coluna

Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

O que a Berkshire fará sem Buffett?

Aos 82 anos, investidor consegue uma proeza rara: comprar grandes negócios com desconto

/ THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2013 | 02h08

Nas operações de aquisição de empresas, o vendedor em geral embolsa um ágio sobre o valor de mercado de seus ativos. Mas quando o comprador é Warren Buffett, costuma haver algum tipo de desconto.

A capacidade de fazer aquisições em condições favoráveis é uma prova da personalidade e do talento de negociante de Buffett. Também serve para chamar a atenção para um problema quase insolúvel para a holding Berkshire Hathaway e seus acionistas: quando Buffet, que é o presidente da companhia e está com 82 anos, não estiver mais por aqui, quem fechará negócios tão bons?

Bom exemplo disso é a compra, por US$ 28 bilhões, da H. J. Heinz Company, que a Berkshire Hathaway efetuou em sociedade com o grupo de private equity 3G Capital, fundado pelos brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira. O negócio, anunciado em fevereiro, deve ser concluído até setembro.

A Heinz contou com a assessoria de três bancos de investimentos: Centerview Partners, Bank of America Merryll Lynch e Moelis & Company. Examinando os dados sobre a situação da empresa coletados e divulgados pelos bancos, percebe-se que o preço pago pela Berkshire e pelo 3G não foi alto.

A Berkshire Hathaway e o 3G pagarão um ágio de 19,1% sobre o preço de fechamento das ações da Heinz no dia anterior ao anúncio da aquisição.

É um porcentual inferior ao ágio médio de 31% praticado pelo setor e adotado por um dos bancos de investimento que atuaram na operação ao lado da Heinz, o Centerview Partners, para determinar se a transação era justa.

Os dois compradores também pagarão um múltiplo de 11,9 vezes sobre o Ebtida (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) dos últimos 12 meses da Heinz. Segundo informações divulgadas pelo Bank of America Merrill Lynch, em aquisições similares de empresas de alimentos, a taxa chegou a 15,6 vezes.

Disso se conclui que, pelos dados divulgados pelos bancos, o 3G e a Berkshire pagaram um valor inferior ao de muitos outros negócios realizados no setor de alimentos.

O preço que os dois compradores pagaram pela Heinz não foi dos mais altos, mas foi um preço justo, e ficou proporcionalmente acima do registrado em negócios como a aquisição da Del Monte Foods, por US$ 5,3 bilhões, pela Kohlberg Kravis Roberts em 2010, uma operação em que o múltiplo foi de nove vezes.

Vantagens. O que torna a transação realmente vantajosa para a Berkshire, porém, são as condições que a empresa de Buffett obteve para realizar seu investimento. Além de repartir o capital aportado com o 3G - cada comprador entrou com US$ 4,2 bilhões -, a Berkshire investiu US$ 8 bilhões em ações preferenciais.

Esse detalhe das ações preferenciais configura um "negócio da China". O investimento paga um retorno de 9% e inclui um dispositivo de recompra "a um ágio significativo", informa Buffett.

Essa é a verdadeira rede de segurança que a Berkshire estendeu para proteger o investimento. E a isso se soma o fato de que, em troca dessas ações preferenciais, a Berkshire se garantiu com opções de compra não padronizadas (warrants), que lhe permitem comprar 5% da Heinz por um preço "nominal" - em outras palavras, a preço de banana.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.