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O que acontece agora?

Nunca um indivíduo sem nenhuma experiência assumiu a presidência do país

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

20 Novembro 2016 | 07h07

Como outras pessoas, eu estava completamente errado. Os Estados Unidos elegeram Donald Trump. Hillary Clinton recebeu mais votos populares, mas perdeu no Colégio Eleitoral. Existe um nordeste azul desde a Virgínia e na parte mais ocidental do país. Basicamente, nessas regiões tudo o que se via era vermelho brilhante. Muitos governos e legislaturas estaduais passaram para o controle republicano. O país está mais dividido como nunca: do ponto de vista racial, religioso e regional. São muitas as explicações. A mais simples é que a propalada nova coalizão de mulheres, afro-americanos, hispânicos e indivíduos com formação universitária era mais frágil do que se pensava.

Trump conquistou maior porcentagem de votos hispânicos e das mulheres que o esperado. Menos afro-americanos foram votar. E sobretudo, como ocorreu com Ronald Reagan, houve mudança marcante da parte dos trabalhadores brancos com menos formação, cuja renda não aumentou nos últimos 30 anos à medida que a tecnologia rapidamente provocou alterações no mercado e as importações se expandiram.

Trump prometeu mudar tudo isto e tornar os EUA um país grande novamente, e isto rapidamente. O investimento tão necessário em infraestrutura aumentará substancialmente, abrindo vagas de trabalho e estimulando a participação privada. Os impostos serão reduzidos, especialmente para os ricos. O setor de manufatura interno voltará a ser o que foi no passado, ao passo que as importações e os investimentos dos EUA no exterior diminuirão. O Obamacare desaparecerá. A lei e a ordem prevalecerão. Estados prosperarão e o governo federal encolherá.

Os acordos internacionais serão renegociados e alguns tratados, como o firmado com o Irã, revogados. Os EUA se retirarão do Afeganistão, Iraque e Síria. Refugiados não serão aceitos, como também muçulmanos e imigrantes mexicanos sem cidadania. A mudança climática não é mais problema. Com Putin, da Rússia, há chances de um novo acordo em melhores condições. Ao menos é o que ambos esperam.

Este cenário não deve mudar, não obstante os protestos diários e a oposição de uma imprensa nacional, que se opõem a ele com boas razões. Os EUA jamais elegeram um presidente que mentiu como quis e ignorou a verdade quando lhe foi conveniente. Nunca um indivíduo sem nenhuma experiência política assumiu a presidência do país; mesmo líderes militares que surgiram no século 19 comandaram seus soldados sem visar vantagens pessoais.

Agora a única esperança é de alguma coerência da parte dos membros do Partido Republicano no Senado e na Câmara. Eles têm de elaborar um orçamento, ratificar os nomes dos muitos nomeados para as cerca de 4 mil indicações a serem feitas, incluindo o preenchimento da cadeira na Suprema Corte.

Trump é um indivíduo descontrolado, especialmente quando desvia de um texto já preparado ou usa o Twitter no meio da noite. Sua contribuição dentro de uma grande estrutura burocrática é duvidosa. Ele diz que testou pessoalmente os colchões dos quartos dos seus hotéis e concluiu grandes acordos por si só. Tanto no nível micro, como no macro, é excepcional, pelo menos é o que afirma e acredita.

Por outro lado, o vice-presidente Mike Pence terá de lidar com a tarefa real de comandar a nação e sua política externa. Como será sua gestão ainda não se sabe. Conseguirá garantir a escolha de um gabinete de governo e de diretores das agências reguladoras que sejam sensatos? Conseguirá assegurar um conservadorismo inteligente e não satisfazer os desejos de uma revolução autoritária nacionalista e populista almejada pela extrema-direita, em que a liderança americana no mundo será rejeitada em favor de um isolacionismo e o lucro privado mais do que o bem-estar da população?

Uma citação me vem à mente, de HL Mencken, influente colunista do Baltimore Evening Sun, há quase um século. “À medida que a democracia se aperfeiçoa, o cargo de presidente representa cada vez mais o sentimento mais profundo de um povo. Em algum dia memorável e glorioso, a gente comum desta terra alcançará enfim o que deseja de coração e a Casa Branca será ocupada por um total imbecil, completamente louco e narcisista”.

No Brasil, pelo menos, apesar dos muitos problemas que persistem, há boas razões para esperarmos um resultado muito melhor das grandes mudanças hoje em curso no País./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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