na diversidade", na expressão canhestra usada pelos chilenos.

As autoridades brasileiras sublinham que o comércio entre seu país com Chile, Colômbia e Peru será quase totalmente livre em 2019. "As visões não são totalmente contraditórias, podem ser complementares", afirmou Celso Amorim, chanceler do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e ex-ministro da Defesa do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. De fato. Mas poderá não ser esse o caso se a Aliança do Pacífico respaldar sua marca promissora pelo fortalecimento da sua identidade política.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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